segunda-feira, julho 04, 2005

"Já lhe dei meu corpo, minha alegria
Já estanquei meu sangue quando fervia
Olha a voz que me resta, olha a veia que salta
Olha a gota que falta pro desfecho da festa"

A., minha querida,

Sabe o que é mais impressionante? Você escrevendo sou eu pensando. Enquanto leio tua carta – ah!, tuas cartas são sempre tão anseadas, querida! – fico imaginando quantas coisas vis passam pela minha cabeça.

Elas nascem e morrem e não consigo executar um único pensamento vil. Não, a explicação não reside no fato de eu ser boa ou um modelo de bondade, A. Acho que minha incapacidade de ferir deve-se ao fato de ter sido ferida demais, de ter aprendido na pele a pior rima, a mais pobre e talvez a mais difundida: amor com dor.

Hoje só sei rimar amor com liberdade, A. Não, de fato, não é uma rima sonora, melódica ou rica mas é plena de significado, querida.

Já comecei a traçar a minha rota, A., e descobri que as retas podem ser tão ou mais perigosas do que as curvas sinuosas.

O amor tentou-me com todas as suas faces e eu voltei a sangrar. Perdi tanto sangue nos últimos dias que pensei que fosse morrer.

Abortei todos os filhos que acalentei em sonhos, querida. O meu corpo, em luto, chora.

A., todas as vezes que ensaiei o salto mortal, a rede de proteção era ocultada e a minha única reação era sangrar como quem antecipa a queda.

A diferença, minha amiga, é que desta vez não estancarei o sangue.

Beijos hemorrágicos,

V.

terça-feira, junho 28, 2005

V.,

Eu gostaria de ter metade dessa tua coragem, dessa tua ousadia e petulância de atravessar os salões repletos de gente de cera sem baixar os olhos, sem titubear, sem duvidar da minha postura.

Essa é a verdadeira elegância, V. Não existe passarela que ensine esse modo teu de encarar uma platéia faminta, sorrir docilmente e depois dar as costas como quem não tem nada a perder. Não é um desprezo nocivo, agressivo, é um desprezo de quem realmente não dá importância para títeres.

Não sei exatamente o que tens em mente, mas se a linha reta que traçares encontrar vestígios do Pessoa pelo caminho, transgrida, V! Transgrida da maneira elegante que só você sabe fazer. Há que ter elegância até quando se vai à guerra, minha querida.

É o que tento aprender com muito esforço, porque você sabe que não sou das delicadezas, eu gosto mesmo é de ventar e derrubar as paredes que me isolam. Deve ser meu modo de compensar anos de mutismo e anuência, anos em que fui a sombra da minha sombra, em que eu tinha medo de tudo, medo do escuro e da luz muito forte.

Lembras, V.? Eu era morna e “por não ser nem frio, nem quente, vomitavam em minha boca”.
Hoje sou apenas ridícula e gosto disso porque

"Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó principes, meus irmãos,"

Não, minha querida, você é gente de outra sorte...
Continue dando-me as direções contidas no teu mapa.
Beijos,
A.

sexta-feira, junho 24, 2005

"Mas louco é quem me diz e não é feliz"

Estou lendo O ovo apunhalado, de Caio Fernando Abreu e estou gostando muito. Os contos oscilam, ora são delicados, ora são pura violência. Eu gosto de palavras assim como as do Caio Fernando, apaixonadas, intensas, viscerais.

Divido com vocês o texto* (não seria um poema?) “de um louco anônimo”:

“Estive doente,
doente dos olhos, doente da boca, dos nervos até.
Dos olhos que viram mulheres formosas
da boca que disse poemas em brasa
dos nervos manchados de fumo e café.
Estive doente
estou em repouso, não posso escrever.
Eu quero um punhado de estrelas maduras
eu quero a doçura do verbo viver.”

* CFA transcreveu fragmento da reportagem “Crime e loucura”, feita por Caco Barcelos e que foi publicada na extinta Folha da Manhã, Porto Alegre - RS

quarta-feira, junho 22, 2005

Atendendo aos apelos d’O Povo, vou responder a outro questionário.

