terça-feira, novembro 01, 2005

Existem alguns livros que conseguem manter o frescor das novas descobertas mesmo após muitas releituras.
A História de Cronópios e Famas, de Julio Cortázar é um desses livros. Não sei explicar direito, mas todas as vezes que releio esse trecho uma sensação estranha me invade. É como se chovesse dentro de mim.
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Gotas, Rui Vieira.

APLASTAMIENTO DE LAS GOTAS

Yo no sé, mira, es terrible cómo llueve. Llueve todo el tiempo, afuera tupido y gris, aquí contra el balcón con goterones cuajados y duros, que hacen plaf y se aplastan como bofetadas uno detrás de otro, qué hastío. Ahora aparece una gotita en lo alto del marco de la ventana; se queda temblequeando contra el cielo que la triza en mil brillos apagados, va creciendo y se tambalea, ya va a caer y no se cae, todavía no se cae. Está prendida con todas las uñas, no quiere caerse y se la ve que se agarra con los dientes, mientras le crece la barriga; ya es una gotaza que cuelga majestuosa, y de pronto zup, ahí va, plaf, deshecha, nada, una viscosidad en el mármol. Pero las hay que se suicidan y se entregan enseguida, brotan en el marco y ahí mismo se tiran; me parece ver la vibración del salto, sus piernitas desprendiéndose y el grito que las emborracha en esa nada del caer y aniquilarse. Tristes gotas, redondas inocentes gotas. Adiós gotas. Adiós.

P.S1: Agradeço ao Pedro por ter me apresentado esse espetáculo pluvioso.
P.S2: Aqui tem mais Cortázar.

quinta-feira, outubro 20, 2005

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V.,

O que eu poderia esperar de você a não ser o melhor? Seu amor, paciência, generosidade... obrigada por não me julgar, minha querida, porque eu já faço bem o papel da juíza, minhas sentenças são severas demais, mas acredite, eu já posso soprar minhas feridas sem lambê-las.

Quando você me falou sobre as portas de seu castelo, lembrei-me imediatamente de sua mãe. Certa vez ela nos preparou um chá delicioso, muitos biscoitos e geléias. Você ficou calada a maior parte do tempo, olhos baixos e úmidos e quando finalmente resolveu falar foi pra pedir-lhe que me contasse a história tantas vezes repetidas a você quando criança.

Este foi o dia em que fiquei sabendo que seu pai tinha sido promovido e iria ocupar um cargo na França. Lembra V.? Tudo ainda está tão nítido na minha memória!

“Era uma vez uma ave muito rara, de plumagem exuberante. Todos os dias ela ia ao jardim da casa de Annie.
A menina observava-o da janela e já ensaiava uma aproximação. A cada dia, ela chegava mais e mais perto do bichinho até que teve uma idéia: foi à cozinha, esfarelou a casca do pão na palma de sua mão.
O pássaro vinha rápido, bicava os farelos e depois voava. Isso repetiu-se por semanas até que adquirida a confiança, ele pousou nas mãos de Annie para se alimentar sem pressa ou receios.
Ele voltava todos os dias e ambos deleitavam-se de prazer.
Um dia, a menina resolveu prolongar o encontro e assim que o pássaro pousou, ela fechou as mãos, prendendo-o e acariciando a sua plumagem.
Apesar de não ter se machucado, o pássaro ficou muito assustado e assim que Annie abriu as mãos, ele voou alto, muito alto.
No dia seguinte, ela foi esperá-lo no jardim, como sempre fazia, mas o pássaro nunca mais voltou.”

É isso o amor, não é V.? Um pássaro livre que ficará para sempre em nossas vidas se soubermos respeitar suas asas.

Todo esse tempo em que silenciei, V., foi para tomar coragem de abrir minhas mãos e libertar o pássaro que havia nelas. Resumindo: minha love story chegou ao fim. Tudo ainda é muito novo e dói terrivelmente, minha querida, ao mesmo tempo, nunca houve tanta serenidade nos meus movimentos.

Preciso te contar algo extraordinário, V! ando compulsiva com o lápis, tenho escrito qualquer coisa em qualquer pedaço de papel. Não existe muito nexo no que escrevo, mas tem sido uma descoberta deliciosamente egoísta.
Eis um mundo ao qual só a mim pertence!

Estive pensando em ir ao seu encontro.
Há quantos anos não nos vemos, V.? Seis, talvez sete? Meu Deus, minha Teresa fará quatro anos e é um absurdo que vocês não se conheçam!
Veja a sua agenda e me diga se posso chegar em Paris junto com a primavera.

Saudades,

A.

terça-feira, outubro 04, 2005

De Vitória de Santo Antão para o mundo

Dando uma barata de sebo, que não se conforma com as injustiças literárias, finalmente encontrei algo interessante, que vale a pena a visita.

Para quem, como eu, é apaixonada por ele, corra e delicie-se.

;))

quinta-feira, setembro 29, 2005

Confissões

“Tenho a minha vida nas mãos, Abel. Recebe-a.
Mas ouve: o amor, artefato de difícil manejo,
é cheio de botões secretos
e de facas que à mínima imperícia ou distração
saltam voando e lanham a carne”.

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José Sobral Negreiros

Eu amo-o. Isso não altera a ordem do universo. Amo-o. E amá-lo é um ato solitário, independe de sua vontade, do seu querer. Amor – uma seta que flui de mim em sua direção e é da minha natureza fluir, lançar setas.

Ninguém, nada pode impedir o fluxo que jorro abundantemente. Nem mesmo você ou sua ausência são capazes de estancar o sangue, o calor das minhas veias. Pensar que essa mágica poderia ter sido desfeita pela sua partida dói no meu corpo até os ossos, mas se este fosse o seu desejo, eu abriria minhas asas em vôo raso, porque sou pássaro visionário, possuo a força de amar e eu quero do amor tudo: a doçura, os sobressaltos, a febre, o delírio, a calmaria.

Repito. Amo-o. E o amor em nosso tempo parece-me rarefeito, em vias de extinção, uma moeda atribuída de valor de troca. Será que só a palavra AMOR sobreviverá como um registro gráfico ou sonoro ou uma peça de museu? Um objeto de recordação? O que será de tudo, de todos quando finalmente nos arrancarem a força de amar, a alegria de amar, a cólera de amar? Restauremos, então, o amor e através de nós que ele perdure.

Iniciamos novamente o nosso percurso. Deitados lado a lado somos reconduzidos, em silêncio, ao Éden, através das estrelas e do vento. Somos os protagonistas de um paraíso transfigurado porque renascemos caídos, expulsos, logo, responsáveis e cientes da porção humana. Estamos novamente de mãos dadas e a sua figura avança, amplia-se sobre mim, rompendo os limites do corpo, habitando minha carne intemporal. Repousa nos meus rios sua cabeça e sorve o mel das minhas coxas.

Calo minha boca na sua, beijo mansamente seus ombros, nuca, costas. Contraio meu corpo sobre o dele. Ele retesa-se. Mordo sua orelha e sussurro, entre dentes, uma, duas, dez, mil vezes a palavra amor na intenção de resgatar o sentido, o nexo, o som, a música. Meus seios roçam sua pele e fazemos o encaixe que começa pelos poros e atravessa o nosso centro nevrálgico. Sua mão procura minha entrada, não bate à porta, devassa meu interior, demarcando caminhos: não quer perder-se.

Olha-me do umbral da minha passagem secreta que só responde à tua senha. Não quero outras digitais tateando minhas umidades. Reconhece-me tua e descansa tranqüilo na bainha que preparei para ti. Nela só há espaço para a tua espada, forjada pelo fogo sagrado da noite. Tua lava incendeia sem queimar...guardo-a em mim, em mim... em ti, em ti somente o amor completo.


quarta-feira, setembro 28, 2005

Eu tenho essa mania de ser par.
O mundo não é par, as pessoas não o são, então, por que engendro no meu centro esse desejo?
Eu sou uma pergunta que nunca encontra resposta satisfatória. O silêncio não é bom companheiro nessas horas, ele estimula o interrogatório palavroso e eu... eu não ouso saber.
Eu tenho medo de descobrir que por baixo de tudo há o Nada, transparente e esmagador.
Talvez o Nada seja o elo arrebentado da corrente, ao partir-se, nos condenou à solidão.
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quarta-feira, setembro 21, 2005

O que ela não me pede chorando que eu não faço sorrindo?
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sexta-feira, setembro 16, 2005

Minha A.,


Eu também já tive profundas raízes, esqueces? Algumas ainda estão lá e não duvido que sempre estarão; outras eu tive que arrancar, lançar ao fogo, caso contrário, entranhariam tanto a terra... o que estou dizendo? As raízes adensaram-se demais em terras minhas, perfuraram-me quase ao ponto de morte, mas eu não queria morrer, A.

Desistir de você? Eu? O importante é que não desistas de ti!
Quantas pessoas, A., passaram por mim e partiram? Quantas? Quantas arrasaram os meus jardins, destruíram minhas rosas? Quantas temeram meus vendavais e preferiram não correr o risco? Ah, querida, eu cansei de tanta aridez, tanta covardia, rios rasos...

Cansar pode ser um bom sinal, então preste atenção aos teus sinais!
Quando eu cansei de entregar em outras mãos aquilo que só a mim pertencia, tornei-me senhora do meu castelo. Ao contrário do que imaginava, não era preciso fortificar suas estruturas, montar guarda, impedir entradas, não, nada disso... a minha maneira, escuta bem isso A., a MINHA maneira foi deixar todas as portas e janelas abertas para que as pessoas saíssem com a mesma facilidade que entravam, sem pensar que corriam riscos de serem pilhadas, encarceradas, roubadas em suas individualidades...

Um breve parêntese, querida, para uma gargalhada! O ser humano é tão tolo, A... quando vão entender que ninguém rouba a individualidade de ninguém, somos nós quem abrimos mão dela. O que a gente não suporta é ser responsável pela nossa infelicidade.

Voltemos...
Hoje, tenho uma meia dúzia de pessoas que escolheram ficar. Sim, são poucas, mas são as que importam, são as que fazem diferença, as que somam, as que amam intensamente, as que não se fartam de sobejo.

