terça-feira, julho 31, 2007

Sala de leitura (3): para não esquecer

Que país é este?

Não Verás País Nenhum, de Ignácio de Loyola Brandão, tem edição comemorativa de 25 anos, com "bônus" como o Diário de Trabalho do autor sobre seu processo criativo

Por Luiz Carlos Monteiro*


O sentido alegórico do totalitarismo de um mundo desertificado, massificado e alienado faz-se presente nas páginas de Não Verás País Nenhum, romance de Ignácio Loyola Brandão que recebe agora uma edição comemorativa, a vigésima-quinta, 25 anos após a primeira. Publicado em 1981, provavelmente foi concebido durante a década de 1970 e traz assim a marca das duas décadas, além de atender a uma inclinação futurística revelada ao longo dos anos posteriores, culminando nos nossos dias com as discussões recentes sobre as conseqüências mais destrutivas e urgentes do aquecimento global. Reafirma então a denúncia do colapso ambiental, com a escassez de água e a morte indiscriminada do verde de árvores e plantas. E, mais ainda, a luta do sujeito contra o Esquema que a tudo uniformiza e que dimensiona a vida nos moldes da repetição, da rotina e da banalização. Não se pode deixar de lembrar o 1984 de George Orwell, livro familiar e indispensável a todos que de algum modo esperaram pelo cumprimento das suas proféticas colocações a respeito da grande opressão que se abateu sobre os indivíduos a partir das primeiras décadas do século passado, com a ascensão indiscriminada do capital ou, nos grupos stalinistas, a defesa ideológica de um regime de terror e de imponderáveis e indesejadas intervenções, em detrimento dos valores e atributos mais caros ao homem. Nos regimes duros e massificados não se admitem coisas como a liberdade de mover-se interna ou externamente no país em que se vive, sem permissão prévia. Assim como não se tolera a convivência de pessoas em grupos sociais com o intuito de desenvolver idéias próprias e coletivas, além de intentar perfazer escolhas que incidam sobre o trabalho e o lazer, pois ali prevalece “a vida metodizada, racionalizada”. Souza representa o indivíduo comum que se rebela – ensinou História, trabalhou na burocracia e, sem ser avisado, foi aposentado compulsoriamente. Por não se curvar às inumeráveis regras do Esquema, sofreu retaliações, torturas e castigos, até perder tudo, inclusive a mulher, Adelaide, de longa e calada convivência. No Diário de Trabalho, da época em que estava coletando material para o texto, e que acompanha esta nova edição, Loyola esclarece que tudo se iniciou com o seu próprio conto “O Homem do Furo na Mão”, de 1972, que virou também um volume de contos em 1987. O título do conto já consiste em apontar a “diferença” que estabelecerá, em conseqüência, a “outridade” do personagem – pela consciência radical sugerida e em relativa atividade que ele, Souza, detém no romance –, e o desempenho acanhado, medroso e passivo de muitos outros seres da mesma sina com quem trava relações. Texto inaugural que funciona, portanto, como o embrião de Não Verás País Nenhum, fornecendo a idéia central e o esteio inicial para a elaboração progressiva das peripécias e revolta do protagonista no decurso de seu simulacro de vida, paixão e desrazão no romance. Não Verás País Nenhum é o que se poderia chamar de um clássico da literatura contemporânea brasileira. E, como a maioria dos clássicos, tende a cristalizar-se numa forma ou, por outra, na contextualização de uma época. Loyola Brandão, que estreou com os contos de Depois do Sol (1965), escreveu romances social e expressivamente demolidores como Zero (1975) e insidiosamente autobiográficos como Dentes ao Sol (1976). Teve adaptações de livros seus para o cinema e o teatro. É de uma geração que estampa nomes de importância óbvia – Rubem Fonseca, Raduan Nassar, Affonso Romano de Sant'Anna, Moacir Scliar ou, entre os mortos, um Roberto Drumond, um João Antônio. No entanto, ele sempre construiu um caminho ficcional solitário e independente, sem se esquivar de interagir com outros artistas e escritores. No caso deste livro, que não perde o sabor premonitório que o estigmatizou, o papel de denúncia e conscientização visava à maioria, a parte de quem sofreu a opressão, o medo e o terror. E nisto consiste algo da persistência político-ideológica que carrega, pois a sociedade brasileira ainda continua a se embater nos termos de uma ética política fragilizada, de uma proposta sócio-ambiental pífia e do combate incipiente às manifestações da violência, da corrupção e do assalto aos bens públicos.


* crítico literário, poeta e autor de Na Solidão do Néon; Vigílias; Poemas e O Impossível Dizer e Outros Poemas.

2 comentários:

adelaide amorim disse...

Uma ótima resenha, Lu. Aprendi algumas coisas sobre Loyola. Valeu. Um beijo pra você.

Lu disse...

Dade, eu sou fã do Brandão. Gosto especialmente do "Zero" e de "Bebel que a cidade comeu".
Saudades,
Lu