sexta-feira, julho 15, 2005

Refrão

"A originalidade é impossível. No máximo, podemos variar muito ligeiramente o passado, dar-lhe um novo matiz, uma nova entonação. Cada geração escreve o mesmo poema, conta o mesmo conto. Com uma pequena diferença: a voz."
Jorge Luís Borges


Ajudo a dar os últimos retoques numa mala que parece mínima diante da infinidade de coisas sem serventia que precisam nela caber. Empurra daqui, empurra dali e um caderninho salta do canto. Puxo-o na intenção de recolocá-lo em um lugar mais apropriado, mas ele tomba e ínúmeras fotos espalham-se sobre o lençol.

Junto-as, uma a uma, e rostos jovens e prazenteiros – uma meia dúzia deles – revelam-se.



Mal podia conter a excitação de viajar sem os meus pais.
Seríamos apenas eu e minhas três amigas durante todo um final de semana. Nada de proibições, dormir e acordar cedo, olhares interrogativos.

No sítio da avó de Ana, ficaríamos todas no mesmo quarto e poderíamos conversar a noite inteira, fofocaríamos até o sono nos vencer. Nenhum adulto (sim, porque avós não são adultos. Eles fazem parte de um universo inclassificável de pessoas) por perto para dizer: “desliga a TV”, “olha esse telefone”, “não coma besteiras”.

Mamãe é que não parecia muito animada. Estava sempre com os olhos brilhando e com a boca cheia de recomendações.

Toda hora entrava no quarto para ver se não havia esquecido de colocar na sacola o remédio, o agasalho, as meias, aquele par de tênis confortáveis...

“Se sentir saudades ou não estiver bom é só ligar que vamos te buscar!”

Como não seria bom ficar um final de semana inteirinho sem regras e com minhas melhores amigas? E se eu sentisse saudades era só ligar. Sem contar que ‘vó’ Celina ia estar por perto! Mãe tem umas coisas meio inexplicáveis, parece que tem hora que fica boba, mais infantil que os próprio filhos!



- Marina, D. Marina! Oh, mãe! O ônibus da escola já está buzinando lá fora!

Limpei as lágrimas rapidamente e falei com o meu melhor sorriso:

- A mala está prontinha! Divirta-se muito, querida!

Jogou um beijo no ar e saiu na carreira.

8 comentários:

Fernando Santana Jr disse...

Por que nos preocupamos tanto em ser originais? Já bastaria que fôssemos bons, não?
Grande beijo.)

Lu disse...

E como bastaria, Fernando! Beijão.

RMello disse...

Já que me acusaram de ter como patrono o Bandeira, quando li esse conto, Lu, lembrei daquela frase dele: "Todas as manhãs o aeroporto em frente me dá lições de partir" (Lua Nova).

Beijos.

Lu disse...

Que cousa, hein??!! Sabe que eu sou meio resistente para as lições de aeroporto, Rodrigo? De tanto ver gente partir, eu quero mesmo é ficar. Beijos.

Anônimo disse...

Histórias gostosas da infância, ficam pra sempre na vida da gente. É de lá que vêm as linhas que vão guiar sempre o que se escolhe, as boas lembranças e as "inspirações". Um beijo pra você, Lu, da Adelaide

Lu disse...

A memória é um recurso que encanta e surpreende, Adelaide. Beijos, querida.

Vítor Leal Barros disse...

é sempre complicado cortar o cordão umbilical.... e as mães sofrem tanto quando vêm os filhos a caminhar pelas próprias pernas...por vezes acho que ficam com a sensação de que já não são necessárias, que a sua tarefa terminou... mas isso não é verdade, mesmo quando temos a idade de vovó Celina, a mãe é uma necessidade constante...

beijo lu...e desculpa a demora

(a minha mãe chama-se celina...gostei de ler esse nome no texto)

Lu disse...

Sincronicidade, diria Jung :))
É mesmo muito estranha essa 'coisa' que se instala na relação pais e filhos depois que os últimos tomam consciência que têm asas e que sua função é voar. Eu mesma já estou começando a ver as pontas das asas de uma certa mocinha... c'est la vie!

Sem problemas, é sempre festa quando amigos como você aparecem. Beijão.