Fique tranqüila, querida. Não estou aqui para julgá-la. Não precisas provar absolutamente nada para mim, eu bem sei que não se trata de passividade. Tirando os casos patológicos, ninguém tem prazer em sofrer. Dê os passos que puderes, dentro de tuas medidas.

Eu estarei sempre aqui.

Outra coisa, antes que me esqueça. Eu comi do fruto rubro da árvore proibida, sim! E sabe o que aconteceu? Descobri um mundo vasto em dor e gozo, mergulhei nessa vastidão e Deus alegrou-se comigo.
O diabo? Ele fugiu. Não agüentou concorrência!

Tua V.

quinta-feira, setembro 15, 2005

Os amigos são pessoas imprescindíveis mesmo! Não importa o vulcão que em nós germina e lança labaredas, eles invariavelmente conseguem nos emocionar.
Obrigada, Carlinhos!


Muito bonito, hein?
Retribuindo o presente (que foi muito inspirador):

Ela, o mistério em pessoa

Olhei-a intensamente.
Ofertei-lhe todo o tempo
Em sua inquietante infinitude,
E tentei plantar flores em seu Eu.

Hoje, devolveu-me o cofre
de promessas irrealizadas.
Não negocia seus mistérios.
E agora eu não sei se é por ela ou
por eles que eu estou apaixonado.

(Carlos Pereira)

sexta-feira, setembro 09, 2005

Eu, pessoa inalienável

Olhou-me diferente.
Ofertou-me o tempo
Em sua infinita relatividade,
Plantou orquídeas no meu coração.

Hoje, devolvo-lhes as chaves
De antigas promessas:
Não negocio meus mistérios,
Meus segredos são indevassáveis.

quarta-feira, agosto 31, 2005

Profissão de fé

Do ideal e da Glória

Que busca o escritor? O verdadeiro escritor, isto é: o que faz da palavra escrita sua razão de viver. Pois, como tudo, e do mesmo modo que existe, por exemplo, o mau sacerdote, também o escritor, tem os seus macacos. Os que imitam os gestos do escritor, publicando livros, discutindo sobre Joyce, dando entrevistas, e não são escritores. Estes buscam tão-somente o nome nos jornais, mais tarde as sinecuras, os postos bem pagos, as condecorações, tal ou qual prestígio social e, naturalmente, a Academia. Tais personagens não contam e não importa o que buscam: são segregados pelo mesmo chão que produz todas as outras espécies de embusteiros.

O que o escritor deseja é realizar e entregar, aos seus semelhantes, principalmente aos que falam a sua língua, obras às quais hajam consagrado o melhor de si mesmos. Trabalhar submisso a restrições, sob encomenda, é necessário em outros ofícios. No seu, a encomenda e a restrição correspondem exatamente à morte do ofício. A liberdade é seu clima.

A liberdade? De que natureza? Todas. A começar pela liberdade interior. Isto é, pelo arrefecimento, em seu íntimo, de ambições alheias à literatura e que possam desviá-lo, perdê-lo.
Essa liberdade, que, com maior ou menor esforço, pode ser alcançada em condições adversas, não basta. Uma série de fatores outros é exigida para que o ato de escrever, o ofício de escrever alcance a plenitude.
(Osman Lins. Do ideal e da glória - problemas inculturais brasileiros)

segunda-feira, agosto 22, 2005

"Amores serão sempre amáveis"

V., minha V...

Recebi seu presente. Tão delicadas as matryoshkas, querida. Não sei dizer-te se gostei mais delas ou de tua carta que li suspirando como quem lamenta o não vivido ou tem saudade do que não foi.

Eu sei que você enfrentaria todos os tormentos para deliciar-se, ainda que por uma única vez, com os frutos rubros e selvagens. Até já pensei, sorrindo sozinha, que você, tal como Eva, não hesitaria em comer da maçã mesmo que isso significasse ser banida do Paraíso.

Ah, minha V., não desistas de mim! Porque lá no fundo, eu também gostaria de poder, mas eu tenho tantos medos... por enquanto, saber da existência desse lugar tão colorido já é um grande avanço, saber que tenho para onde ir quando eu conseguir romper minhas amarras dá-me um alento enorme, mas V., aprendi a ter raízes profundas e de tanto convivermos, afeiçoei-me a elas. Eu sei quão difícil deve ser para você aceitar esse meu lado, que pode parecer passividade, mas não é, minha querida. Acredite, não é.

Eu tenho dificuldade de me desapegar e eu tomei apego até pelo que faz sangrar. Lembra que minha mãe, na sua bruta ingenuidade, nos dizia que o ser humano acostuma até com o que não presta? É, V., a gente também se acostuma às nossas próprias ruínas, às paredes caiadas, à velha e confortável poltrona de tecido puído. O baú de antiguidades também faz parte de mim.

Outras coisas também fazem parte de mim: orgulho exagerado, dificuldade em admitir um fracasso e uma boa dose de covardia, mas de tudo isso, o que mais me incomoda, querida, é saber que fracassei, que minha love story virou filme de terror, que todo o amor que tenho não é suficiente, não basta... “o amor tudo pode” é uma máxima frustrada, minha cara.

Uma hora eu vou aprender a transformar esse amor que sobra, que é resto em sementes. É preciso saber desistir, V. Deixar livre para que o que não floresceu em terras minhas, floresça em jardins outros.

Beijos,

A.

quarta-feira, agosto 17, 2005

Dos encontros

Hoje, o Glossolalias faz um ano de existência.

Meu Deus, esse blog tem exatamente um ano de palavras. Se eu pudesse encadeá-las uma após outra, qual seria o tamanho do percurso já feito?

O que escrevo tem algum valor? Faz alguma diferença? Serve para alguma coisa ou alguém?

No fundo, eu escrevo para mim, porque é vital à minha sobrevivência. Nem me lembro quando escrever tornou-se tão essencial. Parece-me que nasci assim, caneta e papel nas mãos. Às vezes é um presente, outras um fardo. Dar sentido a tudo que vaga pelo pensamento é a única maneira que encontrei de estabelecer alguma serenidade com meu interior tão caótico.

Escrevo para me justificar pessoa, para conquistar uma identidade que vai além do nome e cpf, algo que me relate, me delate. E quando eu escrevo não tenho necessidade de falar, tenho uma predisposição natural de ficar calada e isso me fez aceitar o silêncio e ser mais compreensiva com os sentidos das coisas e com a vaguidão das palavras e de seus significados que tento apreender ferozmente.

É preciso escrever assim, puro,sem truques. Meu texto é o que tenho e nele aprendo a viver, a amar, a fazer amigos, é minha realidade. É meu testemunho ainda que muitas vezes ele deponha contra mim. Depois que está pronto, ele vai viver independente, vai ter uma individualidade da qual não mais participo. Seguirá sozinho, fará seus (des)caminhos e eu? Vou gestar outros textos – filhos pródigos que jamais retornam.

De tempos em tempos, aportam nos cais, encontram pessoas que os acolhem, acrescentando-lhe novos sentidos e depois voltam a seguir viagem.

Na mágica da vida, acabo esbarrando com essas pessoas e é quando tenho notícia deles.

Confessar-me em público deu-me essa nova dimensão do texto, deu-me alguma generosidade de reconhecer que são meus sem que o pronome possessivo seja, de fato, uma posse, uma prisão.

Agradeço a todos vocês que participam e nos acolhem em seus cais.

terça-feira, agosto 16, 2005

Andei por aí perseguindo estrelas como quem caça borboletas... como se fosse possível apanhar nas mãos o brilho de quem já se apagou ou o vento sutil que o bater de asas proporciona.

Esbarrei nos impedimentos que nos separam – o espaço infinito e o balé das horas.

Tu sorrias, descrente, das minhas buscas.

Procurei gravar na areia toda a fome de mundo que eu sinto, toda essa urgência que motiva minhas entranhas, mas como demorastes, as espumas desmancharam os desenhos. Eles pareciam tão vívidos, mas já agora não resta sequer provas de sua existência.

Esperei pelo teu gesto...

O sol sangrou a tarde com seu aceno final. A noite trouxe a lua para fazer-me companhia. Logo mais a aurora veio avisar que já era tempo de despertar.

Esperei pela tua palavra...

Deixei bilhetes nos bolsos de tua roupa, olhei fixamente nos olhos teus, coloquei música, ensaiei dançar.

Não houve gesto, sequer palavra.

Hoje desfilo longe de teus olhos. Mudei a direção dos meus passos. Segui o mar que chamava pelo meu nome em sua concha. Existe um apelo em sua voz que é impossível ignorar. Não sei se é o movimento das ondas ou a força das marés... só sei que é um sussurro que lambe minhas pernas cheias de sal. E eu gosto de sua língua percorrendo minha pele.

Desejei inúmeras vezes que imitasses o mar, esperei pela arrebentação das tuas ondas para fertilizar meus sonhos, coloquei bóias indicando o caminho para que não te perdesses, para que não nos perdêssemos... mas nem o farol pode nos iluminar.

Hoje, da outra margem, observo teus movimentos e sou eu quem sorri.

Persegues estrelas como quem caça borboletas, como se fosse possível, como se fosse possível.

quinta-feira, agosto 04, 2005

Quase

Há uma longa espera
No breve espaço em que
A mão antecede o gesto
E a boca anuncia o beijo.

Afago este intervalo amoroso,
Oculto profundos desejos.
Já no instante seguinte,
Transmuto.

Não faço pactos com a solidão.
Sigo na direção do que é meu.
Ainda que no fim sejamos
Só a noite escura e mais eu.

quarta-feira, agosto 03, 2005

Matryoshka

A., minha querida, hoje compartilharei contigo um segredo de infância. Faço isso porque entendi ser a melhor maneira de responder tua carta tão vertiginosa e mágica. Acho que você finalmente está abrindo a primeira camada rumo ao seu centro.

Quando pequena, meu avô deu-me um presente num embrulho tosco, mal ajambrado. Notei que ele mesmo fizera o pacote com suas mãos enormes e desajeitadas. Antes, porém, de tomá-lo para mim, disse-me as seguintes palavras: "tens nas mãos a metáfora da essência humana. Se entenderes o segredo, entenderás o amor, que também responde pelo nome de vida".

