segunda-feira, agosto 25, 2008

J. L. Borges (24/08/1899 – 14/06/1986)

Jorge Luis Borges
Biblioteca de Babel

"By this art you may contemplatethe variation of the 23 letters..."
The Anatomy of Melancholy, part 2, sect. II, mem. IV


O universo (a que outros chamam a Biblioteca) compõe-se de um número indefinido, e talvez infinito, de galerias hexagonais, com vastos poços de ventilação no meio, cercados por parapeitos baixíssimos. De qualquer hexágono vêem-se os pisos inferiores e superiores: intermina­velmente. A distribuição das galerias é invariável. Vinte estantes, a cinco longas estantes por lado, cobrem todos os lados menos dois; a sua altu­ra, que é a dos pisos, mal excede a de uni bibliotecário normal. Uma das faces livres dá para um estreito saguão, que vai desembocar noutra galeria, idêntica à primeira e a todas. À esquerda e à direita do saguão há dois gabinetes minúsculos. Um permite dormir de pé; o outro, satisfazer s necessidades fecais. Por aí passa a escada em espiral, que se afunda e e eleva a perder de vista. No saguão há um espelho, que fielmente du­plica as aparências. Os homens costumam inferir desse espelho que a Bi­blioteca não é infinita (se o fosse realmente, para que serviria esta dupli­cação ilusória?); eu prefiro sonhar que as superfícies polidas representam e prometem o infinito... A luz provém de umas frutas esféricas que têm o nome de lâmpadas. Há duas em cada hexágono: transversais. A luz que emitem é insuficiente, incessante.
Tal como todos os homens da Biblioteca, viajei na minha juventude; peregrinei em busca de um livro, se calhar do catálogo dos catálogos; agora que os meus olhos quase não conseguem decifrar o que escrevo, preparo-me para morrer a poucas léguas do hexágono em que nasci. Morto, não faltarão mãos piedosas que me atirem pela balaustrada; a minha sepultura será o ar insondável; o meu corpo precipitar-se-á lon­gamente até se corromper e dissolver no vento gerado pela queda, que é infinita. Eu afirmo que a Biblioteca é interminável. Os idealistas ar­gumentam que as salas hexagonais são uma forma necessária do espaço absoluto, ou pelo menos da nossa intuição do espaço. Consideram que é inconcebível uma sala triangular ou pentagonal. (Os místicos pretendem que o êxtase lhes revela uma câmara circular com um grande livro circu­lar de lombada contínua, que dá toda a volta das paredes; mas o seu testemunho é suspeito; as suas palavras, obscuras. Esse livro cíclico e Deus.) Basta-me por agora repetir a clássica sentença: "A Biblioteca é uma esfera cujo centro cabal é qualquer hexágono, e cuja circunferên­cia é inacessível."
A cada uma das paredes de cada hexágono correspondem cinco pra­teleiras; cada prateleira contém trinta e dois livros de formato uniforme; cada livro é de quatrocentas e dez páginas; cada página, de quarenta li­nhas; cada linha, de umas oitenta letras de cor negra. Também há letras na lombada de cada livro; estas letras não indicam nem representam o que dirão as páginas. Sei que esta incongruência já chegou a parecer misteriosa. Antes de resumir a solução (cuja descoberta, apesar das suas trá­gicas projecções, é talvez o facto capital da história) vou rememorar alguns axiomas.
O primeiro: A Biblioteca existe ab aeterno. Desta verdade cujo coro­lário imediato é a eternidade futura do mundo, nenhuma mente razoável pode duvidar. O homem, o imperfeito bibliotecário, pode ser obra do acaso ou dos demiurgos malévolos; o universo, com a sua elegante dota­ção de estantes, de tomos enigmáticos, de infatigáveis escadas para o via­jante e de latrinas para o bibliotecário sentado, só pode ser obra de um deus. Para perceber a distância que existe entre o divino e o humano, basta comparar estes rudes símbolos trémulos que a minha falível mão garatuja na capa de um livro, com as letras orgânicas do interior: pon­tuais, delicadas, negríssimas, inimitavelmente simétricas.
O segundo: "O número de símbolos ortográficos é vinte e cinco". Foi esta observação que permitiu, há trezentos anos, formular uma teo­ria geral da Biblioteca e resolver satisfatoriamente o problema que ne­nhuma conjectura tinha ainda decifrado: a natureza informe e caótica de quase todos os livros. Um, que o meu pai viu num hexágono do circuito quinze noventa e quatro, constava apenas das letras M C V perversa­mente repetidas da primeira linha até à última. Outro (muito consultado nesta zona) é um simples labirinto de letras, mas a penúltima página diz "Oh tempo as tuas pirâmides." Já se sabe: por uma linha razoável ou uma notícia correcta há léguas de insensatas cacofonias, de embrulhadas verbais e de incoerências. (Sei de uma bárbara região cujos bibliotecários repudiam o vão e supersticioso costume de procurar sentido nos livros e o equiparam ao de procurá-lo nos sonhos ou nas linhas caóticas da mão... Admitem que os inventores da escrita imitaram os vinte e cinco
símbolos naturais, mas afirmam que essa aplicação é casual e que os li­vros em si nada significam. Esta opinião, como veremos, não é totalmen­te falaciosa.)
Durante muito tempo julgou-se que esses livros impenetráveis cor­respondiam a línguas pretéritas ou remotas. É verdade que os homens mais antigos, os primeiros bibliotecários, usavam uma linguagem bastan­te diferente da que falamos agora; é verdade que poucas milhas à direita a língua é dialectal e que noventa pisos mais acima é incompreensível. Tudo isto, repito, é verdade, mas quatrocentas e dez páginas de inalteráveis M C V não podem corresponder a nenhum idioma, por mais dialec­tal ou rudimentar que seja. Houve quem insinuasse que cada letra podia ter influência sobre a seguinte e que o valor de M C V na terceira linha da página 71 não era o que pode ter a mesma série noutra posição de ou­tra página, mas esta vaga tese não prosperou. Outros pensaram em criptografias; universalmente, aceitou-se esta conjectura, embora não no sentido em que a formularam os seus inventores.
Há quinhentos anos, o chefe de um hexágono superior(
1) deu com um livro tão confuso como os outros, mas que tinha quase duas folhas de li­nhas homogéneas. Mostrou o seu achado a um decifrador ambulante, que lhe disse que estavam redigidas em português; outros disseram-lhe que era iídiche. Em menos de um século conseguiu-se estabelecer o idio­ma: um dialecto samoiedo-lituano do guarani, com inflexões de árabe clássico. Também se decifrou o conteúdo: noções de análise combinatória, ilustradas por exemplos de variações com repetição ilimitada. Estes exemplos permitiram que um bibliotecário de génio descobrisse a lei fundamental da Biblioteca. Este pensador observou que todos os livros, por muito diferentes que sejam, constam de elementos iguais: o espaço, o ponto, a vírgula, as vinte e duas letras do alfabeto. Também acrescen­tou um facto que todos os viajantes têm confirmado: "Não há, na vasta Biblioteca, dois livros idênticos." Destas premissas incontroversas deduziu que a Biblioteca é total e que as suas estantes registam todas as possíveis combinações dos vinte e tal símbolos ortográficos (número, embora vas­tíssimo, não infinito) ou seja, tudo o que nos é dado exprimir: em todos os idiomas. Tudo: a história minuciosa do futuro, as autobiografias dos arcanjos, o catálogo fiel da Biblioteca, milhares e milhares de catálogos falsos, a demonstração da falácia desses catálogos, a demonstração da falácia do catálogo verdadeiro, o evangelho gnóstico de Basilides, o comentário desse evangelho, o comentário do comentário desse evangelho, o relato verídico da tua morte, a versão de cada livro em todas as lín­guas, as interpolações de cada livro em todos os livros, o tratado que Beda pode ter escrito (e não escreveu) sobre a mitologia dos Saxões, os livros perdidos de Tácito.
