segunda-feira, outubro 09, 2006

Ato de Contrição

Seis meses após o rompimento, esbarraram-se no mercado central. Ela congelou ao vê-lo, seu corpo contraiu-se num espasmo curto.
- Como é bom rever-te bem, Dulce! Estás mais bonita. Emagreceste!
- O mérito é todo teu.
- ?
- Sofrimento combinado à inapetência é um coquetel infalível, meu caro. Deixa qualquer Spa no chinelo.
Sem graça, ele olhou-a bem no fundo dos olhos e com 180 dias de atraso disse:
- Perdoa-me pela minha incapacidade, pela maneira brutal como parti.
Os olhos de Dulce ficaram quentes e úmidos, seu rosto estava em brasa. Ela pensou que despejaria ali toda a sua dor, ira, desprezo e incompreensão. Que finalmente chegara o momento de cuspir todos os cacos de vidros que engolira, o fel; que o esmurraria, que cobraria a conta do analista, da farmácia; que o insultaria e pediria o ressarcimento por todos os danos, pelas poucas horas de sono, pelos dias não vividos, por cada ruga, pela memória quase perdida, pelo riso esquecido, pelos sonhos mofados. Mas para sua surpresa, não disse nada.
- Dulce, se pudesse voltar o tempo...
- Não podes.
- Eu sei, mas se pudesse, ajoelharia a teus pés (e já foi ajoelhando) e imploraria teu perdão. Pediria mais uma ‘última chance’. Eu sei, eu sei... já me deste a última chance pelo menos duas vezes, mas, Dulce, descobri que é a ti quem amo. Eu sinto tua falta.
Respirou fundo. Depois, serena e compassadamente, falou:
- Dá-me uma boa razão. Convença-me que mereces.
Amaro suou frio. Não podia desperdiçar a oportunidade. Então resolveu apelar para Deus.
- Porque és boa, Dulce. Tu és cristã e como tal compreendes que todos cometem erros e se os reconhecem são dignos de uma segunda chance.
Como é engraçado ver o ser humano em estado de desespero. Amaro ali súplice, na sua frente, de joelhos... por muito menos, ela o teria recebido de volta.
- Encontra-me amanhã, às três da tarde, em frente à Catedral.
No dia seguinte, às três horas em ponto, ele estava lá.
Um vendedor de flores aproximou-se e pôs-lhe um envelope nas mãos.
- Uma dona pediu para entregar, moço.

Amaro, podes escolher. Vá 1) PARA O INFERNO ou 2) PARA A PUTA QUE TE PARIU. Para teres certeza da nobreza de minha alma, certifiquei-me quanto aos endereços. Se ambos não forem o mesmo lugar, certamente devem ser casas vizinhas, de modo que não perderás a viagem.
P.S.: Bondade tem limite.
P.S2.: Se tinhas dúvidas, agora sabes: o Diabo também existe.

8 comentários:

Sandman of the Endless disse...

Oi, garota! Procurando, procurando, um dia acabo te encontrando... Me dá mais pistas sobre você, vai... ;o)

Lu disse...

Encontraste-me no Sincronicidade, blog que compatilho de forma prazerosa com o meu amigo portuga, Vítor...

Aqui no DF, vivo pela biblioteca da UnB
;o)

CeciLia disse...

hummm...

gostei, gostei, gostei.
Acho que eu jamais teria essa firmeza (sou uma frouxa, mesmo), mas a Dulce, hein?

beijo na alma, querida

Sandman of the Endless disse...

Hummm... É uma boa pista mesmo! Quem sabe um dia nos topamos por lá? Vez em quando estou por ali mesmo coletando material para minhas pesquisas ou esteudando. Beijos... ;o)

Ana disse...

Então há uma outra casa igualmente acolhedora:)
Obrigada pelas palavras Lu.

Lu disse...

Lia, a Dulce tornou-se minha heroína ;o)
Beijos, querida.

Sandman, quando for à biblioteca é só me avisar. Inté.

Ana, essa casa, mais modesta, é minha residência pessoal... mas a proposta do acolhimento é a mesma, querida. Beijo.

Anônimo disse...

que a dor vire uma gargalhada farta.

Camila.

Lu disse...

Tão farta que te chamaria para compartilhar o riso comigo. Beijo, flor.