Não entendi direito o que quis dizer, como não entendia muitas coisas que ele dizia. Vovô sempre falava cifrado, cheio de mistérios. Não era à toa que chamavam-no de excêntrico. Vivia entre aqueles livros enormes e pesados, colecionava miudezas, ficava dias sem sair de casa resolvendo enigmas ou criando palíndromos.

Sempre me diverti com suas esquisitices, A. Fui crescendo e ficando cada vez mais maravilhada com aquele velho. Somente hoje, querida, eu entendo que ele não era nem esquisito nem excêntrico. Acho que foi a pessoa mais lúcida que conheci.

Ah, o presente. Era uma legítima matryoshka, A. Herança de um parente russo. Devia ter uns 25 cm e dentro dela, havia outras seis iguaizinhas e menores.

Perguntas se lembro do jardim de Amboise… como eu o esqueceria, A, como? Foi em Amboise que entendi as palavras ditas por vovô. A primeira boneca, a maior, foi aberta diante daquele jardim de delícias. Lá eu tomei consciência que muitas de mim me habitavam.

Consegue me compreender, A? Abrir sua primeira matryoshka lhe proporcionou ver todo esse colorido que é a expressão da felicidade que li há pouco. Não sei o que você fará com essa descoberta, querida. Esta é uma decisão sua, solitária. A única coisa que posso lhe dizer é que abrir as bonecas seguintes significa estar diante de um outro espetáculo, uma efeméride! Mas não se iluda, a cada novo passo para dentro é uma dor, uma batalha entre quem você de fato é e as imagens distorcidas pelo espelho dos outros.

Amar – ou viver – é como brincar com as bonequinhas russas – sempre tem outra e mais outra e mais outra e é sempre a mesma bonequinha. Redescobrir-se é voltar à gênese, à primeira bonequinha que deu feição a tantas outras As que convivem em você.

E quando alcançamos o centro, ainda não é o fim. O percurso de volta à boneca maior, também tem seus tormentos.

Eu enfrentaria qualquer tormento pelos frutos rubros e selvagens, A! E você?
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quinta-feira, julho 28, 2005

Querida V.,

Eu sei que demorei a responder-te, mas não peço desculpas porque a culpa é toda sua. Sim, sua. Foste tão eloqüente na última carta que me senti contagiada pela tua febre hemorrágica. Senti-me indigna de tuas confissões, minha querida, uma vez que estava eu mesma imersa numa grande mornidão.

Foi, então, que permiti que suas palavras entranhassem na corrente sangüínea e resolvi fazer as malas.

Fartei-me de música e bons vinhos. Reatei relações com Rimbaud, Auden, Drummond, Dorothy Parker… antigos amigos que iluminaram noites frias e tardes chuvosas. Quantas vezes a companhia deles salvou-me da solidão!

Estive em tantos lugares. Vi tantos rostos, V! Mas preciso dizer-te que estive novamente em Amboise, querida. Senti uma necessidade, uma urgência em manter contato com o nosso Éden.

Voltei àquele belo jardim. Lembras dele? Frutas silvestres manchavam o chão de um vermelho caudaloso e apesar de singelas, elas me pareciam tão selvagens. Morangos, cerejas, framboesas... selvagens.

O vermelho intenso das frutas chegava a ser ofensivo, ele desafiava a palidez de tantos rostos inexpressivos, parecia gritar para que se rebelassem e também fossem selvagens.

V., depois de muito tempo, eu senti novamente que tocava o barro do qual somos feitos, senti a argila fresca e úmida ali, pronta para ser moldada ao meu bel prazer.

A vida invadiu-me.

Obrigada, V., pelo sopro regenerador.

Amor,

A.

terça-feira, julho 26, 2005

Olhar-se no espelho e perceber, sem subterfúgios, que as mudanças ocorrem. Olhar-se e não sentir dor, apenas ter a serenidade de constatar que as transformações não param de acontecer.

Foi assim com ela.
Acordou hoje pela manhã e olhou-se no espelho. Encantou-se com aquela marquinha de expressão quando sorriu; apreciou o contorno do seu rosto do jeito que é agora; redescobriu o prazer de passar o batom pelos lábios, até achou charmoso aquele sulco suave no canto dos olhos.

Sua fome de mundo já é outra ou, pelo menos, manifesta-se diferentemente.

Contemplou a si mesma com doçura e pensou: “adeus afobações e ansiedades” .
Fez tudo mansamente, tateando a tez, distraída.

Beijou o espelho, marcando-o de vermelho, como quem deixa um lembrete de algo que não pode ser ignorado ou negligenciado.

- Não posso esquecer de mim. Feliz ano novo!

sábado, julho 23, 2005

A "Lua em Libra"

Ela voltou. Finalmente voltou para preencher espaços incompletos, esculpir formas nas areias do tempo.

Lia, minha Lia, tenho um orgulho absurdo de poder te ler assim tão carne, tão sangue, tão nua.
Gosto das suas palavras que parecem delicadas, mas que no fundo escondem punhais.

sexta-feira, julho 15, 2005

Refrão

"A originalidade é impossível. No máximo, podemos variar muito ligeiramente o passado, dar-lhe um novo matiz, uma nova entonação. Cada geração escreve o mesmo poema, conta o mesmo conto. Com uma pequena diferença: a voz."
Jorge Luís Borges


Ajudo a dar os últimos retoques numa mala que parece mínima diante da infinidade de coisas sem serventia que precisam nela caber. Empurra daqui, empurra dali e um caderninho salta do canto. Puxo-o na intenção de recolocá-lo em um lugar mais apropriado, mas ele tomba e ínúmeras fotos espalham-se sobre o lençol.

Junto-as, uma a uma, e rostos jovens e prazenteiros – uma meia dúzia deles – revelam-se.



Mal podia conter a excitação de viajar sem os meus pais.
Seríamos apenas eu e minhas três amigas durante todo um final de semana. Nada de proibições, dormir e acordar cedo, olhares interrogativos.

No sítio da avó de Ana, ficaríamos todas no mesmo quarto e poderíamos conversar a noite inteira, fofocaríamos até o sono nos vencer. Nenhum adulto (sim, porque avós não são adultos. Eles fazem parte de um universo inclassificável de pessoas) por perto para dizer: “desliga a TV”, “olha esse telefone”, “não coma besteiras”.

Mamãe é que não parecia muito animada. Estava sempre com os olhos brilhando e com a boca cheia de recomendações.

Toda hora entrava no quarto para ver se não havia esquecido de colocar na sacola o remédio, o agasalho, as meias, aquele par de tênis confortáveis...

“Se sentir saudades ou não estiver bom é só ligar que vamos te buscar!”

Como não seria bom ficar um final de semana inteirinho sem regras e com minhas melhores amigas? E se eu sentisse saudades era só ligar. Sem contar que ‘vó’ Celina ia estar por perto! Mãe tem umas coisas meio inexplicáveis, parece que tem hora que fica boba, mais infantil que os próprio filhos!



- Marina, D. Marina! Oh, mãe! O ônibus da escola já está buzinando lá fora!

Limpei as lágrimas rapidamente e falei com o meu melhor sorriso:

- A mala está prontinha! Divirta-se muito, querida!

Jogou um beijo no ar e saiu na carreira.

quinta-feira, julho 14, 2005

Criaturas, vocês já tinham conhecimento disto aqui?
E por que não me disseram nada?

Visitem, visitem!

EntreLivros

terça-feira, julho 12, 2005

O Banquete

Nas horas desertas de uma sala escura, vislumbra-se apenas o halo de seu rosto. As cortinas pesadas ocultam ainda mais as formas da noite.
Perdido em pensamentos vãos, as órbitas de seus olhos saltam e iluminam-se. Contraste com a escuridão densa e opaca. Podia-se tocar o breu da noite, sentir sua espessa camada negra, fria e gelatinosa.
Tateia distraidamente os objetos sobre a mesa com a precisão de quem acerta as horas em seus milésimos de segundo.
Sua mão toca a espátula pontiaguda e, então, começa a abrir, uma por uma, as cartas guardadas no fundo da gaveta. Com destreza, enfia a ponta no canto do envelope e sai rasgando o papel firmemente num só movimento.


Seu coração ficou pesado como se a poeira do tempo tivesse se depositado nele, formando uma crosta tão dura que lhe impedia de respirar livremente.
Por muitos anos sua covardia adiou a leitura das cartas. Temia as palavras mais do que o próprio abandono ao qual se lançou. Duplo abandono.
Vivia de forma miserável, se arrastando pela casa como um pobre diabo, tinha aquela cara sempre macerada revestida de uma palidez angustiante. Seu andar era oblíquo, típico de quem se esconde de si mesmo.


Decidido a mudar, ele espera a noite chegar para encobrir-lhe as fraquezas. Tira as cartas do fundo da gaveta. Abre-as pausadamente como se prestasse um culto às palavras reclusas.
Olha aquele monte de papel e vai até a cozinha. Traz uma vela, uma bela garrafa de cabernet e um prato – a mais fina porcelana chinesa. Pica as cartas em pequenos bilhetes e serve-se deles.
Come cada pedacinho com a solenidade pedida nos banquetes e depois vai dormir.
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sexta-feira, julho 08, 2005

Novo blog no ar

Após alguns invernos, um amigo reencontrou-me através do Glossolalias.
Fiquei duplamente feliz porque além de trazê-lo de volta ao meu convívio, o Glossolalias ainda o inspirou a fazer o seu próprio blog.
Quando tiverem tempo, visitem o Beco da Ficção.

segunda-feira, julho 04, 2005

"Já lhe dei meu corpo, minha alegria
Já estanquei meu sangue quando fervia
Olha a voz que me resta, olha a veia que salta
Olha a gota que falta pro desfecho da festa"

A., minha querida,

Sabe o que é mais impressionante? Você escrevendo sou eu pensando. Enquanto leio tua carta – ah!, tuas cartas são sempre tão anseadas, querida! – fico imaginando quantas coisas vis passam pela minha cabeça.