Leal, querido, não se anime muito, em matéria de música, eu sou um tanto quanto obtusa. Sou fiel a alguns cantores e canções, ou como diria o nosso maestro Tom Jobim: sou um “samba de uma nota só”.

Beijos

MELÓMANO QUIZ

1) Tamanho total dos arquivos no meu computador?
Não faço a menor idéia!

2) Último disco que comprei:
Vítor, há tempos eu ando numa fase mais do mesmo. Estou sempre escutando as coisas que eu gosto, que me comovem, é um tipo de “Lista de Clássicos da Lu”.
As últimas aquisições foram presentes do meu namorado: o novo CD do U2 e Chico ao vivo.

3) Canção que estou a escutar agora:
Estou ouvindo o som do silêncio.

4) Cinco canções que ouço freqüentemente ou que têm algum significado para mim:
Ô perguntinha ingrata!

Estou sempre escutando Chico Buarque, Toquinho, Billy Holliday, Adriana Calcanhotto, Lenine, Chat Baker, Mozart, Bach...
I’ll be seeing you, na voz da Billy é uma das músicas da minha vida; Esquadros, da Adriana é outra; Beatriz, do Chico, La vie em rose com Piaf e mais uma infinidade de canções que não cabem no questionário.

sexta-feira, junho 17, 2005

A.,

Escrevo-te com a urgência dos que morrem e dos que amam.
Já percebestes, minha querida, que tanto os que amam como os que morrem têm a mesma reclamação?

É sempre pouco o tempo que lhes resta, mal podem esperar pelo amanhã; o presente é rápido demais e o passado é um lugar muito distante.

É esta urgência que reivindico para mim. Quero ser feliz agora, A.! Quero a ruptura, o cessar fogo, o perdão. Já!

Estou recomeçando mais uma vez, querida. Quero muito não ser só o alpha.

Vou fechar os olhos e quando os abrir novamente quero enxergar outras paisagens, aprender novas línguas, conhecer gente, vestir outras roupas, descobrir novas melodias, visitar lugares, enfim, quero uma segunda edição de mim, revisitada e ampliada.

A primeira medida desse novo livro será a de abolir adendos e notas de rodapé. Quero ser simples, A. Se não puderem me compreender numa primeira leitura, quero ser abandonada em um canto qualquer, mas não quero (e não vou) mais me explicar.

As entrelinhas também serão cortadas. Eu sou o que sou.

Não me procurem atrás de uma vírgula, após as reticências. Terminarei no ponto final.

Refarei todo o percurso para descobrir onde foi que me perdi, em que curva, qual estrada e quando descobrir o tal desvio, traçarei a rota em linha reta.

Beijos,

V.

quinta-feira, junho 16, 2005

Bolor

Da janela, ela observa o casal de velhos. Eles passeiam religiosamente todas as tardes, braços dados, passo miúdo, nenhuma pressa.
Sentam-se no banco e ficam apenas observando a vida e os transeuntes. Não se falam. Vez ou outra, olham-se numa sincronia de cabeças para logo mais voltarem a contemplar simplesmente.
Meia hora depois, levantam-se, um apoiando o outro e rumam para casa.

Da primeira vez que os viu, pensou maldosamente: “sob o sol, vão tirar o cheiro de mofo.”
Na segunda vez, destilando toda sua amargura, pensou que a falta de diálogo que ela observava devia-se ao peso dos anos e do desgaste que era ter sempre a mesma pessoa ao lado. Nenhuma novidade, nenhum fogo, apenas a rotina.
Mais tarde, num misto de piedade e repulsa, imaginou que o passeio deveria ser para trazer um pouco de cor e luz para uma relação já tão esmaecida pelo tempo, onde o próprio apartamento denunciaria o quanto de pó ele guardava.

