terça-feira, março 14, 2006

O diário de G.H (4)

As imagens

Há dias encaro esse band-aid com um misto de medo e curiosidade.Ando na casa inteira num vai-e-vem desmesurado, estou ansiosa e impaciente para as visitas. Receio que elas desconfiem do meu caráter duplo e comecem a me encarar com desconfiança.

É certo que não podia viver assim, prisioneira em meu próprio lar ou como um refém dando refúgio ao bandido. E por que eu acho que isso que está em mim é um inimigo? Como posso temer a mim mesma?

Fui até a gaveta da penteadeira e tirei um espelho desses que aumentam. Posicionei sua face em frente ao machucadinho e, de olhos fechados, puxei o band-aid de uma vez só. Abri os olhos e a feridinha tinha cicatrizado!Fiquei intragável por alguns dias, procurando no peito um vestígio do machucado que pudesse me revelar os tais olhos.

Vai ver a minha outra teve medo de mim e cimentou internamente as paredes para não ser mais incomodada. Sinto dizer que é uma bobagem, pois agora estou decidida a saber mais dessa criatura e não vou descansar enquanto não encontrá-la novamente.

Decidida a esquecer a obsessão, nem que fosse por um curto período, resolvi sair de casa e ver pessoas. Foi então que ao prender os cabelos num rabo de cavalo a fim de me maquiar, aproximei-me bem do espelho. Senti que por trás dos meus olhos um outro par de olhos me observava, atento. Puxei a cadeira para mais perto, mas eles já não estavam lá. De repente, uma ardência nas costas, virei-me abruptamente.

Estava lá grafado na pele: A I R T E M I S.

4 comentários:

CeciLia disse...

Os dentros ardem
as peles de fora
Grafam a sangue
clamam pela atenção

Teus textos andam cada vez mais surpreendentes, querida.

Lia curiosa, aqui, pra ver onde isso vai dar.

Edilson Pantoja disse...

O que dizer? Não, não. Não é por não ter lido. Li. Juro! É por que não sei mesmo o que dizer. É por não me achar. É a sensação que me veio. O que dizer? Achei muito bom, resolve? É pouco, eu sei que é pouco.... Li o anterior para me situar. Há uma origem. Leio o resto depois. Mas a sensação que o primeiro, lido autônomo, me deu, é que me deixou sem fala.
Vou pôr um link, posso?
Abraços de Belém!

Lu disse...
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Lu disse...

Eu também estou ansiosa pela continuidade, querida, mas ela só chega quando V. resolveu soprar aos meus ouvidos.
Beijos na alma

Edilson, fique à vontade para linkar. E obrigada por tuas palavras... os diários são uma impressão da leitura do livro de Clarice mesclada à outra influência inconteste na minha vida - a de Osman Lins.
E isso é tudo o que sei, porque o resto só descubro no momento de escrever.
Em breve espero fazer-te uma visita.
Abraços