Elas nascem e morrem e não consigo executar um único pensamento vil. Não, a explicação não reside no fato de eu ser boa ou um modelo de bondade, A. Acho que minha incapacidade de ferir deve-se ao fato de ter sido ferida demais, de ter aprendido na pele a pior rima, a mais pobre e talvez a mais difundida: amor com dor.

Hoje só sei rimar amor com liberdade, A. Não, de fato, não é uma rima sonora, melódica ou rica mas é plena de significado, querida.

Já comecei a traçar a minha rota, A., e descobri que as retas podem ser tão ou mais perigosas do que as curvas sinuosas.

O amor tentou-me com todas as suas faces e eu voltei a sangrar. Perdi tanto sangue nos últimos dias que pensei que fosse morrer.

Abortei todos os filhos que acalentei em sonhos, querida. O meu corpo, em luto, chora.

A., todas as vezes que ensaiei o salto mortal, a rede de proteção era ocultada e a minha única reação era sangrar como quem antecipa a queda.

A diferença, minha amiga, é que desta vez não estancarei o sangue.

Beijos hemorrágicos,

V.

terça-feira, junho 28, 2005

V.,

Eu gostaria de ter metade dessa tua coragem, dessa tua ousadia e petulância de atravessar os salões repletos de gente de cera sem baixar os olhos, sem titubear, sem duvidar da minha postura.

Essa é a verdadeira elegância, V. Não existe passarela que ensine esse modo teu de encarar uma platéia faminta, sorrir docilmente e depois dar as costas como quem não tem nada a perder. Não é um desprezo nocivo, agressivo, é um desprezo de quem realmente não dá importância para títeres.

Não sei exatamente o que tens em mente, mas se a linha reta que traçares encontrar vestígios do Pessoa pelo caminho, transgrida, V! Transgrida da maneira elegante que só você sabe fazer. Há que ter elegância até quando se vai à guerra, minha querida.

É o que tento aprender com muito esforço, porque você sabe que não sou das delicadezas, eu gosto mesmo é de ventar e derrubar as paredes que me isolam. Deve ser meu modo de compensar anos de mutismo e anuência, anos em que fui a sombra da minha sombra, em que eu tinha medo de tudo, medo do escuro e da luz muito forte.

Lembras, V.? Eu era morna e “por não ser nem frio, nem quente, vomitavam em minha boca”.
Hoje sou apenas ridícula e gosto disso porque

"Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó principes, meus irmãos,"

Não, minha querida, você é gente de outra sorte...
Continue dando-me as direções contidas no teu mapa.
Beijos,
A.

sexta-feira, junho 24, 2005

"Mas louco é quem me diz e não é feliz"

Estou lendo O ovo apunhalado, de Caio Fernando Abreu e estou gostando muito. Os contos oscilam, ora são delicados, ora são pura violência. Eu gosto de palavras assim como as do Caio Fernando, apaixonadas, intensas, viscerais.

Divido com vocês o texto* (não seria um poema?) “de um louco anônimo”:

“Estive doente,
doente dos olhos, doente da boca, dos nervos até.
Dos olhos que viram mulheres formosas
da boca que disse poemas em brasa
dos nervos manchados de fumo e café.
Estive doente
estou em repouso, não posso escrever.
Eu quero um punhado de estrelas maduras
eu quero a doçura do verbo viver.”

* CFA transcreveu fragmento da reportagem “Crime e loucura”, feita por Caco Barcelos e que foi publicada na extinta Folha da Manhã, Porto Alegre - RS

quarta-feira, junho 22, 2005

Atendendo aos apelos d’O Povo, vou responder a outro questionário.

Leal, querido, não se anime muito, em matéria de música, eu sou um tanto quanto obtusa. Sou fiel a alguns cantores e canções, ou como diria o nosso maestro Tom Jobim: sou um “samba de uma nota só”.

Beijos

MELÓMANO QUIZ

1) Tamanho total dos arquivos no meu computador?
Não faço a menor idéia!

2) Último disco que comprei:
Vítor, há tempos eu ando numa fase mais do mesmo. Estou sempre escutando as coisas que eu gosto, que me comovem, é um tipo de “Lista de Clássicos da Lu”.
As últimas aquisições foram presentes do meu namorado: o novo CD do U2 e Chico ao vivo.

3) Canção que estou a escutar agora:
Estou ouvindo o som do silêncio.

4) Cinco canções que ouço freqüentemente ou que têm algum significado para mim:
Ô perguntinha ingrata!

Estou sempre escutando Chico Buarque, Toquinho, Billy Holliday, Adriana Calcanhotto, Lenine, Chat Baker, Mozart, Bach...
I’ll be seeing you, na voz da Billy é uma das músicas da minha vida; Esquadros, da Adriana é outra; Beatriz, do Chico, La vie em rose com Piaf e mais uma infinidade de canções que não cabem no questionário.

sexta-feira, junho 17, 2005

A.,

Escrevo-te com a urgência dos que morrem e dos que amam.
Já percebestes, minha querida, que tanto os que amam como os que morrem têm a mesma reclamação?

É sempre pouco o tempo que lhes resta, mal podem esperar pelo amanhã; o presente é rápido demais e o passado é um lugar muito distante.

É esta urgência que reivindico para mim. Quero ser feliz agora, A.! Quero a ruptura, o cessar fogo, o perdão. Já!

Estou recomeçando mais uma vez, querida. Quero muito não ser só o alpha.

Vou fechar os olhos e quando os abrir novamente quero enxergar outras paisagens, aprender novas línguas, conhecer gente, vestir outras roupas, descobrir novas melodias, visitar lugares, enfim, quero uma segunda edição de mim, revisitada e ampliada.

A primeira medida desse novo livro será a de abolir adendos e notas de rodapé. Quero ser simples, A. Se não puderem me compreender numa primeira leitura, quero ser abandonada em um canto qualquer, mas não quero (e não vou) mais me explicar.

As entrelinhas também serão cortadas. Eu sou o que sou.

Não me procurem atrás de uma vírgula, após as reticências. Terminarei no ponto final.

Refarei todo o percurso para descobrir onde foi que me perdi, em que curva, qual estrada e quando descobrir o tal desvio, traçarei a rota em linha reta.

Beijos,

V.

quinta-feira, junho 16, 2005

Bolor

Da janela, ela observa o casal de velhos. Eles passeiam religiosamente todas as tardes, braços dados, passo miúdo, nenhuma pressa.
Sentam-se no banco e ficam apenas observando a vida e os transeuntes. Não se falam. Vez ou outra, olham-se numa sincronia de cabeças para logo mais voltarem a contemplar simplesmente.
Meia hora depois, levantam-se, um apoiando o outro e rumam para casa.

Da primeira vez que os viu, pensou maldosamente: “sob o sol, vão tirar o cheiro de mofo.”
Na segunda vez, destilando toda sua amargura, pensou que a falta de diálogo que ela observava devia-se ao peso dos anos e do desgaste que era ter sempre a mesma pessoa ao lado. Nenhuma novidade, nenhum fogo, apenas a rotina.
Mais tarde, num misto de piedade e repulsa, imaginou que o passeio deveria ser para trazer um pouco de cor e luz para uma relação já tão esmaecida pelo tempo, onde o próprio apartamento denunciaria o quanto de pó ele guardava.

Ela já os acompanha há quatro meses, e hoje, seu olhar é outro.
Tem pena de si mesma e uma certa inveja do casal, porque no fundo sabe que uma relação requer cumplicidade e silêncio; que o tempo está a nosso favor quando temos a disponibilidade e a generosidade de aceitar o amor em todas as suas fases até o serenar das paixões; quando somos capazes de construir paredes ornadas com quadros e memórias com lembranças.
“A gente esquece que o tempo também pode ser um aliado.”

quarta-feira, junho 15, 2005

Dica de leitura

Posso indicar uma leitura densa, mas muito, muito poética a respeito da idéia da gênese humana?
Então cliquem aqui e deliciem-se!

P.S.: A sugestão é que a leitura siga a ordem cronológica.

segunda-feira, junho 13, 2005

Homenagem

As palavras

São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.

Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos ou beijos,
as águas estremecem.

Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luze são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.

Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?

Eugênio de Andrade



quarta-feira, junho 08, 2005

Sweet Valentine

Enfeitou a casa toda com flores, arrumou a mesa de maneira impecável, cuidou pessoalmente do cardápio, da bebida, colocou tolhas novas no banheiro, na cama, o lençol de linho branco.
Não esqueceu um único detalhe, esmerou-se ao máximo e tudo para quê? Se seus cabelos e roupas não resistiram ao primeiro beijo?

terça-feira, junho 07, 2005

"Minha força está na solidão.
Não tenho medo nem das chuvas tempestivas
nem das grandes ventanias soltas,
pois eu também sou o escuro da noite"
- Clarice Lispector

sexta-feira, junho 03, 2005

Querida V.,

Finalmente começo a vislumbrar a presença estimulante de uma luz, ainda fraca, ainda débil, ainda tímida, mas extrema e apaixonadamente desejada.
Como é reconfortante saber de mim mesma, acreditar na minha existência quando tudo o mais era ruínas e escombros; como é bom poder olhar meu rosto no espelho e ver marcas que contam um pouco de mim e da minha história e poder perceber que meu sorriso ainda guarda doçura.
Acidez e amargura são sentimentos pontuais e descartáveis, necessários às vezes, quem sabe, mas não consitituintes e conformadores da minha imagem.
Quero a loucura, a velhice, os amigos e o açúcar como companheiros, todo o resto, querida, não é bem-vindo e não cruzará os umbrais da minha casa.
Obrigada pelo Hesse.
Beijos,
A.

sexta-feira, maio 20, 2005

Angústia

Quem é que vem,
O que é que tem,
depois do fim?

A lâmpada apaga-se,
A música acaba.
O que resta de mim?

Quando o silêncio atordoa
E o sono não chega
Que anjo, qual querubim?

