terça-feira, setembro 26, 2006

Teorias amorosas (4)

Fodeu-me a noite inteira, sussurrando delícias e indecências entre dentes. Ofereceu-me, inclusive o Paraíso que aceitei sem hesitar.
Na manhã seguinte, jogou-me num beco escuro e sem saída. Na plaqueta de identificação lia-se: Jardim do Éden.

quinta-feira, setembro 21, 2006

O diário de G.H. (7)

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Finalmente aceitei o encontro.
Preparei o banho tendo o cuidado de deixar o vapor tomar conta. Mergulhei na banheira disposta a deixar na água todos os meus medos. Eles escoariam pelo ralo e pronto. Seríamos eu e ela.
Habituei-me a chamá-la assim: ela. Não sabia de quem se tratava, mas estava certa do seu gênero.
Encarei o espelho prestando atenção na umidade que escorria por ele e pelas paredes. Não pude conter o gesto. Toquei no seu ‘suor’ e levei a ponta dos dedos aos lábios: tinha gosto de sal.
Passei a mão pela superfície lisa e a imagem dela surgiu. Ela é... ela sou eu! Não escondi o espanto, mas a imagem não respondia aos meus movimentos e expressões, permanecia imóvel, impassível, olhos oblíquos.
Como se lesse meus pensamentos, deixou transparecer sua inquietude e voltou a cabeça em direção ao seu peito.
Esfreguei novamente o espelho e vi aquilo com olhos surpreendidos e admirados. Ela tinha um buraco enorme vazando seu corpo, no peito, exatamente entre os seios.
Estendi meu braço a fim de alcançar sua ferida e de repente a imagem não estava mais lá.

terça-feira, setembro 05, 2006

Vitrine (2)

Não resisti e pedi permissão para postar aqui.
Espero que se enterneçam como eu.

sentei-me comigo. no outro lado da tarde. e já era tão tarde. entre nós o silêncio reconhecido. tarde demais. o de muitos anos. entardecido. a metade do espelho estalado pelos punhos de um monólogo longo a cruel onde às respostas tardias se colaram caminhos escavados com a alma cheia de nada. sentei-me comigo debaixo da oliveira. ao nosso lado o mar e a terrível claridade da água. filtro de todas as tardes metáforas ironias figurações e ecos.

Obrigada Mendes Ferreira!
Beijo.

terça-feira, agosto 22, 2006

Desprezo os covardes porque disfarçam sua omissão sob a máscara da timidez.
Ratos, todos eles! Alimentam-se das sobras do pavor,
Roem nossos sonhos deliciando-se com seus sobejos.
Vis! Incapazes de um gesto ou palavra.
Dormem tranquilamente enquanto pernoito na escuridão.
São tão numerosos! O que podem os gentis contra eles?

sexta-feira, agosto 04, 2006

LuZ

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Basilique de Domrémy. Ricardo Alves.

Escuto Bach.
Meu Deus, que alma translúcida é essa?!
Escuto Bach. Elevo-me aos céus e penso: não pode haver avareza depois de Bach.
Os miseráveis deveriam, pelo menos uma vez ao dia, ouvir a abundância de Bach como prescrição médica.

- Doutor, tenho o coração seco.
- Ouça Bach, meu filho.

Ou então:
- Estou fazendo análise.
- Oh, que ótimo. Está gostando?
- Muuuito.
- Ele é reichiano?
- Não, é bachiano.

