segunda-feira, março 20, 2006

O diário de G.H. (5)

O reverso da medalha

Não sabia o que fazer. Estava em choque.
Preocupações menores acorreram ao pensamento: “ficarei com o corpo tatuado?”, “nunca mais poderei usar um decote?”.
O pranto explodiu, um medo repentino tomou-me de assalto, contudo, instantaneamente fui pensando em algo para me acalmar e comecei a cantarolar uma canção. Aos poucos já respirava normalmente.
Corri para a sala, procurei na estante o dicionário de mitos. Artêmis, Artêmis... Artêmis! Achei. A tal coisa havia grafado o nome de forma errada.

“Tida como virgem e defensora da pureza, era também protetora das parturientes e estava ligada a ritos de fecundidade; na Ática, enfatizou-se seu caráter de ‘senhora das feras’. Apesar dessa imagem protetora, Artêmis exibia facetas cruéis: matou o caçador Órion; condenou à morte a ninfa Calisto por deixar-se seduzir por Zeus; transformou Acteão em cervo para ser despedaçado por sua própria matilha e, com Apolo, exterminou os filhos de Níobe e Anfião, para vingar uma suposta afronta”.

Lembrava-me que a morte de Orion havia sido uma fatalidade, um ardil preparado por Apolo, mas isso não vinha ao caso agora. O que essa outra queria me dizer?
As costas voltaram a arder e busquei novamente o espelho.
Gritei para ela ouvir:
- Não quero que se acostume a isso. Meu corpo não é seu livro de cabeceira!
A ardência cedeu prontamente. Olhei através do espelho e minha pele estava novamente lisa, imaculada.
Vesti-me e saí de casa o mais rápido possível.
Entrei no carro, liguei o rádio e dei a partida. Distraí-me ouvindo as músicas e quando percebi já havia passado do bar. Olhei pelo retrovisor e... claro, a palavra era outra!

4 comentários:

Edilson Pantoja disse...

Olá! Voltei. Vim agradecer a passagem pelo Albergue e conferir este novo post. Boa essa incursão pela mitologia. Também pretendo dedicar um tempo à leitura dos anteriores, a fim de obter uma compreensão mais geral. É uma pena que eu ainda não conheça nada de Clarice Lispector...

Forte abraço de Belém!

Lu disse...

Coisa boa recebê-lo aqui novamente, Edilson.
Eu acho que a gente nunca conhece nada de escritores como Clarice, Machado, Osman, etc. Eles são deliciosos porque mudam a cada leitura.
O diário nasceu dessa provocação que senti diante da transformação ocorrida em G.H porque ele quis se apoderar de algo que ela julgou não lhe pertencer porque estava em outro. V. se estarrece exatamente porque se reconhece no outro; mais, porque sabe comportar em sua alma muitos desses outros.
A gente se fala.
Abração,
Lu

CeciLia disse...

Ah, minha Lu de Simetrias tantas...

Amei esta ardência das palavras grafadas a fogo e descobertas nos espelhos. Os eternos espelhos de uma Lu que me aparece quase Borgeana.

Beijo na alma

Lu disse...

Minha Lia, acho que nessa nossa trajetória que chamamos literária, as palavras têm um peso crucial, elas foram/são grafadas em brasa ardente e os espelhos fazem parte da imagem final que temos. Um pouquinho de tudo e todos refletem-se em nós.

Agora borgeana é um adjetivo que não sei se mereço.
Beijo na alma, minha querida.