sábado, março 14, 2009

Obras completas de D. Hélder Câmara

Sai neste mês de março a publicação de Circulares conciliares e Circulares interconciliares. Cartas, discursos e poemas-meditação escritos por D. Hélder Câmara entre os anos de 1962 e 1982.
Na contramão de tudo que temos ouvido da e sobre a instituição Igreja – retorno ao pensamento secular, excomunhões, insistência na ideia do pecado como punição, entre outras coisas –, D. Helder é o que há de bom, revolucionário, avant les lettres, é a expressão da fé e da doutrina cristã.
Homem tímido e que agia nos bastidores, D. Hélder contribuiu para o estabelecimento de uma Igreja engajada na causa dos pobres ou como ele mesmo dizia “mais servidora e pobre e menos senhora e rica”.
Dono de uma consciência profunda, D. Helder sempre teve um posicionamento claro e extremamente comprometido com o ser humano.

A postura de Dom Helder ficara clara desde o seu discurso de posse – uma histórica peça de coragem num momento em que mandatos eram cassados e as cadeias viviam abarrotadas de presos políticos.
“Ninguém se espante me vendo com criaturas tidas como envolventes e perigosas, da esquerda ou da direita, da situação ou da oposição, antirreformistas ou reformistas, antirrevolucionárias ou revolucionárias, tidas como de boa-fé ou de má-fé (...). Ninguém pretenda prender-me a um grupo, ligar-me a um partido, tendo como amigos os seus amigos e querendo que eu adote as suas inimizades. Minha porta e meu coração estarão abertos a todos, absolutamente a todos. Cristo morreu por todos os homens: a ninguém devo excluir do diálogo fraterno.”

Falou também do seu tema preferido: “(...) cuidaremos dos pobres, velando, sobretudo, pela pobreza envergonhada e tentando evitar que da pobreza se resvale para a miséria”.

É disso que as religiões precisam: de gente e de fé. Essas são as alavancas que movem o mundo dentro de uma mística onde pessoas professam sua relação com Deus. Teorias da prosperidade, dogmas infundados, relação de promiscuidade com o poder político e econômico, charlatanismo. Tudo isso empobrece o discurso teológico, esvazia templos e afasta o homem da sua porção divina, não religa nada, ao contrário, aparta o homem (matéria) da sua alma, estabelece relações céticas em relação à essência do ser humano.

2 comentários:

Marcos Pontes disse...

João Paulo II, que era um conservador em pele de cordeiro, colocou D. Hélder meio de escanteio por conta de seu progressismo. Um dos grandes brasileiros e injustiçados pelo esquecimento coletivo.

bete disse...

Uma visão crística, eu diria. E corajosa.