Nesses dias de ressaca, Bach é esperança pura. Fecho os olhos, abro os ouvidos da alma e posso ver a vida novamente: amores-perfeitos em flor; rosas amarelas – perfume sem frascos; um céu de azul-infinito.
Enquanto o mar em mim não acalmar, amanhecerei Bach. Todos os dias.

terça-feira, julho 25, 2006

Teorias amorosas (3)

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Antes de sair, ele beija-lhe a testa:
- Feliz aniversário.
Ela sorrindo:
- Não demoro. Nos vemos logo mais.
À tardinha, ela volta com o vestido novo e vê o envelope sobre a cama.
No começo dói, mas vai passar.”

domingo, julho 16, 2006

Teorias amorosas (2)

- O amor pode até acabar. É claro que isso não é bom, é triste, exige uma reeducação, um aprendizado de asas partidas.
- ...
- O que não pode nem deve acabar é a delicadeza do tempo, de tempos vividos.
- ...
- Garçon, um frisante.
- ?
- Brindarei às bolhas.
- O que tem elas?
- São como o fim do amor. Sentimos uma leve cócega ao final do gole que é para nos lembrar que não estamos de todo mortos.

quinta-feira, julho 13, 2006

Vitrine (1)

Veio lá de Portugal essa linda contribuição.
Obrigada, Agripina!


Love transcends. Christopher Lovely. 2006.


Meu amor, guardo-te ainda em mim, com a doce memória de quem te deseja em segredo. Queria-te mas não sei como, não sei onde. Preciso-te assim ausente, desaparecido de mim. Despido, nu e cru. Faz-me só amor. Até sempre.
– Faz-me só amor, peço-te. Percorre-me o corpo, adoça-mo. Quero ter-te em mim, sentir-te quente nos meus braços, sentir-te amargo. Percorre-me de ti, apossa-te de mim, do que me resta assim já morta. Toca-me com um dedo, germina-me. Fecha-me os olhos com saliva, prende-me a boca com mar, ata-me os braços de terra e enleia-te nas minhas pernas, transeuntes cansados. Cospe-me a alma, rasga-me o corpo, descobre-me os segredos e desata-me as lágrimas. Cobre-me de cor e diz-me baixinho: até sempre meu amor, até sempre. Olha-me a cantar, degola-me a sorrir. Gasta-me o corpo, mata-mo até ao fim.
– Meu amor, até sempre meu amor. Até sempre…

sexta-feira, julho 07, 2006

Teorias amorosas (1)

- Eu sempre acreditei que o amor era um objeto cortante...
- Como assim?
- Ao menor descuido perfura nosso coração.

sábado, julho 01, 2006

Is it a joke?

Cinematografia:

- This will hurt.
- Why isn't love enough?
- I fell in love with her, Alice.
- Oh, as if you had no choice? There's a moment, there's always a moment, "I can do this, I can give into this, or I can resist it", and I don't know when your moment was, but I bet there was one.

A vida na sua brutalidade:

- Sim, nos afeta porque amamos...eu fico louca de pensar que alguém está desfrutando um cheiro, um beijo, da pessoa que eu amo...a gente tem o amor como a terminação nervosa.
- Descobri que pessoas não andam; bailam.
- Eu pensei, as pessoas não andam, elas são como as borboletas...tocam levemente o chão e por pouco tempo.
- Somos a nossa melhor piada e isso na verdade é puro desespero. Rir de nós antes que alguém note as feridinhas.
- As minhas feridas eu mesma lambo.
- Verdade... sou lúcida demais para ser feliz.
- As pessoas não estão preparadas para os lúcidos.
- O caminho tem pedras.

Obrigada, Camila!

segunda-feira, junho 19, 2006

Das muitas mortes

Morremos quando tudo dói, quando o simples fato de respirar iguala-se a milhões de alfinetadas na alma, quando - apesar da vontade incontrolável de chorar - não existem mais lágrimas. Tudo está seco: o coração, os olhos, a boca.
Morremos quando o sangue congela nas veias e ainda assim a vida insiste em ficar.

quarta-feira, junho 14, 2006

Do silêncio

O azul de seus olhos esconde o mar revolto em seu peito. Eu não me engano com a transparência dessas águas, elas poderiam engolfar o mais remoto dos pensamentos.
O suposto equilíbrio repousa no fio da navalha, uma escorregadela e o diapasão produzirá sons eternamente distorcidos.
Desvio meus olhos daquela imensidão azul e repouso meu ouvido no seu peito – rochedo que ampara as investidas das ondas.
No momento, tudo o que posso fazer é ouvir o líquido dissolvendo o concreto.

quinta-feira, maio 18, 2006

Sobre violência e queijandos

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Guernica, Picasso. Museu do Prado.

