quarta-feira, dezembro 14, 2005

A.,

Tomei a liberdade de abrir as duas últimas cartas que você escreveu para V. Peço desculpas antecipadas, pois não tenho como hábito violar correspondências, como você bem sabe, mas o momento tornou tudo isso necessário. Senti-me aliviada por tê-lo feito, uma vez que se aproxima a data de sua viagem.

O que tenho para dizer-lhe é urgente demais, A. Seria mais fácil e rápido dar um telefonema, mas faltou-me coragem para pronunciar as palavras. De qualquer forma, minha filha sempre adorou escrever, devotava às palavras um amor profundo e delicado, então, acho que ela aprovaria minha iniciativa. Também sei que cultivava o hábito de escrever cartas a você, pessoa que ela amou verdadeiramente.

Ela tem duas gavetas repletas de cartas – todas suas – cuidadosamente amarradas e catalogadas por datas.

Lembro que eu dizia-lhe para telefonar, mas ela redargüia: “os manuscritos são insuperáveis, mama. Eles guardam a ansiedade da espera, o contato da mão com o papel, a caligrafia pessoal e intransferível. Cartas possuem identidade e alma... sem contar que sou uma pessoa fora de moda”.

Dizia-me sempre que a correspondência entre Mário de Andrade e Manoel Bandeira, bem como a de Pessoa com Mario de Sá-Carneiro perderiam toda a graça e paixão se, ao invés de cartas, eles trocassem e-mails frios e impessoais.

Eu ria dessa mania dela e hoje, depois de anos sem escrever uma linha, vejo que ela estava completamente certa. Dizia com aquele ar petulante: “um dia minha correspondência com A. dará um belo livro”.

Querida A., acho que gostará de saber que Um bonde chamado desejo foi sucesso absoluto durante toda a semana que esteve em cartaz em Paris. Nunca tive tanto orgulho de V! Ela estava radiante e jamais Blanche Dubois (Vivian Leigh que me perdoe!) pareceu-me tão real.

Na semana passada, nossa V. telefonou-me de Berlim e contou-me que retornariam mais cedo que o previsto, pois um dos rapazes adoecera, acho que o “Stanley Kowalski”.

Bem, há três dias atrás, na viagem de volta, houve um acidente na estrada e o ônibus da companhia de teatro tombou... nossa V. não resistiu.

Sei que não é a mesma coisa, mas se ainda desejar, terei imenso prazer em recebê-las em minha casa, você e sua pequena Tereza.

Sinceramente,
Beatriz

7 comentários:

Vítor Leal Barros disse...

mas que reviravolta é esta?... tu surpreendes-me, cada vez mais.

Lu disse...

Há algumas semanas, a verdade sobre essa correspondência me foi revelada, querido Vítor... desde então tem sido tão difícil dar continuidade às missivas! mas não fugirei ao que elas se propõem. Beijos.

Mariza disse...

Ai, Lu. Sem palavras.
*suspiro*
Lindo.
Beijo.

Lu disse...

Ai Mariza, essa correspondência superou-me, tem vida própria e exaure-me muito... também suspiro por aqui. É incrível, mas jamais estamos preparados para "os finais". Bem, eu acho que não estava preparada para a saída de cena de V.
Beijos, querida.

Mariza disse...

Querida, te desejo tudo de bom. No natal, no ano novo, em todas as áreas da sua vida.
Obrigada pela sua amizade.
Ano que vem a gente se lê :-)

CeciLia disse...

Lu !!

Que coisa, não gostei!. Não gosto de finais tristes, ainda mais nesta época, por si só já tão dolorida. Não gosto de mortes, de despedidas além daquelas já absurdamente necessárias do dia-a-dia. Eis-me aqui com um beiço de criança que quer mudar o fim da história. Por quê mataste V.? Não deverias, querida. Não deverias. Por enquanto é só isso. Mas sinto aqui dentro como se ela não fosse mais só tua, era um tanto nossa, de quem te lê, também. Como vamos nos espelhar nesta amizade agora?

Beijo na alma, querida. Bom Natal

Lia

Lu disse...

Mariza, um Natal mais do que especial pra você e sua família. Nos vemos em 2006!

Lia, os finais são inexoravelmente tristes, minha querida. Somente os contos de fada terminam bem porque sabemos que o final de verdade nunca é contado...rs.
V. ensinou-em muitas coisas, espero que ela tenha contribuído para a vida de quem leu as missivas por aqui. Nunca planejei essa correspondência. Ela surgiu como surgem as rosas... um dia são botões, noutros, kazan!
Há pessoas que são anunciadoras de novos começos. Acredito que V. seja uma delas. Num certo momento ela ficou maior do que a pequena autora que vos escreve e com vc bem disse, não é mais minha, cresceu e ganhou vida própria. Ela lembra-me uma personagem de um romance que nunca conclui... quem sabe agora não o momento de continuá-lo, hã? Não faça beiço, aproveite o vermelho caudaloso que ela ofereceu durante tantos meses.
Beijo enorme e Feliz Natal pra ti também.