Quando se proclamou que a Biblioteca abrangia todos os livros, a primeira impressão foi de extravagante felicidade. Todos os homens se sentiram senhores de um tesouro intacto e secreto. Não havia problema pessoal ou mundial cuja eloquente solução não existisse: nalgum hexágo­no. O universo estava justificado, o universo bruscamente usurpou as di­mensões ilimitadas da esperança. Naquele tempo falou-se muito das Reabilitações: livros de apologia e de profecia, que para sempre reabilitavam os actos de todos os homens do universo e guardavam arcanos pro­digiosos para o seu porvir. Milhares de cobiçosos abandonaram o doce hexágono natal e lançaram-se pelas escadas acima, impelidos pelo vão propósito de encontrar a sua Reabilitação. Estes peregrinos brigavam nos corredores estreitos, proferiam obscuras maldições, estrangulavam-se nas escadas divinas, atiravam os livros enganadores para o fundo dos túneis, morriam defenestrados pelos homens de regiões remotas. Outros enlou­queceram... As Reabilitações existem (eu vi duas que se referem a pes­soas do futuro, a pessoas porventura não imaginárias), mas os pesquisa­dores não se lembravam que a possibilidade de um homem achar a sua, ou alguma pérfida variação da sua, se pode computar à volta do zero.
Também se esperou então o esclarecimento dos mistérios básicos da humanidade: a origem da Biblioteca e do tempo. É verosímil que estes graves mistérios possam explicar-se por palavras: se não bastar a lingua­gem dos filósofos, a multiforme Biblioteca deve ter produzido o idioma inaudito que se requer, bem como os vocabulários e gramáticas desse idioma. Há já quatro séculos que os homens não dão descanso aos hexá­gonos... Há pesquisadores oficiais, inquiridores. Vi-os no desempenho da sua função: chegam sempre esgotados; falam de um escadote sem de­graus que quase os matou; falam de galerias e de escadas com o bibliote­cário; algumas vezes, pegam no livro mais próximo e folheiam-no, em busca de palavras infames. Visivelmente, ninguém espera descobrir nada.
À desaforada esperança, como é natural, sucedeu-se uma depressão excessiva. A certeza de que alguma prateleira nalgum hexágono continha livros preciosos e de que esses livros preciosos eram inacessíveis, pareceu quase intolerável. Uma seita blasfema sugeriu que cessassem as buscas e que todos os homens misturassem letras e símbolos, até construírem, por meio de um improvável dom do acaso, esses livros canónicos. As au­toridades viram-se obrigadas a promulgar ordens severas. A seita desapa­receu, mas na minha infância vi homens velhos que longamente se ocul­tavam nas latrinas, com uns discos de metal num covilhete proibido, e fracamente imitavam a divina desordem.
Outros, pelo contrário, acreditaram que a prioridade era eliminar as obras inúteis. Invadiam os hexágonos, exibiam credenciais nem sempre falsas, folheavam com tédio um volume e condenavam estantes inteiras: ao seu furor higiénico e ascético deve-se a insensata perda de milhões de livros. O seu nome é execrado, mas quem deplora os "tesouros" que o seu frenesi destruiu descura dois factos notórios. Um: a Biblioteca é de tal forma enorme que toda a redução de origem humana se torna infini­tésima. Outro: cada exemplar é único, insubstituível, mas (como a Bi­blioteca é total) há sempre várias centenas de milhares de fac-símiles im­perfeitos: de obras que só diferem por uma letra ou por uma vírgula. Contra a opinião geral, atrevo-me a supor que as consequências das de­predações cometidas pelos Purificadores foram exageradas pelo terror que esses fanáticos provocaram. Impelia-os o delírio de conquistar os livros do Hexágono Carmesim: livros de formato menor que os naturais; omnipotentes, ilustrados e mágicos.
Também sabemos doutra superstição daquele tempo: a do Homem do Livro. Nalguma estante de algum hexágono (pensaram os homens) deve existir um livro que seja a chave e o resumo perfeito de todos os ou­tros: deve haver algum bibliotecário que o tenha estudado e seja análogo a um deus. Na linguagem desta zona hão-de persistir ainda vestígios do culto desse funcionário remoto. Fizeram-se muitas peregrinações à pro­cura d'Ele. Durante um século percorreram em vão os mais diversos ru­mos. Como localizar o venerado hexágono secreto que o alojava? Al­guém propôs um método regressivo: Para localizar o livro A, consultar previamente um livro B que indique o sítio de A; para localizar o livro B, consultar previamente um livro C, e assim por diante até ao infinito... Foi em aventuras destas que desperdicei e consumi os meus anos de vida. Não acho inverosímil que nalguma estante do universo haja um livro total(
2); rogo aos deuses ignorados que um homem — um só que seja, há milhares de anos! — o tenha examinado e lido. Se não forem para mim a honra e a sabedoria e a felicidade, que sejam para outros. Que o céu exista, mesmo que o meu lugar seja o inferno. Que eu seja ultrajado e aniquilado, mas que num instante, num ser, a Tua enorme Biblioteca se justifique.
Afirmam os ímpios que o disparate é normal na Biblioteca e que o razoável (e até a humilde e pura coerência) é uma quase milagrosa excep­ção. Falam (eu sei-o) da "Biblioteca febril, cujos fortuitos volumes cor­rem o incessante risco de se transformarem noutros e que tudo afirmam, negam e confundem como uma divindade que delira". Estas palavras que não só denunciam a desordem, mas também a exemplificam, provam de maneira notória o seu péssimo gosto e a sua desesperada ignorância. Com efeito, a Biblioteca inclui todas as estruturas verbais, todas as varia­ções que permitem os vinte e cinco sinais ortográficos, mas não um úni­co disparate absoluto. Não vale a pena observar que o melhor volume dos muitos hexágonos que administro se intitula Trono penteado, e ou­tro A cãibra de gesso e outro Axaxaxas mlö. Essas propostas, à primeira vista incoerentes, sem dúvida são susceptíveis de uma justificação cripto­gráfica ou alegórica; essa justificação é verbal e, ex hypothesi, já figura na Biblioteca. Não posso combinar uns caracteres