Sempre pensei no Glossolalias como um espaço eminentemente literário, mas depois do post A arte engajada, acho que as pessoas tiveram uma leve impressão do meu entendimento sobre o que é literatura.
Quem já me conhece há mais tempo, sabe exatamente que uso a palavra como uma forma de expressão artística, mas também para realizar minhas catarses e refletir sobre o mundo ao meu redor.
Devido aos últimos acontecimentos, não posso simplesmente me calar. Prometo não ser muito enfadonha nem fazer análise política da atual conjuntura brasileira, mas fica difícil manter-se alheio à crise dos poderes e do Estado.
Após assistir ao último Roda Viva, 15/05/06, fiquei pensando em como somos hipócritas e coniventes com as coisas. Os modismos vêm e vão e aderimos a ele sem pensar.
Lembro-me que, na época do ataque às torres gêmeas, a palavra de ordem era tolerância. Usamos exaustivamente essa palavra e – mea culpa seja feita – eu estou nesse rol.
“Temos que ser tolerantes com os nossos irmãos mulçumanos” – dizia uma manchete de jornal; “o presidente Bush precisa aprender o significado da palavra tolerância” – clamava outro.
Não, não sou pró-Bush!! Não estou defendendo mais violência. Estou fazendo um convite à reflexão, não política, não étnica ou seja lá mais o quê, vamos nos ater ao emprego dessa palavra em expressões da nossa língua.

Na adolescência, tinha uma amiga que sempre desabafava a crise conjugal dos pais comigo. Lembro bem dela me dizendo: “minha mãe não ama mais o meu pai, ela o tolera”.
Na faculdade, um amigo próximo adorava cozinhar e sempre nos chamava para jantar em sua casa. Invariavelmente, no fim da noite, depois de muito vinho, sua esposa expunha a cru a vida do casal, gerando constrangimento em todos. Eu também perguntei-lhe muitas vezes por que não se separavam. Sua resposta era algo parecido com “temos dois filhos e é preciso tolerar essa situação”.
Nem preciso dizer que as crianças eram pequenos tiranos, desajustados, assustados, sempre chamando atenção com comportamento de riscos (brincando com facas, subindo em mesas, etc). Esses mesmos pais toleravam toda a sorte de má criação porque se sentiam culpados e não queriam censurar ‘a liberdade’ dos filhos.

Tolerar é uma palavra ruim, digo, com um sentido ruim. Tolerar alguém é aturar, suportar. Estar numa situação em que aturamos alguém é muito desconfortável. Sempre que tivermos chance de pular fora, vamos pular e aí não mais toleraremos chefes boçais, empregos medíocres, relações falidas, pessoas sem limites.

Tolerar também me lembra via de mão única; passividade; permanência. Tolerar é sempre dizer sim, inclusive quando chega a hora de dizer não.

Mulheres espancadas continuam aturando a “caipirinha do fim de semana” e toda vez que aturam dizem sim ao comportamento violento dos parceiros. Tolerar não gera a mudança.
Homens toleram dondocas perdulárias e com isso elas jamais saberão o real valor das coisas. Serão eternamente perdulárias.
Pessoas toleram ciúme doentio e o doente enciumado vai morrer assim, castrador, desconfiado.
Tolerar negros, judeus, homossexuais na escola, trabalho, vizinhança não nos torna melhores. Isso é o mesmo que dizer, camufladamente, sou preconceituoso e finjo aceitar.
Não vou nem levar em consideração que existe um ganho, sim, em tolerar situações limítrofes, mas deixo essa análise para um psicólogo.

Eu não quero mais tolerar violência, corrupção, desamor, submissão, sobras, preconceito. O que eu quero é voltar a usar mais a palavra respeito.

