sexta-feira, setembro 19, 2008

IV

De todas as coisas que existem, sempre acreditei na redenção, na força de renovação de tudo aquilo que vive e pulsa. Os pequenos milagres sempre me causaram fascínio: um corte que sangra e depois sara, fechando a carne por si só, numa costura fina e imperceptível; a pele da grávida que se estica toda e logo após o parto retorna lentamente ao que era, regenerada. Pura mágica de um ágil prestidigitador.
A despeito de todas as misérias e catástrofes, eu sempre acreditei na redenção. Não sei se por hábito ou teimosia.
Ultimamente, os pequenos milagres estão cada vez menores. A minha capacidade de estupefação diante das surpresas e do ‘inesperado bom’, como diria a Clarice, está reduzida a proporções diminutas. Ela é quase um fiapo que se solta da roupa esgarçada, rota. Rotos são os despropósitos, os imbecis, a estupidez.

4 comentários:

bete pereira da silva disse...

Lu, interpretando o que você escreveu numa oitava mais digamos, mais dia-a-dia, eu sou daquelas que não corro atrás de tomar remédios numa gripe, porque acredito na recuperação natural do corpo. E até hoje sempre deu certo. Gostei da proposta, mesmo que diminuta, agarre-se a ela. João Cabral de Melo Neto dizia no poema Morte e Vida Severina, que a vida "teimosamente se fabrica".

Lu disse...

Oi Bete! Tá boa, querida?
Pois é, JCMN tem a pedrada certa pra calar a boca da gente... a vida teimosamente se fabrica e faz tantas coisas mais. Eu também acredito na recuperação do corpo, mas a gente vai envelhecendo e o processo natural mostra que uma hora o corpo não dá conta de fazer sozinho o que antes era simples, sopa no mel, entende? Mas enquanto existir um fiapo, teimosamente a gente se reinventa.
Beijo.

CeciLia disse...

Lu, linda, anda a refazer-te!

É primavera, linda! Lembra da Cecilia, aquela outra, que ensinou-nos a deixar-nos cortar e renascer sempre inteiras?

Beijo na alma

Lu disse...

Saudade tuas, minha Lia!
Bom constatar que há mais alguém que anda a se refazer. rs
Beijo imenso na alma.