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que a divina Biblioteca não haja previsto e que nalguma das suas línguas secretas não contenham um terrível sentido. Ninguém pode articular uma sílaba que não esteja plena de ternuras e de temores; que não seja nalguma dessas linguagens o nome poderoso de um deus. Falar é incorrer em tautologias. Esta epístola inútil e palavrosa já existe num dos trin­ta volumes das cinco prateleiras de um dos incontáveis hexágonos — e também a sua refutação. (Um número n de linguagens possíveis usa o mesmo vocabulário; numas, o símbolo biblioteca admite a correcta defi­nição ubíquo e duradouro sistema de galerias hexagonais, mas biblioteca é pão ou pirâmide ou outra coisa qualquer, e as sete palavras que a defi­nem têm outro valor. Tu que me lês, tens a certeza de que compreendes a minha linguagem?)
A escrita metódica distrai-me da presente condição dos homens. A certeza de que está tudo escrito anula-nos ou envaidece-nos. Conheço distritos onde os jovens se ajoelham diante dos livros e lhes beijam bar­baramente as páginas, mas não sabem decifrar uma única letra. As epi­demias, as discórdias heréticas, as peregrinações, que inevitavelmente degeneram em banditismo, têm dizimado a população. Creio já ter men­cionado os suicídios, de ano para ano cada vez mais frequentes. Talvez me enganem a velhice e o temor, mas tenho a suspeita de que a espécie humana — a única — está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca per­durará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta.
Acabo de escrever infinita. Não intercalei este adjectivo por um hábi­to retórico; digo que não é ilógico pensar que o mundo é infinito. Quem o julga limitado, postula que em lugares longínquos os corredores e es­cadas e hexágonos podem inconcebivelmente cessar — o que é absurdo. Quem o imagina sem limites, esquece que os tem o número possível de livros. Atrevo-me a insinuar esta solução do antigo problema: A biblioteca é ilimitada e periódica. Se um eterno viajante a atravessasse em qual­quer direcção, verificaria ao cabo dos séculos que os mesmos volumes se repetem na mesma desordem (que, repetida, seria uma ordem: a Ordem). A minha solidão alegra-se com esta elegante esperança(3).

