domingo, março 18, 2007

Literaturas Comparadas

Eduardo Coutinho, doutor em Literatura Comparada pela Universidade da Califórnia (Berkeley), considera que a escritura brasileira ganha espaço no mundo e analisa questões como o ofício de escrever e o Pós-Modernismo

Por Luiz Carlos Monteiro*

Filho do grande crítico literário e introdutor do New Criticism no Brasil Afrânio Coutinho, Eduardo de Faria Coutinho tornou-se professor titular da UFRJ, onde já lecionava desde a sua formação. Apesar de grande admirador das letras brasileiras, enveredou pelas literaturas de vários países e a isso se deveu sua escolha por pesquisar e lecionar Literatura Comparada. O seu livro Literatura Comparada na América Latina: Ensaios, de 2003, trata exatamente de questões ligadas ao comparatismo no continente latino-americano.

O OFÍCIO DE ESCREVER
Uma Oficina Literária não ensina um indivíduo a escrever, no sentido de dar-lhe qualquer tipo de receituário, mas a desenvolver suas habilidades como escritor; daí ela designar-se “oficina” ou “laboratório”. A Oficina Literária é um lugar de treinamento, para onde o indivíduo leva seus textos e os vê discutidos por colegas e por profissionais da área que os vão ajudar a aprimorá-los. Esses textos são reescritos diversas vezes, à medida que as contribuições dos demais participantes vão atuando sobre o autor, e este vai gradativamente aprimorando sua escrita até chegar a uma forma que o satisfaça naquele momento. É um trabalho coletivo, de enriquecimento mútuo, porque todos os participantes apresentam textos que são constantemente reescritos e reelaborados, a partir das contribuições oriundas das discussões com os demais. A Oficina Literária Afrânio Coutinho foi uma experiência pioneira nesse sentido e que produziu grandes frutos. Diversos poetas e contistas, por exemplo, ganharam muita projeção depois que a freqüentaram. E ela marcou a vida cultural do Rio de Janeiro na década de 1980.

AFRÂNIO COUTINHO
O meu pai exerceu uma influência constante em minha vida, sobretudo pelo exemplo de grande intelectual, erudito, mas ao mesmo tempo simples, sem sofisticações, de extraordinário pensador, sempre inquieto, indagando sobre tudo, e pelo seu caráter de pioneirismo que o levou a construir coisas como a Faculdade de Letras da UFRJ, com seus cursos de pós-graduação, modelares durante tanto tempo, e uma obra crítica e ensaística sólida, que se ergueu contra a crítica puramente impressionista, introduzindo uma perspectiva mais científica na abordagem do fenômeno literário. Ele foi sem dúvida o introdutor do New Criticism no Brasil, mas o tipo de crítica que ele aqui desenvolveu diferiu também do New Criticism na medida em que nunca deixou de lado a importância do contexto. Dentre suas diversas obras, A Literatura no Brasil tem-se destacado pelo seu cunho de monumentalidade. É uma obra de história literária coletiva que ele idealizou e coordenou, tendo escrito inclusive muitos de seus capítulos, a maioria dos quais foi reunida em outro volume, publicado sob o título de Introdução à Literatura no Brasil. É uma obra em seis volumes, que abrange toda a produção literária canônica brasileira, desde suas primeiras manifestações até o período de sua produção (2ª metade do século 20), e que foi amplamente reeditada, achando-se já na 6ª edição, atualizada. Minha participação na obra restringe-se apenas às últimas edições, que eu ajudei a rever e atualizar, e para as quais contribuí também com um capítulo sobre o Pós-Modernismo.

