sábado, maio 06, 2006

O diário de G.H (6)

Não pude ficar no bar. Estava excitada com a descoberta dos reflexos do espelho. Dirigi, sem direção, cortando ruas, reconhecendo avenidas, perdendo-me em becos. É que eu tenho essa mania de viajar, essa facilidade de me desligar do tempo e me descolar do espaço. Posso passar o dia inteiro debruçada numa janela observando o movimento da rua.
Lembro-me que ele espumava de ódio toda vez que me teletransportava. Podíamos estar no calor da maior discussão, mas se escutasse passos na calçada ou uma música que me tocasse, eu simplesmente não estava mais lá.
De repente, eu não estava mais lá nem aqui. Eu estava no vapor do banheiro, na palavra escrita a dedo no espelho. Era preciso voltar e descobrir não quem eu sou, mas qual delas sou eu.
Estava em casa, sentei-me diante do espelho oval adquirido num antiquário. "É um legítimo espelho da era vitoriana" - disse a vendedora toda afetada. Vitoriana era eu ali, parada, tentando reconhecer minhas verdades. E eu não queria que tais verdades fossem usadas como um pretexto para mentir. Confessar-me poderia ser uma grande vaidade e eu queria me despojar dela; queria tocar nessa coisa áspera que se oculta no breu da noite.
Essa coisa áspera era a tal AIRTEMIS? Quer dizer, SIMETRIA.
O que isso queria dizer?
Simetria seria essa minha pretensa vocação para organizar as coisas ao meu redor? Ordenar as coisas era o primeiro passo para meu processo criativo. Juntar fragmentos, liberar o caos para depois aprisioná-lo. Era como colocar os planetas em órbita. Mas a órbita de fora nada tinha de simétrica com a órbita da minha cabeça e das coisas efervescentes que agastavam meu juízo.
Foi então qu lembrei de G.H, estupefacta diante da barata.
Eu entendia seu horror e sua atração pelo inseto que sempre existira antes de toda e qualquer existência.
Suei frio só de pensar que aquela outra era imemorial. Era a matéria viva tentando rasgar minha pele morta e inexpressiva. Eu só consegueria sair vivificada se a enfrentasse e, numa atitude antropofágica, a devorasse.
Fiquei atenta aos movimentos. Era irremediável o encontro perigoso e necessário.

7 comentários:

CeciLia disse...

Que saudades de vir aqui! E que força encontro nesta G.H. reinventada, ameaçadora, desamordaçada de medos e enfrentamentos!

Adoro teus textos, minha Lu. Não demora mais tanto, viu?

Beijos na alma.

Lu disse...

Lia, minha Lia, se soubesses o tissunami que passou na minha vida!! Eu ainda escrevo, mas não tenho vontade de postar nada nem falar muito. Na verdade ando muda, comunico o necessário apenas. Mas deixa, minha Lia, há tempo para tudo e isso também passa.
Beijos enorme nessa tua alma.

Mariza disse...

Oi, linda. To com saudade!
Estou de casa nova, viu>
http://truffacomcanela.blogspot.com

Edilson Pantoja disse...

Então voltaste! E nem avisou! Gostei muito do capítulo!
Abraços de Beém!

Lu disse...

Mariza, minha flor, assim que tiver um tempinho vou lá ver como ficou a cara do teu novo blog. Beijos.

Edilson, não avisei porque realmente não sei se voltei como o blog merece... ainda titubeio entre o silêncio e as palavras. Obrigada pelo carinho.

eu&eu disse...

e eu sou apaixonada por esta "Paixão segundo G.H"
Obrigada.

Lu disse...

Os diários ainda estão inconclusos e não é por esquecimento, mas pela fome da personagem.
;o)