Ela já os acompanha há quatro meses, e hoje, seu olhar é outro.
Tem pena de si mesma e uma certa inveja do casal, porque no fundo sabe que uma relação requer cumplicidade e silêncio; que o tempo está a nosso favor quando temos a disponibilidade e a generosidade de aceitar o amor em todas as suas fases até o serenar das paixões; quando somos capazes de construir paredes ornadas com quadros e memórias com lembranças.
“A gente esquece que o tempo também pode ser um aliado.”

quarta-feira, junho 15, 2005

Dica de leitura

Posso indicar uma leitura densa, mas muito, muito poética a respeito da idéia da gênese humana?
Então cliquem aqui e deliciem-se!

P.S.: A sugestão é que a leitura siga a ordem cronológica.

segunda-feira, junho 13, 2005

Homenagem

As palavras

São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.

Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos ou beijos,
as águas estremecem.

Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luze são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.

Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?

Eugênio de Andrade



quarta-feira, junho 08, 2005

Sweet Valentine

Enfeitou a casa toda com flores, arrumou a mesa de maneira impecável, cuidou pessoalmente do cardápio, da bebida, colocou tolhas novas no banheiro, na cama, o lençol de linho branco.
Não esqueceu um único detalhe, esmerou-se ao máximo e tudo para quê? Se seus cabelos e roupas não resistiram ao primeiro beijo?

terça-feira, junho 07, 2005

"Minha força está na solidão.
Não tenho medo nem das chuvas tempestivas
nem das grandes ventanias soltas,
pois eu também sou o escuro da noite"
- Clarice Lispector

sexta-feira, junho 03, 2005

Querida V.,

Finalmente começo a vislumbrar a presença estimulante de uma luz, ainda fraca, ainda débil, ainda tímida, mas extrema e apaixonadamente desejada.
Como é reconfortante saber de mim mesma, acreditar na minha existência quando tudo o mais era ruínas e escombros; como é bom poder olhar meu rosto no espelho e ver marcas que contam um pouco de mim e da minha história e poder perceber que meu sorriso ainda guarda doçura.
Acidez e amargura são sentimentos pontuais e descartáveis, necessários às vezes, quem sabe, mas não consitituintes e conformadores da minha imagem.
Quero a loucura, a velhice, os amigos e o açúcar como companheiros, todo o resto, querida, não é bem-vindo e não cruzará os umbrais da minha casa.
Obrigada pelo Hesse.
Beijos,
A.

sexta-feira, maio 20, 2005

Angústia

Quem é que vem,
O que é que tem,
depois do fim?

A lâmpada apaga-se,
A música acaba.
O que resta de mim?

Quando o silêncio atordoa
E o sono não chega
Que anjo, qual querubim?

Se tudo termina
com um ponto final,
Por que me sinto assim?
Incompleta, dividida,
Tão chinfrim?

quarta-feira, maio 18, 2005

Sintonia

A., minha querida,

Provavelmente há alguém que assiste ao teu filme enquanto silencias...
Trouxe até você uma boa interlocutora. Creio que estabelecerão um lindo diálogo, porque bem aqui dentro, algo me diz que vocês estão falando a mesma língua.
Beijos,

V.

Extração da Pedra da Loucura

I
E sobretudo olhar com inocência. Como se nada se passasse, o que é certo.

II
Mas a ti quero olhar-te até estares longe do meu medo, como um pássaro no limite afiado da noite.

III
Como uma menina de giz cor-de-rosa num muro muito velho subitamente esbatida pela chuva.

IV
Como quando se abre uma flor e revela o coração que não tem.

V
Todos os gestos do meu corpo e voz para fazer de mim a oferenda, o ramo que o vento abandona no umbral.

VI
Cobre a memória da tua cara com a máscara daquela que serás e afugenta a menina que foste.

VII
A nossa noite dispersou-se com a neblina. É a estação dos alimentos frios.

VIII
E a sede, a minha memória é da sede, eu em baixo, no fundo, no poço, bebia, recordo.

IX
Cair como um animal ferido no lugar de hipotéticas revelações.

