segunda-feira, março 23, 2009

Cópia2
Natal & Copos, Carlos Loff Fonseca

Havia um cavalo preso em seu peito. Selvagem e indócil. E cavalos selvagens não combinam com o confinamento, com os espaços restritos e a opressão. Sua agressividade não era à toa; bastava uma chance, a menor delas, para coicear tudo que se aproximava e parecia subtrair o pouco que já tinha.
Era um cristal. Estava a um triz de se quebrar além de tudo que estava ao seu redor. Não raramente associavam a fragilidade ao cristal. Onde veem fragilidade, eu vejo pureza. Deve ser esta a razão de não haver pureza nos dias de hoje. Tudo que é puro não dura, desmancha, estilhaça: a pureza é frágil e não suporta tantos muros.

8 comentários:

Marcos Pontes disse...

Tão bonito, tão bem escrito, tanta imagem poe´tica na prosa... Por que ser pessimista?

Lu disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
adelaide amorim disse...

É verdade, Lu: um texto rico de sentidos. Gosto muito dele.
Uma semana bem feliz pra você, um beijo.

CeciLia disse...

Um cristal, quando se estilhaça, minha Lu, faz quase zil diamantes em estado bruto. Pureza em transformação. Ainda assim, pureza. Entre a rocha e o cavalo.

Beijo compreensivo

Lu disse...

Ei Dade, como você está?
Depois vou te fazer visita e ler tuas letras sempre tão sensíveis.
Beijo

Minha Lia, ando em falta com ti, mas estou retomando tudo em relaçao à escrita. Novidade boa vem por aí, mas vou esperar um pouquinho para anunciar em grande estilo.
Beijo na tua alma

Lu disse...

Ei Marcos... essa sou eu. É assim que escrevo. Não sei se pessimista, otimista, realista...
Desde pequena, lembro que minhas professoras, todas invariavelmente, me falavam: "não coloque tanta força no lápis. Desse jeito, você imprime relevos nas outras páginas."
Eu escrevo com relevos, querido.
Não sei se a narradora do miniconto tem uma visão pessimista. Na minha impressão, ela apenas relata uma situação vivida em forma de metáfora.
Mas eu adoro ver que um texto, por menor que seja, evoque tantas leituras.
Beijo

bete disse...

Taí um texto finíssimo, quase transparente. A gente sente a leveza do cristal nas entrelinhas....coisa fina.

Analuka disse...

Lindo texto. Abraços alados.