Mar da Prata, 1941.

(1) - Dantes, para cada três hexágonos havia um homem. O suicídio e as doenças pulmonares
destruíram esta proporção. Memória de indescritível melancolia: já cheguei a viajar muitas noites por corredores e escadas polidas sem encontrar um único bibliotecário.
(2) - Repito: basta que um livro seja possível para existir. Só está excluído o impossível. Por exemplo: nenhum livro é também uma escada, embora sem dúvida haja livros que discutem e negam e demonstram essa possibilidade, e outros cuja estrutura corresponde à de uma escada.
(3) - Letizia Álvarez de Toledo observou que esta vasta Biblioteca é inútil: rigorosamente, basta­ria um único volume, de formato comum, impresso em corpo nove ou em corpo dez, que cons­tasse de um número infinito de folhas infinitamente finas. (Cavalieri nos princípios do sécu­lo XVII disse que todo o corpo sólido é a sobreposição de um número infinito de planos.) O manejo desse vade-mécum sedoso não seria cómodo: cada folha aparente desdobrar-se-ia noutras análogas; a inconcebível folha central não teria reverso.

quarta-feira, agosto 20, 2008

III

“Tenho pra mim que as tempestades e ventanias não são mais do que meras assombrações. Enquanto caminhamos certos de qualquer assertiva ou proposição que nos tranqüilize ou nos conduza rumo a um objetivo, elas surgem como parte de uma fantasmagoria evolutiva: será mesmo que apenas os fortes sobrevivem? Mas diante das tormentas, Darwin afoga-se em outras águas. A força de que falo nada tem a ver com músculos e físico. Os fortes são os que não afundam em seus próprios rios turvos; aqueles que não ficam presos no atoleiro das emoções ou sucumbem ao terreno movediço do desespero. E há dias em que tudo o que se quer é deixar-se levar pela correnteza, não lutar, não fazer um único movimento. Também isso é sinal de força? Ou apenas resignação? Qual o significado de deixar-se engolir pela baleia e permanecer em seu interior quente?
Em alguns dias, desejo a simplicidade dos ignorantes, invejo a risiliência dos humildes que desconhecem os livros, as teorias, os filósofos, os paradigmas, os paradoxos... Quanto de alento todo esse conhecimento traz? Entender a nossa condição, ainda que de modo precário, é antes tudo possuir uma inquietação e certa angústia por descobrirmos que até mesmo o livre arbítrio possui limitações que independem do nosso querer”.

segunda-feira, agosto 18, 2008

27ª Feira do Livro e Bienal Internacional de Poesia

Brasília prepara-se para mais uma edição da Feira do Livro. Eu fico esperando o ano inteiro por esta data. Simplesmente adoro parar em cada stand, folhear os livros, cheirar suas páginas, participar dos bate-papos e oficinas. A única coisa que realmente me desagrada na Feira é o espaço que lhe é reservado: um shopping center.
Shopping é um lugar frio, as pessoas não entram no clima da viagem literária, de fazer parte de um evento lúdico-cultural. O consumismo embaça o brilho das letras, das capas.
Gostaria de ver a Feira acontecendo novamente no Centro de Convenções. Agora nem há mais a desculpa da reforma, ele está lá, prontinho para ser usado.
Alguém imagina a Feira do Livro de Porto Alegre no Praia de Belas ou qualquer outro shopping da cidade? Seria uma heresia! A feira pertence à Praça da Alfândega com seus jacarandás floridos.
Paralelamente à feira, Brasília sediará a I Bienal Internacional de Poesia.
Confiram a programação aqui. Tem muita coisa boa.

sexta-feira, agosto 15, 2008

Radiola (2)

A versão dessa música na voz da Adriana Calcanhotto é coisa boa como algodão doce.


Assim sem você, Claudinho e Bochecha

quarta-feira, agosto 13, 2008

Quote (1)


Livros
A literatura, como toda a arte, é uma confissão de que a vida não basta.

(Fernando Pessoa)

segunda-feira, agosto 04, 2008

Há trinta anos morria Osman Lins, um artesão das palavras.
Seus livros permitem ao leitor uma jornada densa e envolvente pelas páginas de uma literatura arrebatadora e única, porque para Osman escrever era mais do que criação, escrever era a única maneira de dar sentido à vida.

Em agosto, a revista Continente nos presenteou com um vídeo lindo, delicado - Quarteto - baseado na troca de correspondências entre o escritor e suas três filhas.
Não deixem de assistir!
P.S.: Tentei colocar o vídeo aqui, mas não consegui. Acho que é pesado demais para o blogue.