Se tudo termina
com um ponto final,
Por que me sinto assim?
Incompleta, dividida,
Tão chinfrim?

quarta-feira, maio 18, 2005

Sintonia

A., minha querida,

Provavelmente há alguém que assiste ao teu filme enquanto silencias...
Trouxe até você uma boa interlocutora. Creio que estabelecerão um lindo diálogo, porque bem aqui dentro, algo me diz que vocês estão falando a mesma língua.
Beijos,

V.

Extração da Pedra da Loucura

I
E sobretudo olhar com inocência. Como se nada se passasse, o que é certo.

II
Mas a ti quero olhar-te até estares longe do meu medo, como um pássaro no limite afiado da noite.

III
Como uma menina de giz cor-de-rosa num muro muito velho subitamente esbatida pela chuva.

IV
Como quando se abre uma flor e revela o coração que não tem.

V
Todos os gestos do meu corpo e voz para fazer de mim a oferenda, o ramo que o vento abandona no umbral.

VI
Cobre a memória da tua cara com a máscara daquela que serás e afugenta a menina que foste.

VII
A nossa noite dispersou-se com a neblina. É a estação dos alimentos frios.

VIII
E a sede, a minha memória é da sede, eu em baixo, no fundo, no poço, bebia, recordo.

IX
Cair como um animal ferido no lugar de hipotéticas revelações.

X
Como quem não quer a coisa. Nenhuma coisa. Boca cosida. Pálpebras cosidas. Esqueci-me. Dentro o vento. Tudo fechado e o vento dentro.

XI
Sob o negro sol do silêncio douravam-se as palavras.

XII
Mas o silêncio é certo. Por isso escrevo. Estou só e escrevo. Não, não estou só. Há alguém aqui que treme.

XIII
Ainda que diga sol e lua e estrelas refiro-me a coisas que me acontecem.E o que desejava eu?
Desejava um silêncio perfeito.
Por isso falo.

XIV
A noite parece um grito de lobo.

XV
Delícia de perder-se na imagem pressentida. Levantei-me do meu cadáver, fui à procura de quem sou. Peregrina, avancei em direcção àquela que dorme num país ao vento.

XVI
A minha queda sem fim na minha queda sem fim onde ninguém me esperava pois ao descobrir quem me esperava outra não vi senão a mim mesma.

XVII
Algo caía no silêncio. A minha última palavra foi eu embora me referisse à aurora luminosa.

XVIII
Flores amarelas constelam um círculo de terra azul. A água treme cheia de vento.

XIX
Deslumbramento do dia, pássaros amarelos na manhã. Uma mão desata as trevas, arrasta a cabeleira da afogada que não cessa de passar pelo espelho. Voltar à memória do corpo, hei-de regressar aos meus ossos de luto, hei-de compreender o que a minha voz diz.

Alejandra Pizarnik

terça-feira, maio 17, 2005

Correspondência

Querida V.,

Escuta-me com atenção. Não a mim, exatamente, mas às vozes vociferantes no meu corpo. Elas são tão ladinas que aprenderam a murmurar, V! Como numa sinfonia de orquestração perfeita: todas falam ao mesmo tempo sem confusão; existe harmonia porque eu consigo diferenciá-las. Sei reconhecê-las.

Meu corpo, essa praça pública, vibra e desfalece de acordo com a entonação do coro.

V., diga-me que não estou enlouquecendo, por favor! Se você estivesse aqui, provavelmente também ouviria.

Já sei o momento em que elas fazem festa; é o mesmo momento em que silencio, em que emudeço para o mundo e suas cores.

Cinema mudo, V., é o que eu tenho sido. Não emito sons, estou monocromática. O único exercício que tenho feito é o de decifrar lábios, imaginar as palavras, investigar sorrisos.

V., será que em algum lugar do mundo alguém silencia enquanto assiste ao meu filme?

terça-feira, maio 10, 2005

O Reencontro

O contato da sua mão na minha indica-me um novo tempo.

Desvencilhei-me de seus dedos por alguns instantes e segui em direção à música. O jazz que saía daquele baixo acústico era-me muito familiar.
Aproximei-me lentamente, sabendo de antemão – não me perguntem como – quem eu encontraria.
Seus olhos – que ora pairavam sobre a platéia, ora se quedavam fechados – foram capturados pela minha presença silenciosa.
Por um segundo, ele perdeu o compasso. Depois sorriu.
Deixei o local da apresentação serena, sem hesitações.

Procurei novamente o calor de sua mão, entrelacei meus dedos nos dele e num afago senti nossas vidas transbordarem.

quarta-feira, maio 04, 2005

Leal e Jayme, pessoas queridas, vou TENTAR responder, porque é tão injusto ter que escolher apenas alguns livros, sempre me dói deixar outros de fora.
Beijo grande.


Não podendo sair do Fahrenheit 451, que livro quererias ser?
Eu seria o Avalovara, do Osman Lins, escritor pernambucano que fez maravilhas com as palavras e comigo.

Já alguma vez ficaste apanhadinha(o) por uma personagem de ficção?
Cada vez que leio um livro pelo qual me apaixono, certamente alguma personagem é co-responsável pela paixão.
No livro em que mencionei, existem 3 mulheres/personagens que marcam a trajetória humana e literária do escritor. Amo-as. Todas. São distintas e complementares.

Qual foi o último livro que compraste?
Preciso confessar que adoro sebos. Então os últimos livros que comprei não são novidades, mas livros que sempre me sondaram e eu não tinha tempo de ler.
Bebel que a cidade comeu, do Ignácio de Loyola Brandão e As mil e Uma Noites.

Qual o último livro que leste?
As ondas, Virginia Woolf.

Que livros estás a ler?
Estou sempre relendo coisas que me marcaram.
Terminei de dar um curso de literatura brasileira contemporânea, então reli muitos livros nos últimos 4 meses.
Só para citar: Reflexos do baile, do Antonio Callado e As meninas, da Lygia Fagundes Telles.

Que livros (5) levarias para uma ilha deserta?
Avalovara - Osman Lins;
Memórias Póstumas de Brás Cubas - Machado de Assis;
Nunca te vi, sempre te amei - Helen Hanhoff (?);
Cem Anos de Solidão - Garcia Marquez;
Um sopro de vida - Clarice Lispector.

Ainda daria um jeito de colocar um livro de poemas do Carlos Drummond e o Livro do Desassossego, do Pessoa.

A quem vais passar este testemunho (3 pessoas) e porquê?
Para a Fal, porque eu adoro atentar o juízo dela.
Para Hormoniosas. Precisa explicação?
Para o Fernando, com quem andei tecendo teorias para lá de evolucionistas.

terça-feira, abril 26, 2005

O Glossolalias, além de ser o espaço onde exercito a palavra, é também o local que concede às muitas falas e vozes o direito de expressão, do fazer poético, da criação e da interpretação discursiva.
Este mês, trago um pedacinho da entrevista que o Mia Couto concedeu à Revista Continente.
Deliciem-se!

“O escritor não tem função”

Considerado o mais inventivo ficcionista em língua portuguesa atualmente, Mia Couto separa militância do fazer literário, defende a arte de contar histórias e revela como trabalha sua ficção

Por Homero Fonseca

António Emílio Leite Couto é um dos mais criativos escritores contemporâneos em língua portuguesa, recorrentemente comparado a Guimarães Rosa. Além dessa influência assumida, sua escrita lembra certas características da melhor poesia de Manuel de Barros quando, em suas próprias palavras, deixa transparecer uma “capacidade de espanto, de me encantar com pequenas coisas, como se o mundo fosse uma coisa que ainda me está a ser apresentada, como se tudo estivesse a ser estreado”. Os críticos ressaltam seu estilo original, que se apropria do caldeamento entre o falar dialetal africano e a norma culta do português, para criar um universo próprio, onde o maravilhoso convive com a vida real de pessoas simples, numa África arquetípica que enfrenta hoje os dilemas da construção de identidades na moldura da modernidade.

Nascido em Beira, Moçambique, em 1955, adotou profissionalmente o apelido conservado desde a infância: Mia. Estreou em 1983 com o livro de poemas Raiz de Orvalho e nesses 22 anos construiu uma obra relativamente pouco extensa – meia dúzia de romances, outro tanto de livros de contos, uma seleção de crônicas e adaptação para o teatro – mas de extraordinária relevância pela inventividade que o coloca no patamar de renovador da língua portuguesa. Traduzido em holandês, sueco, norueguês, italiano, francês e espanhol e detentor de vários prêmios literários, Mia Couto é autor, entre outros, dos livros de contos Estórias Abensonhadas, Vozes Anoitecidas, Cada Homem É uma Raça e de romances como Um Rio Chamado Tempo, Uma Casa Chamada Terra, em que sua capacidade imagética se traduz na recriação semântica das palavras, processo batizado por ele próprio de brincriações. O romance O Último Vôo do Flamingo acaba de ser lançado no Brasil.

Antes de se dedicar à literatura, foi jornalista, diretor da Agência de Informação de Moçambique e dirigiu o jornal Notícias de Maputo e a revista Tempo. É ainda biólogo, responsável pela reserva natural da Ilha da Inhaca, em Moçambique.
Apesar do currículo de militante, Mia Couto revela, nesta entrevista, saber distinguir os campos de atuação, ao afirmar taxativamente: “O escritor não tem ‘função’. Não creio que se pode olhar a escrita literária do ponto de vista utilitário. Ele escreve movido por um telúrico e inexplicável desejo de se religar aos outros”.

Como foi a sua descoberta da Literatura, entre os livros em português e as histórias orais da África ágrafa?

Cresci cercado pela poesia, literalmente. As paredes de nossa casa estavam forradas de livros de poesia. E, para agravar, o meu pai era poeta em permanente exercício. Essa era a casa. Do outro lado, a rua se compunha como a outra margem de mim. Ali estava África, os contadores de histórias e, mais do que tudo, uma lógica outra que me fascinava. Nessa aparente dualidade, eu fabriquei os dois pés da alma.

Sua escrita traz uma elaboração de linguagem que provoca comparações recorrentes a Guimarães Rosa. Entretanto, certas abordagens - em que um objeto ou uma coisa banal são descritos como se vistos pela primeira vez - lembram o poeta Manoel de Barros. Conhece sua obra? O que acha dessa aproximação?