Cristo, sendo Deus, não tolerou os vendilhões do templo. Ele disse não à conspurcação de um lugar sagrado, expulsando a todos. Talvez se tolerasse o comércio no local sem reação, eles continuassem, mas quando ele chamou atenção para a falta de respeito para com a fé, sua atitude fez a diferença.

Nem com nossos melhores amigos, família, parceiros concordamos o tempo todo. Não é possível, afinal somos indivíduos, mas se há respeito, então, temos tudo. A gente não deixa de admirar essas pessoas porque elas torcem para um time diferente do seu, pela sua cor, credo, orientação sexual, porque são de outra classe social. O que mantém os laços de amor, de dignidade, de humanidade, de ética é o respeito.

Respeito pressupõe, pelo menos, duas pessoas numa relação. O respeito implica mudanças, gera crescimento, amplia horizontes. O respeito dialoga. E a experiência pautada pelo respeito pode trazer alguma dor, um certo incômodo, mas parece que nós estamos muito ocupados para nos incomodar.

sábado, maio 06, 2006

O diário de G.H (6)

Não pude ficar no bar. Estava excitada com a descoberta dos reflexos do espelho. Dirigi, sem direção, cortando ruas, reconhecendo avenidas, perdendo-me em becos. É que eu tenho essa mania de viajar, essa facilidade de me desligar do tempo e me descolar do espaço. Posso passar o dia inteiro debruçada numa janela observando o movimento da rua.
Lembro-me que ele espumava de ódio toda vez que me teletransportava. Podíamos estar no calor da maior discussão, mas se escutasse passos na calçada ou uma música que me tocasse, eu simplesmente não estava mais lá.
De repente, eu não estava mais lá nem aqui. Eu estava no vapor do banheiro, na palavra escrita a dedo no espelho. Era preciso voltar e descobrir não quem eu sou, mas qual delas sou eu.
Estava em casa, sentei-me diante do espelho oval adquirido num antiquário. "É um legítimo espelho da era vitoriana" - disse a vendedora toda afetada. Vitoriana era eu ali, parada, tentando reconhecer minhas verdades. E eu não queria que tais verdades fossem usadas como um pretexto para mentir. Confessar-me poderia ser uma grande vaidade e eu queria me despojar dela; queria tocar nessa coisa áspera que se oculta no breu da noite.
Essa coisa áspera era a tal AIRTEMIS? Quer dizer, SIMETRIA.
O que isso queria dizer?
Simetria seria essa minha pretensa vocação para organizar as coisas ao meu redor? Ordenar as coisas era o primeiro passo para meu processo criativo. Juntar fragmentos, liberar o caos para depois aprisioná-lo. Era como colocar os planetas em órbita. Mas a órbita de fora nada tinha de simétrica com a órbita da minha cabeça e das coisas efervescentes que agastavam meu juízo.
Foi então qu lembrei de G.H, estupefacta diante da barata.
Eu entendia seu horror e sua atração pelo inseto que sempre existira antes de toda e qualquer existência.
Suei frio só de pensar que aquela outra era imemorial. Era a matéria viva tentando rasgar minha pele morta e inexpressiva. Eu só consegueria sair vivificada se a enfrentasse e, numa atitude antropofágica, a devorasse.
Fiquei atenta aos movimentos. Era irremediável o encontro perigoso e necessário.

quarta-feira, março 22, 2006

A arte engajada

Apenas um trechinho da entrevista que a Revista Continente fez com Luiz Ruffato

Você defende que a literatura é uma missão. Pode explicar melhor em que consiste essa missão e de onde vem sua outorga?