O que era bom ficou melhor

A revista Continente está com novo site.
O Projeto ficou bonito e traz muitas novidades.
Quando puderem, não deixem de conferir.

terça-feira, julho 29, 2008

As matriarcas (10)

A cidade inteira quedou-se paralisada, muda, ao se deparar com tia Margarida “seminua”, valsando ao som das gotas espessas de chuva que estouravam no chão do quintal.
Somente as crianças – que não compreendiam bem o que de fato acontecia – romperam o silêncio daqueles rostos estáticos, quando resolveram se juntar ao bailado de tia Margarida. Aproveitaram seu desvario como desculpa para tomar banho de chuva, fazer algazarra e brincar de ciranda em torno de uma tia Margarida em êxtase.
Ninguém as impediu. Creio mesmo que nem notaram a presença delas, tamanha estupefação. Pareciam hipnotizados, em transe coletivo, num misto de horror e incredulidade diante da cena. Nenhum suspiro, nenhum “oh!” nem menear de cabeças. O único gesto (mecânico) que notei foi o de Pe. Miguel se benzendo com o sinal da cruz como se testemunhasse uma possessão, mas minha memória me dizia que a interpretação da criança que fui era outra. Naquele dia achei que Pe. Miguel abençoava tia Margarida, livrando-a de toda mácula, pecado ou doença, tal como Jesus fizera com Maria Madalena. Pensei que ali, naquele momento, ao ver tia Margarida rodopiar e sorrir, presenciara um milagre.
Eu mal sabia que era o começo do fim.
Tia Margarida deu um berro e desmaiou. Corri em sua direção ao mesmo tempo em que procurei mamãe com os olhos, mas ela amparava nos braços uma vovó Totonha desfalecida.

quinta-feira, junho 26, 2008

Da Amizade

(Para Camila)


Flora: Melhor da gripe?
Aurora: Melhorando, querida. E você, tá boa?
Flora sorrindo: Tô sim. Peguicinha e estranhas sensações sobre o mundo.
Aurora: Preguicinha é coisa boa, já estranhas sensações sobre o mundo... não sei, não.
Flora: Nem eu sei.
Aurora: Who knows?
Flora: Ninguém, Aurora... mas a vida tá na cara, sabe? Tudo assim muito explícito. Eu tenho enxergado demais e pra quem tem muitos sonhos isso é um horror.
Aurora: Enxergar demais não é muito legal: mata a fantasia e o sonho - ambos essenciais pra continuarmos acreditando em algo. Não é um conselho ou nada do gênero, é apenas uma observação de quem compartilha contigo toda essa limpidez de retina. Eu sou muito melhor hoje, mas em alguns aspectos sou bem pior, porque fiquei cética em relação a alguns assuntos.
Flora: Sim, é completamente isso, Aurora.
Aurora: O mesmo velho papo: enxergar demais é como amar demais, ser inteligente, ser gente demais. Demais, nessa acepção, é algo que o mundo desconhece.
Flora: Sim. E o "demais" é sempre muito, demasiado, é passar do limite necessário. A gente não precisava disso.
Aurora: That's the point! A gente não precisa, Flora! Ontem, uma amiga do trabalho veio me falar de uma relação que teve - a última - e de como o cara foi um sacana de merda, de como ele foi um puto, sem necessidade porque ela era uma pessoa que deixava o terreno aberto para ele cair fora sem mentiras, sem cascata. Palavras dela: "não precisava ser assim".
Flora: Nunca "precisava ser assim".
Aurora: Eu suspirei fundo, ri e disse apenas: não precisa, mas vai acontecer mais um montão de vezes, querida, porque você é mulher demais para esses homens de menos que estão por aí. Gente que quer viver o show de Truman e nós queremos viver amor à flor da pele.
Sendo bem pragmática, Flora. Sem elaborações românticas ou emotivas. Além da perpetuação da espécie, eu não vejo lógica na relação homem/mulher. Nós somos seres muito distintos. Nós sentimos diferente.
Flora rindo: Ontem numa conversa mega franca com uma amiga eu disse o seguinte: não tenho mesmo pressa em "encontrar" o amor da vida. Nem pressa nem necessidade disso. Mas pode ser que aconteça, e se acontecer – amém. E vou seguindo. Pode ser até que eu ainda me engane algumas vezes. Percebe, Aurora?
Aurora: Sim.
Flora: "Me engane". AURORA, A GENTE SE ENGANA ÀS VEZES PORQUE QUER.
Aurora: A gente se engana porque tem um lusco-fusco de esperança, porque quer... acreditar! Hoje está muito claro pra mim, nega. Eu vou ser feliz apesar de.
Flora: Lusco-fusco, uma tia sessentona diz isso e eu gargalho sempre
Aurora: Eu sou quase sessentona, Flora! De alma.
Flora: Eu Também. Tenho 123 anos.
Aurora: Eu já entendi que a felicidade não é algo extrínseco a mim. Eu não posso ser feliz por causa de fulano, de um carro, de uma casa... pessoas morrem, carros batem, casas caem e a gente continua.
Flora: Escreva isso num livro, AURORA!
Aurora: Vou escrever, nega; mas eu quero mesmo é (ins)escrever na vida, em neón vermelho!
Flora: ADORO. Lúcida Aurora.
Aurora: Aqui jaz alguém que continou, SEMPRE.
Flora: Ohhhhhhhhh. Que linda.
Aurora: Eu tenho observado: a mãe da Isabela, a daquele garoto que foi arrastado pela rua. Não deve existir dor pior que essa. Nenhum amor romântico é capaz. Elas perderam um pedaço delas literalmente, mas continuaram, nega, porque é assim.
Flora: Siiiiim. Ontem vi 3 coisas assim boas de pensar. Vi O clube do livro, de Jane Austen; Os Maias e Lavoura Arcaica. E terror é isso, sabe? É ver a vida projetada em filme, em noticiário de tv, em foto no jornal, vidarealnanossacara!! E depois de tudo ainda tem mais, porque não dá pra dar um tiro na cabeça como fez a tia da minha mãe e dizer "acabou".
Aurora: Oooooooh! Caralho. Não sabia.
Flora: Né isso, Aurora? "Era a morte, eu escolhi a vida", diz uma personagem daquele filme As horas. A morte permeia sempre, seja figurativa ou não. A escolha é nossa.
Aurora: É isso aí, amada. Sou feliz por poder presenciar teu eterno crescimento. Como escritora, como mulher e como pessoa que você é. Se para isso for preciso perder um pouco da inocência, acho que vale a pena. A gente é indivíduo e como tal, completo. É claro que o papo de ninguém ser uma ilha é superverdade, mas o pulo do gato é exatamente isso: viver com, não viver em.
Flora: Urrul!!! Viver com o que se tem. Ponto final. E isso não é conformismo, é maturidade.
Aurora: Eu era a vida e já quis a morte, diz Aurora. Direto de sua alma para a alma de Flora.
Flora: "já quis" - salve as conjugações no passado.
Aurora: And I wanted it so badly! Não há pior lugar para se estar do que na morte. Sim, porque a morte também é um lugar.
Flora: Se É lugar, Aurora! Concordo MUITO.
Flora pega o livro: Pra gente o meu autor: R. Nassar.

