Sobre a porta da loja lia-se a placa talhada na madeira: Oficina do Gegê. Como a porta estava aberta, fui entrando. Era um galpão de aproximadamente uns vinte metros quadrados sem qualquer organização. Havia pneus, câmaras de ar, remendos por toda a loja; pedaços de bicicleta – raios, pedais, selim, guidão – espalhados no chão. Era difícil caminhar por ali.
Já que não havia ninguém para atender, resolvi bater palmas – um velho hábito do interior – para pedir ajuda.
- Ô de casa!Nenhuma resposta.
- Ô de casa. Tentei novamente, mais forte dessa vez.
Lá do fundo da loja alguém respondeu:
- É já.
Em alguns segundos, surge uma figura simpática e bonachona. Entrou sorrindo largo, dentes branquíssimos, cara redonda. Não me restaram dúvidas. Só podia ser o pai de Tiziu, afinal, eram os mesmos olhos brilhantes.
- Bom dia, moça.
- Bom dia, Sr. Geraldo. Eu sou Olívia e...
- Ah! O Tiziu me falou da senhora. A professora lá da capital.
Segurei firme o riso. Fiquei imaginando como teria sido o relato daquele moleque. Ele viu os livros que trouxe e deduziu que sou professora. O que não deve ter sido muito animador, uma vez que a escola não é assunto que lhe pareça agradável.
- Isso mesmo. Ele disse-me que o senhor poderia conseguir uma boa bicicleta pra mim.
- Eu posso, mas é de segunda mão. Não se importa?
- De forma alguma. Como não vou ficar muito tempo, talvez um mês ou dois, pensei em alugar uma.
- Alugar? Nunca fiz isso, não senhora. Eu conserto, pinto, monto, desmonto, mas alugar... é novidade. Eu posso emprestar.
- Não, Sr. Geraldo. Veja aí uma bicicleta e diga o preço. Eu compro. Quando eu for embora, deixo para o senhor arrumar uma venda, um bom negócio.
Saí de lá montada numa bicicleta vermelha, com raios brilhantes, retrovisor e uma buzina de som extravagante.
É. Bicicleta é um meio de transporte sério em São Pedro das Missões.