Acho que a Arte tem que transcender a realidade, tem que ser testemunha de uma época, de uma sociedade. Eu nasci no Brasil, falo português-brasileiro, venho de uma família de proletários... Ora, não dá para renunciar às minhas origens. A minha literatura é programática. Antes de começar a escrever, em 1996, eu me perguntei se valia a pena, porque não tenho vaidades mesquinhas de escrever para aparecer em jornais e revistas, ser conhecido, essas coisas. Tanto que minha literatura é totalmente dependente das minhas experiências pessoais. A literatura brasileira, com honrosas e raras exceções, não tem uma tradição de representar a classe média baixa (não digo o marginal, pois esse está bem retratado). Então, resolvi encarar esse problema. Me dispus a dar voz e rosto e vida àquelas pessoas todas que participaram da minha vida e que se afundaram no mais profundo anonimato, aquele de que fala Manuel Bandeira, dos que sequer possuem um nome inscrito na lápide. É um compromisso político meu... Quem me outorgou essa missão? Penso que da mesma maneira que nas tribos mais distantes da nossa história, onde cada um tinha uma função, havia também o contador de histórias, que funcionava como uma memória viva das tradições do povo. Não tenho talento para nada a não ser escrever. Então, a mim foi dada a missão de contar a História do Brasil do ponto de vista de quem nunca participou da festa
.

segunda-feira, março 20, 2006

O diário de G.H. (5)

O reverso da medalha

Não sabia o que fazer. Estava em choque.
Preocupações menores acorreram ao pensamento: “ficarei com o corpo tatuado?”, “nunca mais poderei usar um decote?”.
O pranto explodiu, um medo repentino tomou-me de assalto, contudo, instantaneamente fui pensando em algo para me acalmar e comecei a cantarolar uma canção. Aos poucos já respirava normalmente.
Corri para a sala, procurei na estante o dicionário de mitos. Artêmis, Artêmis... Artêmis! Achei. A tal coisa havia grafado o nome de forma errada.

“Tida como virgem e defensora da pureza, era também protetora das parturientes e estava ligada a ritos de fecundidade; na Ática, enfatizou-se seu caráter de ‘senhora das feras’. Apesar dessa imagem protetora, Artêmis exibia facetas cruéis: matou o caçador Órion; condenou à morte a ninfa Calisto por deixar-se seduzir por Zeus; transformou Acteão em cervo para ser despedaçado por sua própria matilha e, com Apolo, exterminou os filhos de Níobe e Anfião, para vingar uma suposta afronta”.

Lembrava-me que a morte de Orion havia sido uma fatalidade, um ardil preparado por Apolo, mas isso não vinha ao caso agora. O que essa outra queria me dizer?
As costas voltaram a arder e busquei novamente o espelho.
Gritei para ela ouvir:
- Não quero que se acostume a isso. Meu corpo não é seu livro de cabeceira!
A ardência cedeu prontamente. Olhei através do espelho e minha pele estava novamente lisa, imaculada.
Vesti-me e saí de casa o mais rápido possível.
Entrei no carro, liguei o rádio e dei a partida. Distraí-me ouvindo as músicas e quando percebi já havia passado do bar. Olhei pelo retrovisor e... claro, a palavra era outra!

terça-feira, março 14, 2006

O diário de G.H (4)

As imagens

Há dias encaro esse band-aid com um misto de medo e curiosidade.Ando na casa inteira num vai-e-vem desmesurado, estou ansiosa e impaciente para as visitas. Receio que elas desconfiem do meu caráter duplo e comecem a me encarar com desconfiança.

É certo que não podia viver assim, prisioneira em meu próprio lar ou como um refém dando refúgio ao bandido. E por que eu acho que isso que está em mim é um inimigo? Como posso temer a mim mesma?

Fui até a gaveta da penteadeira e tirei um espelho desses que aumentam. Posicionei sua face em frente ao machucadinho e, de olhos fechados, puxei o band-aid de uma vez só. Abri os olhos e a feridinha tinha cicatrizado!Fiquei intragável por alguns dias, procurando no peito um vestígio do machucado que pudesse me revelar os tais olhos.

Vai ver a minha outra teve medo de mim e cimentou internamente as paredes para não ser mais incomodada. Sinto dizer que é uma bobagem, pois agora estou decidida a saber mais dessa criatura e não vou descansar enquanto não encontrá-la novamente.