"o tempo, o tempo, esse algoz às vezes suave, às vezes mais terrível, demônio absoluto conferindo qualidade a todas as coisas, é ele ainda hoje e sempre quem decide por isso a quem me curvo cheio de medo erguido em suspense me perguntando qual o momento, o momento preciso da transposição? que instante, que instante terrível é esse que marca o salto? que massa de vento, que fundo de espaço concorrem para levar ao limite? o limite em que as coisas já desprovidas de vibração deixaram de ser simplesmente vida corrente do dia-a-dia para ser vida nos subterrâneos da memória...”

Aurora: lindolindolindo. Verdadeverdadeverdade. Sempre que falo com você me emociono. Tô aqui secando a lagriminha no canto do olho, mas é um choro bom, nega. É um choro ancestral, um choro de identificação, de quem encontra o outro depois de mil anos no deserto e diz: “Eu sabia! Eu sabia que tinha mais gente como eu. Não estou só”.
Flora: O "eu sabia" é pra essa merdinha de esperança que a gente guarda no peito. A gente vive pra isso, Aurora, para os encontros grandiosos que salva essa merdinha que a gente chama "esperança".
Aurora: E é por isso que pessoas como nós não têm pares por perto, Flora. Eu também já entendi isso. Somos poucos, pouquíssimos em nossa espécie e seria muita sacanagem vivermos num resort!
Flora ri: Seria o PARAÍSO vivermos num resort.
Aurora: Não é a gente que precisa desse bando de zumbi que só vaga pelo mundo; são eles que precisam de nós! Somos o "eu sabia!" deles, "essa merdinha de esperança que eles (sic) guardam no peito."
Flora: sim, a gente dá vida, afinal. Fico me achando quase Madre Tereza. Tipo "Oh oh oh que missão".
Aurora: Pois é. Mas no meio dessa missão sagrada, eu quero um pouquinho de sexo!
Flora: Aurora, os caras depois de mim casam. Repito: CASAM. Têm filhos, constroem, ficam lindos e felizes.
Aurora explode numa gargalhada: Ca-ce-te. Ca-ce-te.
Flora continua: E eu olho e penso: éééééé Flora, vá se fudê!
Aurora: Esse discurso é meu!
Flora: É nosso, então. Em breve, não me espantarei se Carlos me escrever dizendo: "casei".
Aurora: Nega, eu posso dar testemunho em qualquer templo.
Flora rindo muito: Ai que heresia.
Aurora: Heresia é o cacete! É uma verdade linda, tão verdadeira que dói! Eu sou a escada, o remédio, a terapia. Aí eles se curam e quando se curam, eles batem a porta e no caminho acham a mulher perfeita e têm filhos perfeitos, casas perfeitas igualzinho ao comercial de margarina. E eu digo: Ponto pra Aurora. Se fodeu novamente.
Flora: S-I-M. Nadam e a gente fica.
Aurora: Não tem um cartão de agradecimento, flores, nada. Nem pagam a porra da conta!
Flora: Pô, deveriam pagar mesmo. Ontem falei pra minha amiga que conselho pra burro, por exemplo, eu vou cobrar.
Aurora: E caro! Porque jogar pérola aos porcos é foda.
Flora: Ah, eu hein? Gasto meu latim e nada. Vácuo.
Aurora: Hello? Is there anybody here?
Flora: As pessoas se repetem, sabe? Gostam do problema, mas não das soluções. Credo!
Aurora: Pra quê solução? Quando a solução chega é hora de partir. Enquanto tão doentes, recebem agrados, mimos, fazem beicinho.
Flora: Ui que sério: "quando a solução chega é hora de partir"
Aurora: "Arrumar outra otária pra ter pena de mim".
Flora: Ó nós aí, geeeeente!
Aurora: Mas não é? Gente, eu vou ter um orgasmo! Eu sou phoda com PH, honey.
Flora: PH DYHSOIVFTCMDE... o alfabeto todo.
Aurora: isso isso.
Flora: Caraça, mané. Vamos montar uma barraquinha no centro da cidade e cobrar para dizer essas coisas.
Aurora: Vamos! Eu topo. Seguinte, se depois da consulta, o/a mané voltar, tem direito à porrada.
Flora: Siiiim, adoro a idéia de bater em alguém porque é idiota.
Aurora: Bom, o título de madre tereza... acabamos de perder, dear.
Flora: Sim, depois disso já era. Tem problema, não.
Aurora: Tu nem queria mesmo, né?