LITERATURA BRASILEIRA
Acho que a literatura brasileira já construiu um espaço no cenário internacional, tanto que ela é estudada com interesse nas universidades de diversas partes do mundo, como nos EUA e na Europa Ocidental. Em alguns países, como, por exemplo, a França ou os EUA, há inclusive formação em Literatura Brasileira. Na América Hispânica ela está despertando um interesse cada vez maior e está penetrando cada vez mais os currículos universitários. No que diz respeito ao caráter estético-literário das obras, acho que a nossa produção não deixa nada a dever com relação às grandes literaturas do Ocidente. O que dificultou durante muito tempo o conhecimento de autores brasileiros no exterior foi a barreira idiomática, mas isso está sendo superado graças ao número cada vez maior de traduções que se têm feito de obras de nossa literatura. E essa quantidade de traduções demonstra, por sua vez, melhor do que qualquer outro aspecto, o interesse que há por tais obras.

PÓS-MODERNISMO
O que vem sendo designado de Pós-Modernismo no meio acadêmico atual é um movimento surgido nos Estados Unidos na década de 1960 como reação aos excessos do Modernismo anglo-saxão e das correntes teórico-críticas imanentistas, que haviam dominado o meio intelectual e artístico na década precedente. Surgiu com figuras como John Barth e Thomas Pynchon, no campo da literatura, e Andy Warhol na esfera das artes plásticas, e teve como uma de suas principais preocupações a crítica às chamadas “grandes narrativas da modernidade”, para empregar a expressão de Lyotard, um de seus mais destacados teóricos. O Pós-Modernismo cresceu e se espalhou bastante nas décadas seguintes, estendendo-se a outras partes do mundo e aos mais variados setores do conhecimento, e associando-se às lutas políticas que se vinham então desenvolvendo por parte dos grupos minoritários. Na literatura, ele foi amplamente marcado pela auto-referencialidade das obras e pela preocupação com a contextualização histórica, como reação à supervalorização do caráter autotélico do texto defendido pela estética anterior e pelos adeptos das correntes imanentistas. Na América Latina, a discussão sobre o pós-moderno chegou na década de 1980, dividindo a crítica entre os que aceitavam a designação e os que a consideravam mais uma importação forânea, pouco compatível com o nosso contexto. Deixando de lado as divergências e polêmicas que se desencadearam a partir daí, fato é que o termo hoje vem sendo aceito pela crítica acadêmica para designar, sobretudo, um tipo de produção que se diferencia da modernista em alguns aspectos significativos, dentre os quais a presença constante da mídia, a auto-referencialidade citada, os experimentalismos flagrantes e a necessidade premente de reler obras anteriores com o olhar do presente.

FUTURO DA LITERATURA
Eu não acredito que o mundo audiovisual venha a acabar com o livro ou com o prazer da leitura. São coisas diferentes que não me parecem incompatíveis. Ao contrário, acho até que as formas de expressão audiovisual podem contribuir para o interesse pelo livro, como é o caso dos filmes ou das novelas de televisão baseadas em obras literárias que têm contribuído bastante para a venda dessas obras. Não sou pessimista quanto ao futuro do livro.

* Luiz Carlos Monteiro é crítico literário, poeta e autor de Na Solidão do Néon, Poemas e O Impossível Dizer e Outros Poemas.

4 comentários:

Jefferson P. disse...

Adorei suas ponderações em relação a literatura..

Penso que a literatura, jamais acabará, pois não pertence à realidade...

Abrçs.

adelaide amorim disse...

Sinto novos ares aqui no Glossolalias. E bons. Gostei dos últimos posts. Um beijo grande.

Lu disse...

Jefferson, essa matéria encontra-se na íntegra no úlitmo número da Revista Continente e as ponderações pertencem ao Luiz Carlos Monteiro.
Sim, concordo com você quando diz que a literatura jamais acabará, mas na minha opinião o motivo é porque é a mais pura realidade, recortes da vida ainda que ficcionada.
Beijão.

Dade, minha flor, o glossolalias é reflexo dessa autora desmesurada...hahaha.
Acho que estou experimentando novos ares e isso se reflete aqui. Beijo grande, querida.

Anônimo disse...

pós impressionante. Realmente gostei de ler seus posts.