Acabei de chegar do cinema.
Há muito tempo não entro numa sala de cinema para ver um filme de conteúdo “adulto”. A lista atualizada consta filmes dos estúdios Disney, Pixar e demais da mesma seara. Isso não significa, é claro, um martírio ou tortura, porque eu sou fã de animação, mas quem tem crianças por perto, sabe do que estou falando.
Minha intenção era ver a produção francesa La vérité ou presque (ou A quase verdade), mas cedi ao pedido de uma amiga de trabalho e fomos assistir Sex and the City.
Apesar de previsível, consegui me divertir porque aprendi encarar as crônicas de Carry Bradshaw como mera ficção.
Eu costumava ver o seriado até que enchi, cansei de ser iludida. Quando Sex and the city surgiu como seriado, tinha a pretensão de tratar do universo feminino e suas conturbadas relações de uma maneira bastante realista, uma vez que as histórias giravam em torno de mulheres que há muito deixaram de ser jovenzinhas sonhadoras e românticas. Eram mulheres de trinta, quarenta, cheia de histórias, decepções, alegrias, perdas, futilidades, papo-cabeça, ou seja, gente como a gente.
A protagonista/narradora é Carry Bradshaw, jornalista com uma coluna cativa que tratava das relações amorosas, sob a ótica feminina, na cidade Nova York. Carry é solteira, independente, dona de um discurso moderno, mas em busca de um grande amor.
Charlotte é a típica heroína dos romances do século XIX: bonita, delicada, feminina que sonha com a família perfeita. Aquela dos comerciais de margarina.
Miranda é a personificação dos ideais feministas, em outras palavras, ela é um homem de saias: é uma vencedora da batalha dos sexos no competitivo universo profissional: inteligente, racional, metódica, bem-sucedida. Um bom exemplo de que para ser bom profissional é preciso esquecer que a vida também é feita de emoção.
Por fim, Samantha. Make love not war é literalmente o seu lema.
Com o tempo descobri que Carry é uma farsa. Das quatro mulheres, ela é a única personagem absolutamente incoerente. No desespero de encontrar o “homem da sua vida” (que lá pelas tantas aparece), ela não percebe que perpetua os padrões da “mulherzinha”. Entre Aidan e Mr. Big, ela não tem dúvidas: Mr. Big, o estereótipo do solteirão convicto.
Carry deseja o que tanto rejeita, porque como uma boa Polyanna, ela acha que pode mudar o amado. Tira onda do amor romântico ao fazer piada de Aidan que ajoelhado pede sua mão em casamento, mas não hesita em dizer sim ao pedido de Big, tão clichê quanto o de Aidan, mesmo depois de ser por ele abandonada pela enésima vez. É preciso ter uma auto-estima muito baixa para continuar investindo 10 anos da vida em um cara como Big, mas tem gente que ainda rima amor com dor e tem um apego inexplicável à infelicidade.
Mas o filme tem algo que continua muito positivo, que na minha singela opinião, é o melhor. Sex and the city é mais do que histórias de balzaquianas em busca da felicidade amorosa. Sex and the city é sobre a relação de amor que liga quatro mulheres, sobre a amizade, que está acima de todos os clichês.
Valeu a pena ver uma Carry emocionalmente ferrada levantar numa noite fria e correr para abraçar uma amiga triste e solitária do outro lado da cidade; ou ver três amigas transformando uma fracassada viagem de lua-de-mel em momentos de solidariedade e espera paciente e silenciosa; ou ainda, constatar que apesar das crises, maridos, filhos, os amigos sempre terão o espaço sagrado que merecem em nossas vidas.