sábado, junho 21, 2008

Acabei de chegar do cinema.
Há muito tempo não entro numa sala de cinema para ver um filme de conteúdo “adulto”. A lista atualizada consta filmes dos estúdios Disney, Pixar e demais da mesma seara. Isso não significa, é claro, um martírio ou tortura, porque eu sou fã de animação, mas quem tem crianças por perto, sabe do que estou falando.
Minha intenção era ver a produção francesa La vérité ou presque (ou A quase verdade), mas cedi ao pedido de uma amiga de trabalho e fomos assistir Sex and the City.
Apesar de previsível, consegui me divertir porque aprendi encarar as crônicas de Carry Bradshaw como mera ficção.
Eu costumava ver o seriado até que enchi, cansei de ser iludida. Quando Sex and the city surgiu como seriado, tinha a pretensão de tratar do universo feminino e suas conturbadas relações de uma maneira bastante realista, uma vez que as histórias giravam em torno de mulheres que há muito deixaram de ser jovenzinhas sonhadoras e românticas. Eram mulheres de trinta, quarenta, cheia de histórias, decepções, alegrias, perdas, futilidades, papo-cabeça, ou seja, gente como a gente.
A protagonista/narradora é Carry Bradshaw, jornalista com uma coluna cativa que tratava das relações amorosas, sob a ótica feminina, na cidade Nova York. Carry é solteira, independente, dona de um discurso moderno, mas em busca de um grande amor.
Charlotte é a típica heroína dos romances do século XIX: bonita, delicada, feminina que sonha com a família perfeita. Aquela dos comerciais de margarina.
Miranda é a personificação dos ideais feministas, em outras palavras, ela é um homem de saias: é uma vencedora da batalha dos sexos no competitivo universo profissional: inteligente, racional, metódica, bem-sucedida. Um bom exemplo de que para ser bom profissional é preciso esquecer que a vida também é feita de emoção.
Por fim, Samantha. Make love not war é literalmente o seu lema.
Com o tempo descobri que Carry é uma farsa. Das quatro mulheres, ela é a única personagem absolutamente incoerente. No desespero de encontrar o “homem da sua vida” (que lá pelas tantas aparece), ela não percebe que perpetua os padrões da “mulherzinha”. Entre Aidan e Mr. Big, ela não tem dúvidas: Mr. Big, o estereótipo do solteirão convicto.
Carry deseja o que tanto rejeita, porque como uma boa Polyanna, ela acha que pode mudar o amado. Tira onda do amor romântico ao fazer piada de Aidan que ajoelhado pede sua mão em casamento, mas não hesita em dizer sim ao pedido de Big, tão clichê quanto o de Aidan, mesmo depois de ser por ele abandonada pela enésima vez. É preciso ter uma auto-estima muito baixa para continuar investindo 10 anos da vida em um cara como Big, mas tem gente que ainda rima amor com dor e tem um apego inexplicável à infelicidade.
Mas o filme tem algo que continua muito positivo, que na minha singela opinião, é o melhor. Sex and the city é mais do que histórias de balzaquianas em busca da felicidade amorosa. Sex and the city é sobre a relação de amor que liga quatro mulheres, sobre a amizade, que está acima de todos os clichês.
Valeu a pena ver uma Carry emocionalmente ferrada levantar numa noite fria e correr para abraçar uma amiga triste e solitária do outro lado da cidade; ou ver três amigas transformando uma fracassada viagem de lua-de-mel em momentos de solidariedade e espera paciente e silenciosa; ou ainda, constatar que apesar das crises, maridos, filhos, os amigos sempre terão o espaço sagrado que merecem em nossas vidas.

Ainda Machado


Diferente do último texto (xenofóbico) publicado neste blogue acerca de Machado de Assis, de quem esta humilde pessoa é fã incondicional (para desespero e prováveis surtos psicóticos de alguns), trago hoje uma resenha de Milton Hatoum, publicada na EntreLivros.