X
Como quem não quer a coisa. Nenhuma coisa. Boca cosida. Pálpebras cosidas. Esqueci-me. Dentro o vento. Tudo fechado e o vento dentro.

XI
Sob o negro sol do silêncio douravam-se as palavras.

XII
Mas o silêncio é certo. Por isso escrevo. Estou só e escrevo. Não, não estou só. Há alguém aqui que treme.

XIII
Ainda que diga sol e lua e estrelas refiro-me a coisas que me acontecem.E o que desejava eu?
Desejava um silêncio perfeito.
Por isso falo.

XIV
A noite parece um grito de lobo.

XV
Delícia de perder-se na imagem pressentida. Levantei-me do meu cadáver, fui à procura de quem sou. Peregrina, avancei em direcção àquela que dorme num país ao vento.

XVI
A minha queda sem fim na minha queda sem fim onde ninguém me esperava pois ao descobrir quem me esperava outra não vi senão a mim mesma.

XVII
Algo caía no silêncio. A minha última palavra foi eu embora me referisse à aurora luminosa.

XVIII
Flores amarelas constelam um círculo de terra azul. A água treme cheia de vento.

XIX
Deslumbramento do dia, pássaros amarelos na manhã. Uma mão desata as trevas, arrasta a cabeleira da afogada que não cessa de passar pelo espelho. Voltar à memória do corpo, hei-de regressar aos meus ossos de luto, hei-de compreender o que a minha voz diz.

Alejandra Pizarnik

terça-feira, maio 17, 2005

Correspondência

Querida V.,

Escuta-me com atenção. Não a mim, exatamente, mas às vozes vociferantes no meu corpo. Elas são tão ladinas que aprenderam a murmurar, V! Como numa sinfonia de orquestração perfeita: todas falam ao mesmo tempo sem confusão; existe harmonia porque eu consigo diferenciá-las. Sei reconhecê-las.

Meu corpo, essa praça pública, vibra e desfalece de acordo com a entonação do coro.

V., diga-me que não estou enlouquecendo, por favor! Se você estivesse aqui, provavelmente também ouviria.

Já sei o momento em que elas fazem festa; é o mesmo momento em que silencio, em que emudeço para o mundo e suas cores.

Cinema mudo, V., é o que eu tenho sido. Não emito sons, estou monocromática. O único exercício que tenho feito é o de decifrar lábios, imaginar as palavras, investigar sorrisos.

V., será que em algum lugar do mundo alguém silencia enquanto assiste ao meu filme?

terça-feira, maio 10, 2005

O Reencontro

O contato da sua mão na minha indica-me um novo tempo.

Desvencilhei-me de seus dedos por alguns instantes e segui em direção à música. O jazz que saía daquele baixo acústico era-me muito familiar.
Aproximei-me lentamente, sabendo de antemão – não me perguntem como – quem eu encontraria.
Seus olhos – que ora pairavam sobre a platéia, ora se quedavam fechados – foram capturados pela minha presença silenciosa.
Por um segundo, ele perdeu o compasso. Depois sorriu.
Deixei o local da apresentação serena, sem hesitações.

Procurei novamente o calor de sua mão, entrelacei meus dedos nos dele e num afago senti nossas vidas transbordarem.

quarta-feira, maio 04, 2005

Leal e Jayme, pessoas queridas, vou TENTAR responder, porque é tão injusto ter que escolher apenas alguns livros, sempre me dói deixar outros de fora.
Beijo grande.


Não podendo sair do Fahrenheit 451, que livro quererias ser?
Eu seria o Avalovara, do Osman Lins, escritor pernambucano que fez maravilhas com as palavras e comigo.

Já alguma vez ficaste apanhadinha(o) por uma personagem de ficção?
Cada vez que leio um livro pelo qual me apaixono, certamente alguma personagem é co-responsável pela paixão.
No livro em que mencionei, existem 3 mulheres/personagens que marcam a trajetória humana e literária do escritor. Amo-as. Todas. São distintas e complementares.