Decidida a esquecer a obsessão, nem que fosse por um curto período, resolvi sair de casa e ver pessoas. Foi então que ao prender os cabelos num rabo de cavalo a fim de me maquiar, aproximei-me bem do espelho. Senti que por trás dos meus olhos um outro par de olhos me observava, atento. Puxei a cadeira para mais perto, mas eles já não estavam lá. De repente, uma ardência nas costas, virei-me abruptamente.

Estava lá grafado na pele: A I R T E M I S.

quinta-feira, março 02, 2006

O Diário de G.H. (3)

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Red dress, Michael Austin

A hora do susto

Surpreendentes eram seus olhos quando raspei com a minha unha a primeira camada de pele. Era uma feridinha besta, destas que a gente cutuca para se ver livre, mas eis que sob meu peito saltaram aqueles olhos persecutórios, loucos de vontade de saber quem quebrava a casca do ovo antes da hora.
Havia uma hora prevista para que ela nascesse? Saberia ela que estava escondida em mim ou seria sempre um embrião em gestação? Seu azar foi a tal feridinha causando um certo incômodo ao toque da minha mão e pontas de dedo.
Levei um susto, sem saber se continuava puxando a pele ou dava um jeito de devolver a casca ao lugar de onde tirei. Ali imóvel sob aquela cadeira, encarando os tais olhos, fiquei com essa indagação por muito tempo, até que sua mão abrupta empurrou-me por dentro, impelindo ao salto. Corri para o armário do banheiro: o band-aid dar-me-ia a trégua necessária para saber o que fazer com a tal descoberta.

segunda-feira, fevereiro 20, 2006

Um mini impressionista

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As banhistas, Paul Cézanne


Era o nosso último verão juntas. Assim que ele terminasse, iríamos cada uma em busca das próprias aspirações, enfrentaríamos, sozinhas, os nossos medos, sem ter umas as outras para apoiar. Afinal, chega uma hora na vida em que as pernas precisam dar conta do percurso que escolhemos trilhar.
Durante todo o tempo em que ficamos juntas, jamais ousamos falar na despedida, na hora do adeus. Nada havia sido combinado, mas agíamos como se veladamente soubéssemos da existência de um código secreto: se não falássemos, não doeria.
Até que Giulia surgiu com a idéia de um quadro. Havia conhecido no hotel, um jovem pintor francês – Paul – de muito talento. Ela o convenceu a nos retratar. Não imagino como, uma vez que ele falava muito pouco e estava sempre muito isolado.
Fomos todas as cinco ao encontro de Paul numa colina. Chegamos lá e ele não estava. Esperamos minutos, horas e nem sinal do pintor. Começamos a ficar um pouco irritadas com a demora; depois completamente desoladas, resolvemos esquecer a questão.
Apesar de desprevenidas, fomos nadar no lago. Já não nos importávamos se alguém aparecesse. Se isso acontecesse, seria uma lembrança alegre e despojada daquele nosso verão.
Muitos anos depois, quase vinte, nos reencontramos em Paris. Aproveitamos a tarde para conhecer a galeria de um amigo meu.
Passeando os olhos pelos muitos quadros, ouvimos o gritinho histérico de Giulia. Paramos apatetadas diante daquelas mulheres nuas numa colina. Aquela colina!
Lia-se embaixo da tela: As banhistas, Paul Cézanne.

terça-feira, fevereiro 14, 2006

Despedaçar

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Vera Cruz, Artur Marques

Sonhos são sonhos.
De que matéria são feitos? Às vezes penso que são de concreto, resistem às chuvas, à seca, ao calor abrasador e aos invernos tenebrosos mantendo-se intactos, firmes. Noutras vezes, penso serem feitos de fumaça, intocáveis, intangíveis. Basta serem alcançados para que se confundam com o éter.
Ontem à noite, descobri que sonhos são asas de borboletas: delicados, finos e de um colorido estonteante. É assim que quero mantê-los em mim, como asas de borboletas que farfalham daqui, farfalham dali e daqui a pouco rumam para imensidão de um não-sei-onde, vão encantar outros olhos, outras vidas.