quarta-feira, maio 28, 2008

(I)

“Não sei bem explicar o motivo, mas este é o processo: nos momentos de crise, meus movimentos são cíclicos. Primeiro me afasto de todos, busco o silêncio e a solidão. Sem isso sou incapaz de me ouvir. Depois me jogo nos livros. Não, não são aqueles que compõem a famosa lista os livros que preciso ler. São os mesmos de outrora. Releituras. É mais ou menos como visitar parentes, entende? Nunca é aleatório. Também não é leitura de entretenimento para burlar a angústia ou distrair os pensamentos. É sempre uma inquieta Clarice, um desassossegado Pessoa, um decadente Schoppenhauer. São palavras que habitam as profundezas. Simultaneamente escolho a trilha sonora. Enquanto leio, escuto Bach. É como voltar a um local especial e muito belo. Os afrescos da Sistina. Essa é a guerra. Enquanto desço aos meus porões, Bach trabalha secretamente rumo a uma ascese. Quem vence? Se ainda estou aqui, está claro que Bach tem se saído bem. Até agora ele foi sempre vencedor. Contudo, isso nunca me impediu, enquanto tateava o porão escuro, de colecionar cicatrizes. O que não é privilégio meu. As ostras estão aí para provar.”

2 comentários:

bete pereira da silva disse...

Lu, você sempre tão intimista e profunda. Venho aqui para absorver desse teu jeito de ser, para aprender, ou reaprender, a ser calma, a buscar respostas na solidão. Há muito que não consigo ler ou ouvir música, mas hoje você me animou a recomeçar, a espanar meus poucos discos, a revisitar livros antigos. Obrigada, valeu.

Lu disse...

Bete,
Eu fico realmente feliz em saber que meus rascunhos podem contribuir, inquietar, contagiar o Outro.
Tenho um amigo, o Vítor, com quem divido um outro blog. Lá temos uma série que batizamos de "Confessionário". Lá, eu já disse repetidamente que a única coisa que nos salva e vale alguma coisa nesse mundo é o afeto; o afeto com os outros e conosco mesmos.
Calma, eu? Menina, eu sou um vulcão sempre prestes a jorrar lavas incandescentes. Minha cabeça é uma abelha operária, nunca pára e muitas vezes sucumbo exausta. Mas aprendi também a não me debater mais, porque na fúria de escapar de quem somos, acabamos por nos machucar. Hoje, eu bóio quando nadar já não resolve. Depois é seguir.
Depois me conta como foi reencontrar velhos amigos nos discos e nos livros.
Beijoca.