Qual foi o último livro que compraste?
Preciso confessar que adoro sebos. Então os últimos livros que comprei não são novidades, mas livros que sempre me sondaram e eu não tinha tempo de ler.
Bebel que a cidade comeu, do Ignácio de Loyola Brandão e As mil e Uma Noites.

Qual o último livro que leste?
As ondas, Virginia Woolf.

Que livros estás a ler?
Estou sempre relendo coisas que me marcaram.
Terminei de dar um curso de literatura brasileira contemporânea, então reli muitos livros nos últimos 4 meses.
Só para citar: Reflexos do baile, do Antonio Callado e As meninas, da Lygia Fagundes Telles.

Que livros (5) levarias para uma ilha deserta?
Avalovara - Osman Lins;
Memórias Póstumas de Brás Cubas - Machado de Assis;
Nunca te vi, sempre te amei - Helen Hanhoff (?);
Cem Anos de Solidão - Garcia Marquez;
Um sopro de vida - Clarice Lispector.

Ainda daria um jeito de colocar um livro de poemas do Carlos Drummond e o Livro do Desassossego, do Pessoa.

A quem vais passar este testemunho (3 pessoas) e porquê?
Para a Fal, porque eu adoro atentar o juízo dela.
Para Hormoniosas. Precisa explicação?
Para o Fernando, com quem andei tecendo teorias para lá de evolucionistas.

terça-feira, abril 26, 2005

O Glossolalias, além de ser o espaço onde exercito a palavra, é também o local que concede às muitas falas e vozes o direito de expressão, do fazer poético, da criação e da interpretação discursiva.
Este mês, trago um pedacinho da entrevista que o Mia Couto concedeu à Revista Continente.
Deliciem-se!

“O escritor não tem função”

Considerado o mais inventivo ficcionista em língua portuguesa atualmente, Mia Couto separa militância do fazer literário, defende a arte de contar histórias e revela como trabalha sua ficção

Por Homero Fonseca

António Emílio Leite Couto é um dos mais criativos escritores contemporâneos em língua portuguesa, recorrentemente comparado a Guimarães Rosa. Além dessa influência assumida, sua escrita lembra certas características da melhor poesia de Manuel de Barros quando, em suas próprias palavras, deixa transparecer uma “capacidade de espanto, de me encantar com pequenas coisas, como se o mundo fosse uma coisa que ainda me está a ser apresentada, como se tudo estivesse a ser estreado”. Os críticos ressaltam seu estilo original, que se apropria do caldeamento entre o falar dialetal africano e a norma culta do português, para criar um universo próprio, onde o maravilhoso convive com a vida real de pessoas simples, numa África arquetípica que enfrenta hoje os dilemas da construção de identidades na moldura da modernidade.

Nascido em Beira, Moçambique, em 1955, adotou profissionalmente o apelido conservado desde a infância: Mia. Estreou em 1983 com o livro de poemas Raiz de Orvalho e nesses 22 anos construiu uma obra relativamente pouco extensa – meia dúzia de romances, outro tanto de livros de contos, uma seleção de crônicas e adaptação para o teatro – mas de extraordinária relevância pela inventividade que o coloca no patamar de renovador da língua portuguesa. Traduzido em holandês, sueco, norueguês, italiano, francês e espanhol e detentor de vários prêmios literários, Mia Couto é autor, entre outros, dos livros de contos Estórias Abensonhadas, Vozes Anoitecidas, Cada Homem É uma Raça e de romances como Um Rio Chamado Tempo, Uma Casa Chamada Terra, em que sua capacidade imagética se traduz na recriação semântica das palavras, processo batizado por ele próprio de brincriações. O romance O Último Vôo do Flamingo acaba de ser lançado no Brasil.

Antes de se dedicar à literatura, foi jornalista, diretor da Agência de Informação de Moçambique e dirigiu o jornal Notícias de Maputo e a revista Tempo. É ainda biólogo, responsável pela reserva natural da Ilha da Inhaca, em Moçambique.
Apesar do currículo de militante, Mia Couto revela, nesta entrevista, saber distinguir os campos de atuação, ao afirmar taxativamente: “O escritor não tem ‘função’. Não creio que se pode olhar a escrita literária do ponto de vista utilitário. Ele escreve movido por um telúrico e inexplicável desejo de se religar aos outros”.