Conheço os dois, Guimarães e Barros. Eu apenas me honro com a comparação. Assumo ambos como inspiradores, instigando a exploração dos limites da palavra em luta contra o idioma. Creio, no entanto, que os nossos domínios não são comparáveis. Estou num tempo diferente, num universo cultural outro. E isso apenas pode produzir literaturas diversas.

Que tipo de contribuição à Literatura estão dando as nações jovens (africanas, latino-americanas)? Há algo em comum em sua produção, apesar da imensa diversidade?

A literatura nossa, africana, é quase sempre contemporânea ao processo de criação do sentimento de nacionalidade e de identidade nacional. A construção da modernidade e o modo como o universo da escrita se está instalando em África (não falo na alfabetização, mas no sistema de pensamento associado à lógica da escrita), tudo isso é comum nos países africanos.

Qual a função do escritor no mundo globalizado de hoje, em que a questão das identidades está colocada na ordem do dia (política e culturalmente)?

O escritor não tem “função”. Não creio que se pode olhar a escrita literária do ponto de vista utilitário. Ele escreve movido por um telúrico e inexplicável desejo de se religar aos outros. É evidente que, por outro lado, o escritor não escapa ao tempo e ao lugar. E aí o seu produto é posto a navegar nas águas da História. Mas se tem um fito honesto, só pode ser o navegar para além da História.

Não obstante a imensa dívida cultural para com os povos africanos, o Brasil pouco se volta para África. O José Eduardo Agualusa acredita que o Brasil tem vergonha de suas origens africanas. O que o sr. acha desta distância e como pode (deve) ser encurtada?

Essa viagem está sendo feita no interior de cada um dos nossos espaços, na busca de uma relação mais tranqüila com aquilo que somos. O Brasil não tem outra opção, senão reencontrar essa dimensão de origem africana e que hoje é brasileira. Digo brasileira, para evitar propositadamente dizer “afro-brasileira”. Angola só poderá inventar a sua identidade se enfrentar o quanto de brasileiro há na sua história. Nós, em Moçambique, temos menos cruzamentos com Angola e o Brasil, mas os nossos valem tanto como quaisquer outros. A literatura moçambicana foi toda ela construída sob fortíssima inspiração do Brasil. Desde António Gonzaga às diferentes gerações do século passado foi no Brasil que fomos beber. E isso tem implicações na criação do nosso próprio sentimento de modernidade.

O senhor aproveitou sua participação na Bienal do Livro de Fortaleza (ano passado) para fazer uma viagem ao Sertão nordestino. Algum objetivo (literário) específico? A propósito, quais seus novos projetos literários?

Queria percorrer um Brasil mais distante do roteiro turístico. Mas não existia objetivo propriamente literário. Nada é literário, se não tocar profundamente e de surpresa. E essa surpresa acontece em todo o lado. Não tenho a idéia romântica de que o interior dos países seja uma moradia especial da poesia ou da inspiração. Quanto aos projetos, estou agora redigindo um romance de inspiração histórica, que trata da escravatura no Oceano Índico e os mal-entendidos, os clichês do fenômeno que até hoje se renovam no imaginário africano.

(Leia mais na edição 52 da Revista Continente Multicultural.)

segunda-feira, abril 25, 2005

Desperto para as manhãs
de um outono difuso.
A natureza aponta-me seus tempos
como mãe zelosa, de olhar atento.
Despetalam-se os sonhos,
Fenecem os projetos.
E eu, imóvel, repouso
o ventre sobre a terra úmida,
a fim de gestar as sementes
que resistiram –
sólidas, enérgicas –
A uma nova estação.

segunda-feira, abril 18, 2005

Minha querida A.,

Faz um frio terrível por aqui. Uso meias de lã que não aquecem os pés, estou metida embaixo de muitas cobertas e tomo chá quente enquanto leio um bom livro. Tudo isso tem a intenção clara de manter, ao menos, minha alma livre do gelo.

Estou relendo sua carta pela quarta vez, A. Escavo os espaços em busca de palavras suaves para lhe dar algum conforto, em resposta. E é muito difícil, A., difícil porque não quero ser uma interlocutora leviana e boba, muito menos uma amiga omissa, respondendo coisas do tipo “vai passar”, como se num passe de mágica ou num truque de prestidigitador, os problemas evaporassem ou fossem sugados por um enorme buraco negro.

Não quero também ser patética, muito embora a vida não tenha a menor parcimônia em sê-la.

Não posso quebrar as leis da física, A., muito menos alterar a geografia que nos separa, retirando-nos a possibilidade do afago, mas posso e vou te dizer algo que aprendi com a minha experiência de conviver nesse vale depressivo que hoje você se encontra.

Escuta, A.! Tudo pode ruir, a única coisa que precisa prevalecer é o contato de você consigo mesma. Lute para não edificar paredes altas e fortes dentro de você mesma. Haja o que houver, não perca o contato com você! Descubra algo que estabeleça e mantenha esse vínculo.

No meu caso, eu busquei a luz, A., porque dentro de mim todos os cômodos eram escuros e isso era muito reconfortante.

Lembro da dor lancinante que sentia quando alguém invadia meu quarto e acendia a luz ou abria as cortinas. Eu berrava feito uma louca, A.

Primeiro, eu não podia enxergar, mas não tardou chegar a hora em que eu já não queria ver. O sono e a escuridão me davam tudo que eu precisava: solidão, distância, fuga.

Não estou te dando conselhos, minha querida. Estou te confidenciando minha dor, minha fraqueza. Agora que você já sabe, faça o que quiser com esta informação, inclusive sinta-se à vontade para desdenhar, rir, chorar, jogar fora.

Ao te contar isto, não estou te oferecendo uma cura, uma solução, não. Estou, sim, reafirmando o compromisso que fiz comigo mesma: o de viver.

Minha confidência é um lembrete para mim: egoísta, salvador, mantenedor da minha própria ordem.

Engraçado. Subitamente as meias de lã tornaram-se insuportáveis, A.

Vou dormir.

Aguardo ansiosamente a chegada do SEU lembrete.

Abraço caloroso da amiga,

V.

quarta-feira, abril 13, 2005

Hotel Room

Sentiu a respiração pesada e alguma asfixia.

O que a incomodava era aquele cheiro de coisa nova, o quarto friamente arrumado, lençóis sem rugas, móveis nus, objetos intactos.

Mesmo sem muito ânimo, fazia a faxina às avessas: puxava os lençóis sem cuidado; jogava a bolsa, pastas, papéis sobre os móveis; ligava a TV; pendurava roupas no encosto da cadeira.

Aquela desordem forçada lhe trazia paz e conferia alguma identidade ao recinto frio e impessoal. Somente esta ilusão de transformar o desconhecido em um lugar familiar lhe devolveria o sono.
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Hotel Room, Hopper.

quarta-feira, março 30, 2005


Partidas. Partições. Estilhaços. Fragmentos. Versões.

Palavras que me resumem mas não dão a medida de quem sou, fui, serei e das muitas outras que habitam em mim.

É tanto braço, perna, olhos, bocas. Tantos corpos no meu. Quem sou eu? Eu sou?

Se uma parte serena, outra vocifera, outra dança, outra ainda observa, somente.

Conscientes desses deformações, seguimos resilientes, devolvendo ao mundo socos, pontapés, risadas, músicas e uma boa dose de inquietude.
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quarta-feira, março 23, 2005

Cenas Urbanas

Sentado no parapeito da janela, ele contempla o mundo minúsculo lá embaixo.

Do décimo quarto andar, tudo fica tão menor, tão mais passível de solução e também tão distante.

A cidade fica intocável. As miniaturas humanas, vistas das alturas, parecem frágeis, bem mais frágeis do que o normal.

Uma mão desavisada, um passo em falso e tudo acaba-se.

“Como formigas, a multidão caminha em muitas direções, em filas indianas.
Segue o quê? A quem? Aonde vai com tamanha pressa? Por que não experimenta voar?”

Lá debaixo, daquele mundo que outrora fora pequeno, vê-se uma capa vermelha ondulando na janela.

quinta-feira, março 17, 2005

A., minha A.,

As escolhas são necessárias, sim, mas algumas vezes não escolher também é uma decisão, querida.

Não, isso não significa uma atitude passiva diante da vida, significa sim se permitir observar de fora, se retirar da cena por alguns instantes.

Você me fala em luz numa hora de blackout. Hora em que apaguei todas as luzes e mergulhei nas sombras, em busca de começos, da minha gênese. Engraçado, não? O jogo cênico entre luz e sombras não precisa ser antagônico e nesse meu percurso tento fazê-los parceiros.

Obrigada por ser farol em noite escura de tormenta. Imagine um barco sem ponto de referência!!?? Nau à deriva.

Hoje eu consigo estar serena, consigo ser espectadora da minha própria ficção e isso A., me dá uma sensação de liberdade e compreensão que jamais experimentei. Sou eu vivendo os meus minutos e, ao mesmo tempo, contemplando o enredo que traço.

Já parou para pensar que o enredo da nossa vida depende de nossa habilidade (ou inabilidade) de bordar, tramar os fios e arrematar os pontos?

Não ria, A., mas entrei num curso de bordado & tricot e passei a entender com mais clareza os meus fragmentos, rabiscos, inclusive essa nossa correspondência, ao ponto de acreditar mais nos arabescos do que no divã.

A., doce A., essa minha aspereza e dramaticidade diante do mundo é suavizada por sua ponderação. Não sei se alcançarei sua margem, afinal ela é sua, contudo, deve haver alguma margem que abrigue as inquietações dos meus rios.

Beijos,

V.

terça-feira, março 15, 2005

Palavra viva: Hilda Hilst

Se puderem, deleitem-se ;)

O SESC PINHEIROS promove leituras dramáticas, palestras e depoimentos em memória do primeiro ano de morte da escritora e poetisa Hilda Hilst.

Hoje, 15/03, 20h
Literatura de Transgressão
Depoimentos de Carlos Vogt e Cláudio Willer. Prosa "Kadosh", com Sérgio Mamberti.

