Domingo, Novembro 20, 2011
No Recife...
Todo riso é pouco,
Toda história é nada,
Todo encontro é ponto de partida e chegada.
Toda vida é nau singrando água brava.
Riso, história, encontro, vida -
uma aposta, um jogo de cartas marcadas.
Sexta-feira, Agosto 19, 2011
Fim de tarde. Dia banal, terça, quarta-feira. Eu estava me sentindo muito triste. Você pode dizer que isso tem sido freqüente demais, ou até um pouco (ou muito) chato. Mas, que se há de fazer, se eu estava mesmo muito triste? Tristeza-garoa, fininha, cortante, persistente, com alguns relâmpagos de catástrofe futura. Projeções: e amanhã, e depois? e trabalho, amor, moradia? o que vai acontecer? Típico pensamento-nada-a-ver: sossega, o que vai acontecer acontecerá. Relaxa, baby, e flui: barquinho na correnteza, Deus dará. Essas coisas meio piegas, meio burras, eu vinha pensando naquele dia. Resolvi andar. Andar e olhar. Sem pensar, só olhar: caras, fachadas, vitrinas, automóveis, nuvens, anjos bandidos, fadas piradas, descargas de monóxido de carbono. Da praça Roosevelt, fui subindo pela Augusta, enquanto lembrava uns versos de Cecília Meireles, dos Cânticos: “Não digas ‘Eu sofro’. Que é que dentro de ti és tu? / Que foi que te ensinaram/ que era sofrer ?” Mas não conseguia parar. Surdo a qualquer zen-budismo, o coração doía sintonizado com o espinho. Melodrama: nem amor, nem trabalho, nem família, quem sabe nem moradia - coração achando feio o não-ter. Abandono de fera ferida, bolero radical. Última das criaturas, surto de lucidez impiedosa da Big Loira de Dorothy Parker. Disfarçado, comecei a chorar. Troquei os óculos de lentes claras pelos negros ray-ban - filme. Resplandecente de infelicidade, eu subia a Rua Augusta no fim de tarde do dia Tão idiota que parecia não acabar nunca. Ah! como eu precisava tanto de alguém que me salvasse do pecado de querer abrir o gás. Foi então que a vi. Estava encostada na porta de um bar. Um bar brega - aqueles da Augusta-cidade, não Augusta-jardins. Uma prostituta, isso era o mais visível nela. Cabelo malpintado, cara muito maquiada, minissaia, decote fundo. Explícita, nada sutil, puro lugar comum patético. Em pé, de costas para o bar, encostada na porta, ela olhava a rua. Na mão direita tinha um cigarro, na esquerda um copo de cerveja.
E chorava, ela chorava. Sem escândalo, sem gemidos nem soluços, a prostituta na frente do bar chorava devagar, de verdade. A tinta da cara escorria com as lágrimas. Meio palhaça, chorava olhando a rua. Vez em quando, dava uma tragada no cigarro, um gole na cerveja. E continuava a chorar - exposta, imoral, escandalosa - sem se importar que a vissem sofrendo. Eu vi. Ela não me viu. Não via ninguém, acho. Tão voltada para a própria dor que estava, também, meio cega. Via pra dentro: charco, arame farpado, grades. Ninguém parou. Eu, também, não. Não era um espetáculo imperdível, não era uma dor reluzente de néon, não estava enquadrada ou decupada. Era uma dor sujinha como lençol usado por um mês, sem lavar, pobrinha como buraco na sola do sapato. Furo na meia, dente cariado. Dor sem glamour, de gente habitando aquela camada casca grossa da vida. Sem o recurso dessas benditas levezas de cada dia - uma dúzia de rosas, uma música de Caetano, uma caixa de figos. Comecei a emergir. Comparada à dor dela, que ridícula a minha, dor de brasileiro-médio-privilegiado. Fui caminhando mais leve. Mas só quando cheguei à Paulista compreendi um pouco mais. Aquela prostituta chorando, além de eu mesmo, era também o Brasil. Brasil 87: explorado, humilhado, pobre, escroto, vulgar, maltratado, abandonado, sem um tostão, cheio de dívidas, solidão, doença e medo. Cerveja e cigarro na porta do boteco vagabundo: carnaval, futebol. E lágrimas. Quem consola aquela prostituta? Quem me consola? Quem consola você, que me lê agora e talvez sinta coisas semelhantes? Quem consola este país tristíssimo? Vim pra casa humilde. Depois, um amigo me chamou para ajudá-lo a cuidar da dor dele. Guardei a minha no bolso. E fui. Não por nobreza: cuidar dele faria com que eu me esquecesse de mim. E fez. Quando gemeu “dói tanto”, contei da moça vadia chorando, bebendo e fumando (como num bolero). E quando ele perguntou “porquê?”, compreendi ainda mais. Falei: “Porque é daí que nascem as canções”. E senti um amor imenso. Por tudo, sem pedir nada de volta. Não-ter pode ser bonito, descobri. Mas pergunto inseguro, assustado: a que será que se destina?"