Como foi a sua descoberta da Literatura, entre os livros em português e as histórias orais da África ágrafa?

Cresci cercado pela poesia, literalmente. As paredes de nossa casa estavam forradas de livros de poesia. E, para agravar, o meu pai era poeta em permanente exercício. Essa era a casa. Do outro lado, a rua se compunha como a outra margem de mim. Ali estava África, os contadores de histórias e, mais do que tudo, uma lógica outra que me fascinava. Nessa aparente dualidade, eu fabriquei os dois pés da alma.

Sua escrita traz uma elaboração de linguagem que provoca comparações recorrentes a Guimarães Rosa. Entretanto, certas abordagens - em que um objeto ou uma coisa banal são descritos como se vistos pela primeira vez - lembram o poeta Manoel de Barros. Conhece sua obra? O que acha dessa aproximação?

Conheço os dois, Guimarães e Barros. Eu apenas me honro com a comparação. Assumo ambos como inspiradores, instigando a exploração dos limites da palavra em luta contra o idioma. Creio, no entanto, que os nossos domínios não são comparáveis. Estou num tempo diferente, num universo cultural outro. E isso apenas pode produzir literaturas diversas.

Que tipo de contribuição à Literatura estão dando as nações jovens (africanas, latino-americanas)? Há algo em comum em sua produção, apesar da imensa diversidade?

A literatura nossa, africana, é quase sempre contemporânea ao processo de criação do sentimento de nacionalidade e de identidade nacional. A construção da modernidade e o modo como o universo da escrita se está instalando em África (não falo na alfabetização, mas no sistema de pensamento associado à lógica da escrita), tudo isso é comum nos países africanos.

Qual a função do escritor no mundo globalizado de hoje, em que a questão das identidades está colocada na ordem do dia (política e culturalmente)?

O escritor não tem “função”. Não creio que se pode olhar a escrita literária do ponto de vista utilitário. Ele escreve movido por um telúrico e inexplicável desejo de se religar aos outros. É evidente que, por outro lado, o escritor não escapa ao tempo e ao lugar. E aí o seu produto é posto a navegar nas águas da História. Mas se tem um fito honesto, só pode ser o navegar para além da História.

Não obstante a imensa dívida cultural para com os povos africanos, o Brasil pouco se volta para África. O José Eduardo Agualusa acredita que o Brasil tem vergonha de suas origens africanas. O que o sr. acha desta distância e como pode (deve) ser encurtada?

Essa viagem está sendo feita no interior de cada um dos nossos espaços, na busca de uma relação mais tranqüila com aquilo que somos. O Brasil não tem outra opção, senão reencontrar essa dimensão de origem africana e que hoje é brasileira. Digo brasileira, para evitar propositadamente dizer “afro-brasileira”. Angola só poderá inventar a sua identidade se enfrentar o quanto de brasileiro há na sua história. Nós, em Moçambique, temos menos cruzamentos com Angola e o Brasil, mas os nossos valem tanto como quaisquer outros. A literatura moçambicana foi toda ela construída sob fortíssima inspiração do Brasil. Desde António Gonzaga às diferentes gerações do século passado foi no Brasil que fomos beber. E isso tem implicações na criação do nosso próprio sentimento de modernidade.

O senhor aproveitou sua participação na Bienal do Livro de Fortaleza (ano passado) para fazer uma viagem ao Sertão nordestino. Algum objetivo (literário) específico? A propósito, quais seus novos projetos literários?

Queria percorrer um Brasil mais distante do roteiro turístico. Mas não existia objetivo propriamente literário. Nada é literário, se não tocar profundamente e de surpresa. E essa surpresa acontece em todo o lado. Não tenho a idéia romântica de que o interior dos países seja uma moradia especial da poesia ou da inspiração. Quanto aos projetos, estou agora redigindo um romance de inspiração histórica, que trata da escravatura no Oceano Índico e os mal-entendidos, os clichês do fenômeno que até hoje se renovam no imaginário africano.

