sábado, agosto 11, 2007

O diário de G.H (9)

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A Ressureição de Lázaro. Pennacchi, Fulvio
Lazarus Heart

Lázaro. Foi esta a palavra que ela grafou em alto relevo sobre minha pele, como o arranhão de uma fera. O nome queimava na minha superfície, era um braseiro vivo, um vulcão cuspindo lavas. Não importava o que ou o quanto fizesse, nada aplacaria a ardência.
Foi então que os sonhos começaram a visitar-me todas as noites, assiduamente. Eles contavam-me sobre ela de maneira enigmática e fragmentada. Era um jogo, um puzzle.
Depois os sonhos cessaram e a ardência cedeu, a pele cicatrizou e de repente uma nova descamação. A pele ressequida foi saindo e mais uma vez surgiram os olhos súplices. Eles revelaram o segredo da palavra.
Disse-me que vivia em mim já há algum tempo. Seu embrião, latente, esperava pelo momento certo de fazer-se presente. E exatamente no seu aniversário de um ano, ela abriu os olhos pela primeira vez, esticou pernas e braços procurando ajustar-se à minha forma.
Como Lázaro, ela ressuscitou.
A quantos fora dada uma segunda chance? Uma nova vida? Nascer e nascer?
Esqueceram apenas de me perguntar se eu queria, se eu estava disposta a ter dois corações a bater e, conseqüentemente, a se dilacerarem.

7 comentários:

Edilson Pantoja disse...

Vejo naquela que nasce, dona de um outro coração, justamente quem se faz anunciar por um nome: a palavra.
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Pois é, Lu, eu também andei sumido, seco de criação. Mas aos poucos o meu Lázaro também sai da cova.
Forte abraço, querida!

Jefferson P. disse...

.. tenho dois corações batendo forte!.. os outros me seguem..

abrç de poeta!

Lu disse...

Pois é, Edilson, você entendeu perdeitamente o dilema da personagem que escreve o diário. Este é o outro coração que ela (e eu)carrega(mos).
Beijão.

Olá Jefferson. Quanto tempo não nos falamos, né, menino? Como você está?
Que inveja! É raro ter corações tão obedientes.
Beijocas.

Val disse...

Nossa Lu, como me identifiquei! (...)
Um dia desses falei para minha terapeuta que não era fácil 'sentir'. Ela retrucou. Mas eu insisti dizendo que eu "sentia demais". Ela considerou um avanço eu verbalizar isso.
Na época não entendi essa sua conclusão. Talvez o 'Diário...' tenha me dado uma luz.
Bjos!

Lu disse...

Valzinha, "não é fácil sentir" mesmo. Menos fácil ainda é saber verbalizar o que vai dentro da gente com alguma precisão, sem gerar confusões e notas de rodapés imaginárias e infindáveis.
Feliz aqui por contribuir ainda que distante.
Beijo saudoso, mana!

adelaide amorim disse...

E quando esse duplo se faz presente, nunca se sabe o que pode acontecer além da descoberta de que nada era só o que parecia...
Beijos, Lu.

Lu disse...

Nunca se sabe, Dade. Nunca se sabe.
Beijão, querida.