Quarta-feira, Julho 13, 2011
Missivas
Quinta-feira, Março 10, 2011
Isso tem cheiro de Hannah Arendt...
Quarta-feira, Dezembro 22, 2010
Feliz Natal
Segunda-feira, Dezembro 13, 2010
As pupilas de Mona Lisa
Antes era o sorriso, agora, descobriu-se que dentro das pupilas de Mona Lisa está o segredo que revela a modelo que posou para Da Vinci. Bem, essa é a mais recente descoberta do investigador (in-ves-ti-ga-dor?) italiano, Silvano Vinceti.
Isso é ótima matéria para livro de ficção, o novo filme baseado na mente engenhosa do Dan Brown, uma aventura de jogos interativos, quem sabe...
Por que a Mona Lisa não pode simplesmente ser Mona Lisa? Acho que isto responde tão melhor aos anseios do pintor da tela.
Claro que toda obra de arte propõe uma leitura hegemônica que a situe no tempo e no espaço, além de comunicar sua gênese e seu “dever ser” no mundo mas, e as outras leituras, que são a grande delícia de um artista? Aquelas leituras subliminares, oníricas, típicas da fruição, do deleite artístico?
O discurso da pós-modernidade necessita de uma explicação para tudo, por que tudo tem que obedecer a uma lógica racional. Os parnasianos estão de volta e ninguém se deu conta. O fragmentário pós-moderno não respeita a ideia da pluralidade e da diversidade de vozes, no que tem de mais belo e forte e que Bakhtin chamou de polifonia. Relativizar demais nos leva a descaminhos, uma vez que tudo pode ser nada e nada pode ser tudo. Eu, aqui no meu cantinho, penso que a Arte demanda outro tipo de racionalidade. Mais importante do que saber quais as letras ocultas nas pupilas da Mona Lisa é saber o que as pupilas da Mona Lisa comunicam.
Diz o “investigador”:
Leonardo gostava de utilizar símbolos e códigos para transmitir mensagens, e queria que descobríssemos a identidade da modelo através de seus olhos”.
Será que ele realmente queria isso? Se Da Vinci quisesse que descobríssemos algo, ele teria deixado tudo muito claro – uma cartografia da imagem, talvez.
Da Vinci usou sua arte para instigar nossa imaginação, nossa capacidade de imergir nos terrenos movediços da criação, nossa curiosidade. Mas nossa sociedade tipicamente Big Brother exacerbou o significado de curiosidade.
Quem faz uso de códigos, palimpsestos, anagramas, palíndromos e toda sorte de leitura transversal me parece ser afeito aos mistérios, aos meandros do submerso.
Todo código quer comunicar algo que não pode ser dito claramente, ele demanda iniciação... talvez o código queira só ser código.
Segunda-feira, Dezembro 06, 2010
See you in Paris
É febre o que consome meus longos dias até que o verão chegue e com ele, finalmente... Paris.
Enquanto ardo, vou tecendo, resiliente, os fios inquietos da espera e já é possível vislumbrar águas-vivas ondulando na superfície da água; orquídeas que, de tão bonitas, beiram a obscenidade; margaridas singelas espalhando rumores de felicidade.
Já é madrugada, não consigo dormir. É profunda a vida em mim e, assim sendo, anseio que o sangue corra fluido pelas veias do meu corpo.
Eu conto o tempo por meio das palavras, contudo, antes de escrever sobre a espera de um certo verão, eu me perfumo toda e me preparo para ti, no limbo entre o sono e a vigília.
O que escrevo evoca memórias ígneas. Línguas de fogo voltam a arder e eu tenho novamente os olhos em brasa.