Dia 18/03, 20h
Erostismo, Humor e Crítica
Palestra com Cristiane Grando e Eliane Robert de Moraes. Prosa-teatro "O Caderno Rosa de Lori Lamby", com Iara Jamra.

Dia 22/03, 20h
O Sagrado e o Profano, Hilda e o Divino
Palestra: Noelly Novaes Coelho. Prosa Poética "Matamoros", com Beatriz Azevedo, Maria Alice Vergueiro e Sabrina Greve.
Não fui capaz de escrever um único verso, hoje.

Nem mesmo as palavras mais rudes quiseram minha companhia – hibernaram em suas cavernas semânticas e guardaram para si toda sua significação.

Vontade louca de me comunicar, dizer algo, gritar ao mundo a respeito de minha existência, mas elas – as palavras – emudeceram. Talvez, quem sabe, elas também não tenham necessidade de silêncio e quietude?

Em solidariedade a elas e as muitas vezes em que prefiro o escuro e a ausência de sons para me confirmar pessoa, guardei lápis, papéis e bati em retirada.
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Pela estrada fora, Erik Reis

terça-feira, março 08, 2005

Querida V.,

Desculpe a demora em respondê-la. Acho que somente hoje consegui sorver a última letra do seu discurso. Não houve um só dia que ele não me assaltasse, crispando minhas mãos até ficarem pálidas.

Devemos ser bastante cautelosos com esta senhora chamada Dor porque ela entranha, querida. Tal qual poeira. Ela procura pelos cantinhos mais difíceis e se instala, amarelando nossos sonhos, ressecando nossos olhos, engessando comportamentos.

Algumas vezes torna-se tão íntima que passamos a sofrer mais quando ela se ausenta de nossas vidas do que quando nos habita.

V., minha querida, nós também nos acostumamos à dor e, pior, tomamos gosto por ela. Passamos a fazer sua cama, colocar a mesa e dormir abraçados a ela.

Não esqueça de abrir janelas e cortinas, querida. Os cantinhos precisam ser arejados, senão a gente fica pairando em sombras.

Não sei como, mas é preciso encontrar motivos para despertar a cada manhã, se apegar nas pequenas alegrias. A dor, bem como a sufocação advinda dela é inevitável, V., mas fazê-la nossa companheira é uma escolha.

Espero que você escolha se despedaçar em luz porque daqui onde me encontro, eu vejo a luminosa incidência de raios.

Amor,
A.

sexta-feira, março 04, 2005

Para um desejo que sempre se renova

Árias pequenas.
Para bandolim

Hilda Hilst

Antes que o mundo acabe, Túlio,
Deita-te e prova
Esse milagre do gosto
Que se fez na minha boca
Enquanto o mundo grita
Belicoso. E ao meu lado
Te fazes árabe, me faço israelita
E nos cobrimos de beijos
E de flores.

Antes que o mundo se acabe
Antes que acabe em nós
Nosso desejo.

segunda-feira, fevereiro 28, 2005

É porque tenho as mãos em brasa que lanço flechas em sua direção; a ardência é tal e tanta que anseio por teu olhar que me refrigera e recompõe.

A dor não tem sutilezas, meu amor. Ela chega sem cerimônias e esmurra nossa cara, certeira. Jamais mata, no máximo nos desacorda momentaneamente. Nisto consiste toda a sua generosidade - numa pequena trégua.

Eu vivo para testemunhar o mundo que me rodeia. Tão débil e gelatinoso. Nessa não-forma, eu transito num sem rumo ou talvez em cem rumos que também não me dão a exata direção.

Mas é principalmente porque amo - a mim, a ti e tudo - que não me dobro às fúrias e descompassos. Eu danço livremente, zombando do tempo e suas vertigens.

quarta-feira, fevereiro 23, 2005

Eu mereço...


O FINO DA BOÇA(LIDADE)
OU
EU SOU O MÁXIMO

Transcrevo na íntegra a matéria que saiu no Estado de S. Paulo do dia 20/02/05 (Caderno 2) porque me sinto incapaz de ser melhor ou pior, dependendo da ótica.

Fal, Jayme, me deu uma vontade doida de fazer adendos a cada resposta idiota (e a algumas perguntas também), mas desisti. Como diz a máxima do tio Sam: time is money.

Pelo método dedutivo: como nunca tenho tempo, será por isso que nunca tenho grana?

Marcelo Mirisola é escritor, autor de Bangalô e O Azul do Filho Morto, publicados pela Editora 34.

Que livro você mais relê?

Os livros que não gosto. Um livro bom é uma noite de amor perfeita com uma mulher que não existe... é como se o dia seguinte pudesse ser ainda melhor. O livro bom não merece ser repetido – eu raramente me atrevo.

E que livro relido ficou melhor?
Descarto essa possibilidade de antemão.

Dê exemplo de um livro bom injustiçado.
Sobretudo os livros de Drieu la Rochelle, qualquer um.

Cite um livro que frustrou suas melhores expectativas.
Seria o caso de dizer que o “autor” frustrou minhas expectativas. Porque se o livro é ruim, não passo do primeiro parágrafo. Daí eu não corro esse risco.

E um livro surpreendente, ou seja, bom e pelo qual você não dava nada.
Como é que um livro pode ser “bom” ou “surpreendente” se eu não dei nada por ele?

A boa literatura está cheia de cenas marcantes. Cite algumas de sua antologia pessoal.
Alguns sufocamentos, e não “cenas”; por exemplo, o narrador de Memórias do Subsolo trombando em seu “perseguidor” à procura de afeto.

Que personagens ganharam vida própria na sua imaginação de leitor.
Não dou muita bola para personagens... nem para minha imaginação.

Que livro bom lhe fez mal, de tão perturbador?
Ainda está para ser escrito.

E que livro mais o fez pensar?
Me fez agir, o que é – em determinadas circunstâncias – mais veemente e necessário do que pensar. E isso aconteceu logo depois que li Trópico de Câncer, do Henry Miller. Cometi um crime: matei a Silvia Poppovic, e não me arrependo. Se ela voltar mato outra vez.

Literatura policial é um gênero menor? Se a resposta for negativa cite um livro maior do gênero. Se for positiva, diga porquê.
Li os livros do Poe e agora Vértigo, do Paulo de Tharso... encontrei buracos nos dois autores. E desisti do “gênero”.


Cite:
Um livro meio chato, mas bom.

Não dou colher de chá para livro “meio chato”.

Um livro que você acha muito bom mas que jamais leu.
O título do livro é Contradição em Si. O autor não existe... poderia ser qualquer livro de Chesterton (com exceção de O homem que foi quinta-feira).

Um livro difícil, mas indispensável.
Duas Damas bem Comportadas, de Jane Bowles.

Um livro que começa muito bem e se perde.
Quando se perdeu, me perdeu.

Um livro pretensioso.
Budapeste, do Chico Buarque: além de pretensioso, chato pra cacete.

Um livro pior do que o filme baseado nele.
Uma cosa não tem absolutamente nada a ver com a outra.

Que livros ficariam melhores se um pedaço fosse suprimido?
Ulisses, de James Joyce... eu suprimiria 551 páginas.

De que livro você mudaria o final? Por quê?
Somente mudaria o final de um livro mediante pagamento e autorização expressa do autor.

Que livros que contrariam suas convicções mas que ainda assim você julga recomendáveis?
Não tenho generosidade para tanto.

Cite exemplos de livros assassinados pela tradução e exemplos de boas traduções.
Sou monoglota, troglodita, heterossexual e a favor da bigamia para a mulher dos outros. Portanto, não tenho nada a reclamar quanto a traduções.

A literatura contemporânea é muito criticada. Que livro(s) publicado(s) nos últimos dez anos mereceria, para você, a honraria de clássico?
Penso que a literatura brasileira contemporânea é pouco ou quase nada “criticada”, e sim muito “marqueteada”. Há uma diferença brutal entre uma coisa e outra. Meu romance O Azul do Filho Morto é um clássico e foi covardemente negligenciado pela “crítica”, negligenciado pela Fundação Vitae e negligenciado por todos esses prêmios literários furrecas que existem no Brasil. Inclusive e sobretudo negligenciado pelos autores que ganharam essas bolsas no meu lugar. Só existe uma maneira de corrigir tamanha aberração; que os “laureados” devolvam o dinheiro que me pertence.

Para que clássico brasileiro, de qualquer tempo, você escreveria um prefácio incitando a leitura?
Um clássico, em qualquer tempo? Bem, já tratei disso ao fazer o prefácio de Pornografia Pessoal de um Ilusionista Fracassado, do Nilo Oliveira, e fria outro prefácio para Dos Nervos, do Ricardo Lísias – uma obra-prima. Também não vacilaria em apresentar Certeza do agora, de Juliano Garcia Pessanha, em qualquer tempo e lugar.

Que livros (brasileiros ou estrangeiros) sempre presentes nos cânones que não mereceriam o seu voto? E um sempre ausente no qual você votaria?
Outra vez, repito: Ulisses de Joyce, esse não merece meu voto. Um que não é completamente ausente, mas é pouco citado: Extinção, de Thomas Bernhard.


Sobre a crítica:
Que livro festejado pela crítica você detestou?
Budapeste, do Chico “sambinha” Buarque. Não é implicância minha, de jeito nenhum. Basta confrontá-lo com qualquer livro de Dostoievski... e não sobrará nada do sambista.

E que livro demolido por críticos você gostou?
Elio Vitorini, conheci depois de ler uma resenha. Acho que só. Os outros autores descobri na Biblioteca Mário de Andrade. Tem muita gente por aí que nunca entrou numa biblioteca pública e fica reclamando de preço de livro.

Cite um vício literário que você considera abominável.
Um vício literário? Tem um abominável, que é escrever sobre futebol. Borges jamais cogitaria sobre esse tema. Eu mesmo já incorri nesta besteira, embora tenha me saído muitíssimo bem.

Que virtude mais preza na boa literatura?
A boa literatura me ajuda a esquecer que existem outras formas inferiores de manifestações artísticas; incluo aí o cinema, a música, o futebol e o programa do Ratinho.

terça-feira, fevereiro 22, 2005

Ao meu Anjo Gabriel


A descoberta de que a liberdade tem o sabor do impossível, do inenarrável impregnou-lhe os pulmões. Não queria outra vida senão aquela; gostava da visão proporcionada pelos vôos rasantes: tudo era movimento.

