quinta-feira, setembro 16, 2004

Por que escrevo?

Se escrever é inventar outras realidades, o que isso significa?
Que não me ajusto ao que chamam de real?
E o que chamam real não será uma invenção que não me convence?
Eu estremeço cada vez que toco o lápis.
Os muitos eus que me habitam travam uma briga feroz. Eles disputam entre si o direito de ter voz, suas reivindicações se acumulam até não caberem mais em mim. Aí eu estouro em palavras.
Essa vontade de fluir, de ser fonte inesgotável de mistérios e segredos é horrível. Temo que após deixarem meu corpo, essas palavras soem como mentiras e inventar não é mentir, meu Deus!
Escrever é tocar no oculto, no submerso.
Escavo o solo em busca das palavras escondidas e quando as encontro e as pronuncio, elas já escondem outras.
Procuro a palavra embrionária, a palavra matriz. Aquela que dá vida a novas palavras e aos sussurros, mas encontrá-la seria reduzi-la, estraçalhá-la, esgotar seus significados. Então, escrevo palavras pobres, forjadas na plenitude do meu silêncio.
Insisto no ofício, porque escrever é tocar no impossível e impossível é não criar outras realidades que justifiquem a vida em mim.
http://thousandimages.com

5 comentários:

Antoniel disse...

lendo o Tríade (Nálu), aportei nessa casa tão cuidada. Por que escrevemos? deixo-lhe esta tentativa de explicação. Um abraço

CAUSA E EFEITO


Escrevo pra reter meu pensamento
que ao largo do papel resta disperso.
Escrevo pois escrito me converso
no afã de ser de mim o complemento.

Escrevo pra sentir cada momento
e não para entender todo o universo.
Escrevo e compreendo a cada verso
que menos sei do meu conhecimento.

Escrevo o que não sou e o que não sinto.
Escrevo pra saber que eu também minto
no elã em que me oculto a mim mesmo.

Escrevo e o que eu escrevo me prescreve.
Escrevo e a palavra é o almocreve
que há de me açoitar, tangendo a esmo.

Antoniel Campos

Lu disse...

Antoniel, esta é uma casa sem portas para que os amigos entrem sem cerimônias e se espalhem pelos cômodos.
Estou contente que as palavras da Nálu tenham te encaminhado para cá.
A busca pela palavra é minha eterna preocupação, ocupa meu pensamento todo o tempo.
Obrigada por ter deixado versos tão bonitos e que apontam uma das tantas direções que o texto toma. Abraços.

Anônimo disse...

Querida Lu: que coincidência danada, sô... Eu, ainda hoje, estava cismando sobre essa temática que você abordou... Se, com a escrita, a gente não estaria preparando um ponto de fuga, um escape, coisas assim, que nos afastariam do real... Mas eu concordo com você, que escrever é tentar tocar o intangível, dizer o indizível. Mas, acredito que a gente escreve também para aliviar um pouco da dor ou da delícia de se viver... Eu escrevo por absoluta necessidade, porque não consigo calar "os muitos eus", como diz você. Eu tenho um texto sobre essa questão das multiplicidades que nos habitam...
Quanto à palavra matriz de que você fala, penso assim: cada contexto tem a sua própria raiz, cada momento traz a sua própria palavra preciosa. Escrever, portanto, é capturar a magia do momento.
O que você, minha querida, faz muito bem. Adoro ler você.
Beijo suave de estrela azul.
José de Castro.

jayme disse...

Tangenciado esse assunto, eu gosto muito dos consagradíssimos versos que dizem:

o poeta é um fingidor/
finge tão completamente/
que chega a fingir que é dor/
a dor que deveras sente/

Lu disse...

Castro querido, tudo isso que você falou pode e deve ser resposta aos meus questionamentos. Mas é que no segundo seguinte já não me satisfaz (rs). Porque no fundo, quando eu me satisfizer com alguma resposta vou ter alcançado o horizonte e daí não vai restar mais nada. A busca é incessante e é isso que me alimenta: a dor e o gozo de sabê-la inalcançável!
Quando escrevo ( e quando leio) mantenho-mw alerta, viva, intensa.
Depois quero vasculhar esse teu baú de palavras. Beijoca.

Jayme, menino, você não tangenciou, foi no centro nevrálgico. Pessoa sabia do que estava falando. Beijo.