(Leia mais na edição 52 da Revista Continente Multicultural.)

segunda-feira, abril 25, 2005

Desperto para as manhãs
de um outono difuso.
A natureza aponta-me seus tempos
como mãe zelosa, de olhar atento.
Despetalam-se os sonhos,
Fenecem os projetos.
E eu, imóvel, repouso
o ventre sobre a terra úmida,
a fim de gestar as sementes
que resistiram –
sólidas, enérgicas –
A uma nova estação.

segunda-feira, abril 18, 2005

Minha querida A.,

Faz um frio terrível por aqui. Uso meias de lã que não aquecem os pés, estou metida embaixo de muitas cobertas e tomo chá quente enquanto leio um bom livro. Tudo isso tem a intenção clara de manter, ao menos, minha alma livre do gelo.

Estou relendo sua carta pela quarta vez, A. Escavo os espaços em busca de palavras suaves para lhe dar algum conforto, em resposta. E é muito difícil, A., difícil porque não quero ser uma interlocutora leviana e boba, muito menos uma amiga omissa, respondendo coisas do tipo “vai passar”, como se num passe de mágica ou num truque de prestidigitador, os problemas evaporassem ou fossem sugados por um enorme buraco negro.

Não quero também ser patética, muito embora a vida não tenha a menor parcimônia em sê-la.

Não posso quebrar as leis da física, A., muito menos alterar a geografia que nos separa, retirando-nos a possibilidade do afago, mas posso e vou te dizer algo que aprendi com a minha experiência de conviver nesse vale depressivo que hoje você se encontra.

Escuta, A.! Tudo pode ruir, a única coisa que precisa prevalecer é o contato de você consigo mesma. Lute para não edificar paredes altas e fortes dentro de você mesma. Haja o que houver, não perca o contato com você! Descubra algo que estabeleça e mantenha esse vínculo.

No meu caso, eu busquei a luz, A., porque dentro de mim todos os cômodos eram escuros e isso era muito reconfortante.

Lembro da dor lancinante que sentia quando alguém invadia meu quarto e acendia a luz ou abria as cortinas. Eu berrava feito uma louca, A.

Primeiro, eu não podia enxergar, mas não tardou chegar a hora em que eu já não queria ver. O sono e a escuridão me davam tudo que eu precisava: solidão, distância, fuga.

Não estou te dando conselhos, minha querida. Estou te confidenciando minha dor, minha fraqueza. Agora que você já sabe, faça o que quiser com esta informação, inclusive sinta-se à vontade para desdenhar, rir, chorar, jogar fora.

Ao te contar isto, não estou te oferecendo uma cura, uma solução, não. Estou, sim, reafirmando o compromisso que fiz comigo mesma: o de viver.

Minha confidência é um lembrete para mim: egoísta, salvador, mantenedor da minha própria ordem.

Engraçado. Subitamente as meias de lã tornaram-se insuportáveis, A.

Vou dormir.

Aguardo ansiosamente a chegada do SEU lembrete.

Abraço caloroso da amiga,

V.

quarta-feira, abril 13, 2005

Hotel Room

Sentiu a respiração pesada e alguma asfixia.

O que a incomodava era aquele cheiro de coisa nova, o quarto friamente arrumado, lençóis sem rugas, móveis nus, objetos intactos.

Mesmo sem muito ânimo, fazia a faxina às avessas: puxava os lençóis sem cuidado; jogava a bolsa, pastas, papéis sobre os móveis; ligava a TV; pendurava roupas no encosto da cadeira.

Aquela desordem forçada lhe trazia paz e conferia alguma identidade ao recinto frio e impessoal. Somente esta ilusão de transformar o desconhecido em um lugar familiar lhe devolveria o sono.
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Hotel Room, Hopper.