Subitamente esse movimento fora congelado como se um grande blackout sitiasse sua cidadela: o menino-pássaro quebrou a ponta da asa, interrompendo sua fome de velocidade. E ele já sabia o que isso significava.

Olhos grandes e úmidos molharam suas penas e temeram a chegada de um mundo estático e monocromático; seu corpo encolheu-se trêmulo e inseguro já sentindo-se engaiolado.

Mas por ser refratário à imposição do destino, deslizou a mente pelas portas encantadas do sonho e voltou a voar.

segunda-feira, fevereiro 21, 2005

Convite

Marquem o dia 5 de março no calendário de vocês que estão em São Paulo.
Vai ter lançamento do livro (a tese de mestrado) de um amigo meu, que nas horas vagas também é músico, né Jean?

A Editora Reis convida para o lançamento do livro de Jean Pierre Chauvin

O Alienista: a teoria dos contrastes em Machado de Assis.

Local: Bar Fidalga 33
Rua Fidalga, nº 32
Vila Madalena

Data: 5 de março de 2005
Horário: 20h
Maiores informações: www.fidalga33.com.br / F: 3032-7346

Para obter o convite que garante acesso ao bar sem pagamento da entrada, envie um e-mail para: tupiano@usp.br
(Jean Pierre Chauvin)

domingo, fevereiro 20, 2005

Teatro

PURGATÓRIO


Entreolharam-se furtivamente. Cabeças baixas, olhar de soslaio.
Fedra tinha o braço na tipóia e Medéia usava um lindo colar de gesso. E pensar que tudo isso tinha um só nome: ciúme.

1º ATO – PARAÍSO


Era uma noite muito especial. Noite do baile de formatura de Medéia.
As irmãs chegaram cedo no salão de beleza: fizeram depilação, cortaram cabelo, pintaram as unhas e fizeram maquiagem digna de estrela de cinema. Saíram de lá radiantes.
Chegando em casa deram início ao ritual: pernas, meias finas, sapatos altíssimos, jóias, perfumes e decotes.
Fedra comprara vestidos deslumbrantes para a ocasião. Mandara fazer modelos exclusivos e presenteara a irmã com um deles.
Animadíssimas com o resultado da produção, partiram ao encontro do grande momento.

2º ATO – A MAÇÃ

Entraram no salão provocando comentários gerais.
Medéia apresentou a Fedra aos amigos e notou, de cara, o interesse de Tartufo pela irmã. Entortou o nariz e metralhou-o com os olhos. Ele, todo indiferente às ameaças, sentou-se ao lado de Fedra, atiçando a ira de Medéia.
Cutucou a irmã e pediu, entre dentes, que ela a acompanhasse até o banheiro.
Alertou a irmã sobre o caráter de Tartufo, acionando automaticamente nela o desejo de “pagar para ver”.

3º ATO – BARRAQUINHO BÁSICO


Claro estava que misturar as gregas trágicas com o cômico francês ia resultar em ópera bufa.
Dança aqui, drinques coloridos ali, “segredos de liquidificador” e o barraco estava armado.
Pasmem! Medéia foi com tudo pra cima de Fedra. Puxou-a pelo vestido com tanta força que a alça de miçangas partiu-se, desnudando o colo da coitada. Não conformada, agarrou seu lindo coque banana, despenteando-a. O choro e a gritaria superaram o som do DJ, a maquiagem belle de jour cedeu lugar à mamãezinha querida. Fiasco total.
Tartufo vendo cena tão deprimente, não teve dúvidas, saiu sorrateiramente, mas antes pegou Mary Poppins pela mão e sumiu salão adentro.

4º ATO – O INFERNO EXISTE


Vinte e quatro horas numa enfermaria, uma diante da outra, olho roxo, hematomas nas pernas, braço quebrado e um baita torcicolo. Esse foi o prêmio por passar quatro anos cursando a faculdade de psicologia.
A gente nota logo que o aprendizado foi alcançado com excelência.
Depois de passar o sábado descansando no pronto-socorro, voltaram para casa. Dentro do carro, mal se olhavam. Fariam o percurso mudas, não fosse a visão da figura de Tartufo atravessando a rua deserta, diante do semáforo fechado.
Nessa hora, a comunicação mental funcionou. Desceram do carro e agarraram Tartufo. Deram vazão às pulsões freudianas.
Ofélia finalmente entendeu a aplicabilidade prática dos fundamentos psicológicos. E Fedra filosofou de si para si: vingança e prato frio eram o cacete.

terça-feira, fevereiro 15, 2005

Correspondência

Querida A.,

Sabe o que me desencanta, o que deixa lágrimas nos olhos? É que tudo passa mesmo, inclusive as coisas delicadas que são breves, breves... e o aprendizado pela dor é o que fica e este é longo e penoso, daí que a gente corre um risco matématico claro de ficar amargurado, desesperançado, irônico, sarcástico, a bitter taste in the mouth, entende?

Não sei que lei universal medonha é esta que diz que todo aprendizado humano precisa passar pelo exercício da dor.

Eu prefiro cruzar o rio pela via menos tortuosa porque não tenho apego ao sofrimento, nem gosto das marcas que as quedas deixam no meu corpo. Cada vez que olho para elas, vejo a confirmação da incompetência humana de ser feliz.

Também não aceito explicações simplistas de que o sofrimento nos prepara para sermos melhores. Isso não é verdade, a psicologia tem vasta bibliografia sobre deformações causadas pelo sofrimento. Também desconheço torturados que aprovem o uso da violência na formação de suas pessoas.

Sabe que nessas horas eu me apego ao Ariano Suassuna e o JCMN, que falam de uma educação pela pedra, pela aridez e eu estou tão cansada dos desertos! Ando tão farta dessa dureza.

Ao mesmo tempo, eu sigo rindo, feito bobo da corte de mim mesma porque eu não quero sentar na calçada e chorar, eu quero, paradoxalmente, viver, embora tenha dias que a vontade de não acordar seja uma verdade quase universal.

Minha grande vingança sobre a dor, minha querida, é o tempo. O mesmo tempo que ajudou a iniciar essa carta, o tempo que passa e faz passar tudo.

Beijos,
V.

quinta-feira, fevereiro 10, 2005

Vontade insaciada e insaciável de poder transformar o que me rodeia. Vontade de romper amarras ancestrais que o tempo arrasta para as minhas margens tal qual o mar que devolve para a areia o que não lhe pertence.

Quero ficar ressaquiada pelas ondas e pelas horas que sobram em mim, transbordando fomes do que é novo, do que é inusitado, do que é hemorragicamente necessário.

Não quero o que sobra dessas muitas marés porque o que sobra não é mais meu, é entulho, sargaço.
Ao fundo, o mar, Sonia Guerreiro

Ah, Manu, Manu!

Poema de uma Quarta-Feira de Cinzas
(Manuel Bandeira)

Entre a turba grosseira e fútil
Um Pierrot doloroso passa.
Veste-o uma túnica inconsútil
Feita de sonhos e de desgraça...

O seu delírio manso agrupa
Atrás dele os maus e os basbaques.
Este o indigita, este outro o apupa...
Indiferente a tais ataques,

Nublada a vista em pranto inútil,
Dolorasamente ele passa.
Veste-o uma túnica inconsútil,
Feita de sonho e de desgraça...

sexta-feira, fevereiro 04, 2005

Oi pessoas!
Já tem um tempinho que estou pra postar esse texto dela, mas minha vida anda uma bagunça tão louca, nem queiram saber.
Então, hoje, faço minha mea culpa. Deliciem-se.
Beijos e bom carnaval.

JANAÍNA
A Janaína, cunhada da Paula Regina, levantou às 4 da manhã para limpar o cocô do cachorrinho naquela chuva. Escorregou no quintal, lógico, abriu a cabeça. O noivo dela, o Rodolfo Henrique (irmão da Paula Regina), levantou correndo, mesmo engessado, para correr com ela para um pronto-socorro. O pai dela não achava a chave do portão, depois foi a chave do carro que sumiu, não se tinha a mais remota noção de onde estaria a carteirinha do plano de saúde, enfim, naquela chuva e naquele frio, àquela hora da madrugada, ninguém era de ninguém. Chegando ao pronto-socorro, ainda queriam prender o Rô, porque aquela história estava mal contada, esse negócio de cachorro era absurdo (convenhamos, é esquisito mesmo) e aquele sangue esguichando da cabeça da moça tinha que ser resultado de espancamento. No final não prenderam ninguém, mas o médico raspou metade da cabeça da Jana, para dar os 11 pontos, sem levar em consideração que ela havia gasto 70 reais fazendo decapagem e reflexo no cabelo, depois de pintá-lo de preto por 15 anos. Enfim, quando eles voltaram para casa, o sol já estava alto. A Jana estava cheia de hematomas e meio careca e todo mundo estava com sono, cansado, com fome e mal-humorado. Qual a conclusão da Paula Regina, vendedora da Natura, piloto de provas da Elizabeth Arden, viciada terminal em cremes milagrosos, ácidos glicólicos, tintas variadas para cabelo e rímel incolor?
- Tá vendo, Lindíssima, a gente com tanta vaidade, e nada nesse mundo vale nada. Não cai uma folha da árvore se Deus não quiser.

terça-feira, fevereiro 01, 2005

"Pés para que os quero se tenho asas para voar.”
- Frida Kahlo

E seu sorriso engolia o mundo.
Seus olhos fotografavam o vento que soprava a imensa dimensão da vida. Sentia que podia correr, ser mais veloz que qualquer super-herói jamais inventado.
Os braços, ele os abria em arcos generosos como asas. Ele era, naquele momento, gaivota mergulhando céus e mares. Ele começava a perceber a noção do movimento, das pernas famintas por estradas longas e sinuosas.
Seu coraçãozinho de menino-ave entendeu o que é liberdade e descobriu que ela tem o sabor do impossível, do inenarrável.

Haicai bobo ou Estrangeirismo

Ménage à trois

Me
Myself and
I