Machado para o jovem leitor

O texto inaugural desta coluna na EntreLivros intitula-se “A parasita azul e um professor cassado”. Nessa crônica, escrevi: “Dois acasos foram decisivos na minha juventude: o primeiro me conduziu à obra de Machado de Assis; o segundo, a uma biblioteca vasta e sombria, escondida numa sala subterrânea”.
Mais de dois anos depois, volto aos contos de Machado para dialogar com os professores.
Uma das questões sobre o ensino de literatura brasileira para jovens estudantes (da primeira à terceira série) diz respeito aos critérios da seleção bibliográfica. Infelizmente, prevalece a idéia de que os alunos não têm condições de ler textos complexos. Um texto complexo não é necessariamente pesado, chato, algo que se lê com extrema dificuldade. Para um jovem do nosso tempo, não deve ser fácil nem prazeroso ler um romance de Coelho Neto ou A bagaceira, de José Américo de Almeida. Esses, sim, são textos pesados, que carregam na ênfase e no vocabulário precioso. Confesso que, na minha juventude, penei para ler esses autores. E quando li dois romances extraordinários de prosadores nordestinos – O quinze, de Rachel de Queiroz, e Vidas secas, de Graciliano Ramos – o romance de José Américo tornou-se, por contraste, ainda mais enfadonho.
Mesmo Os sertões e O Ateneu – livros fundamentais da nossa literatura – são difíceis de ser assimilados por um jovem do ensino médio.
Passei por essa provação como se fosse uma penitência. De fato, minha leitura de trechos da obra-prima de Euclides da Cunha foi conseqüência de uma punição coletiva, um castigo imposto por um professor que não descobriu o culpado de uma infração grave, cometida no colégio onde eu estudava. Nessa mesma época, ganhei as obras completas de Machado de Assis e li o conto “A parasita azul”. Depois li os outros contos do volume Histórias da meia-noite. Gostava desse título, que me remetia a histórias de suspense, horror e mistério. Havia algum mistério e suspense nos contos, mas não da maneira que eu esperava. Lembro que os li com prazer, e me perguntei por que um dos professores de português nos obrigava a ler Coelho Neto e José de Alencar e não Machado de Assis. Por que Iracema e não Dom Casmurro? E, nesse caso, por que não ler ambos?

II

Havia – como ainda há – imposições curriculares, mas penso que isso é um equívoco, pois o leitor jovem e inexperiente pode odiar para sempre a literatura brasileira, pode pensar que só existem textos ásperos, cuja leitura é sinônimo de suplício. É inadmissível que tantos jovens desperdicem a oportunidade de ler “A causa secreta”, “O enfermeiro”, “Missa do galo”, “O espelho”, “Uns braços”, “Um homem célebre”, “Terpsícore”, “A cartomante”, “Evolução” e outros contos do Bruxo, um verdadeiro mestre da narrativa breve, que se situa no mesmo patamar de excelência de seus contemporâneos europeus.
É muito provável que esses contos sejam lidos e comentados sem enfado. Porque uma leitura enfadonha e arrastada é, para o leitor jovem – e talvez para todo leitor –, um ato de flagelação do espírito. Claro que há textos intricados e nada tediosos, que são imprescindíveis para quem gosta de literatura. Quem não se deleita com a leitura dos romances Grande sertão: veredas e O século das luzes? São livros para quem já passou por uma experiência de leitura e não se sente inibido diante de obras cuja linguagem enfatiza um notável trabalho de estilização. Mas um iniciante certamente encontrará dificuldade para ler esses romances.
Nos contos de Machado ocorre algo diferente. Com um estilo muito elaborado, mas pouco ou quase nada rebuscado, o narrador machadiano explora em poucas páginas a complexidade das relações humanas. Sua linguagem é densa sem ser retórica, e os contos são exemplos perfeitos de complexidade concentrada num texto conciso e exato.
Um exemplo é “A causa secreta”, publicado em 1885 na Gazeta de Notícias e incluído em Várias histórias (1895). Eis aí uma aula sobre o conto enquanto gênero literário. Logo no primeiro parágrafo, depois de apresentar as três principais personagens numa cena que poderia ser filmada, o narrador escreve: “Tempo é de contar essa história sem rebuço”. Ou seja, é tempo de ir diretamente ao miolo da questão. E a questão é, na verdade, um feixe de questões machadianas: o adultério, as relações sociais, a violência, a loucura, o amor, a dor moral. Em menos de 15 páginas, o narrador constrói uma das personagens mais terríveis da nossa literatura: um homem (Fortunato) que se ocupava “nas horas vagas em envenenar e rasgar gatos e cães”.
Fortunato revela o lado mais obscuro e violento do ser humano. Já é clássica a cena em que ele mutila e queima um rato “com um sorriso único” no rosto, “uma serenidade radiosa da fisionomia” ou “um vasto prazer, quieto e profundo”. No fim, a dor física dos animais é substituída pela dor moral de Garcia, quando este tentar beijar pela segunda vez Maria Luísa, já morta. Fortunato, o esposo e agora viúvo, “saboreou tranqüilo essa explosão de dor moral, que foi longa, muito longa, deliciosamente longa”.

III

Os professores que comentam esse conto em sala de aula sabem que os estudantes se interessam pelo texto. A leitura no cabresto é inconseqüente, pois o maior estímulo para um jovem reside no prazer da leitura. Há, sem dúvida, outros grandes autores cuja obra é estimulante. Os contos de Insônia e Laços de família são apenas dois exemplos, entre muitos da literatura brasileira. Mas os de Machado não podem ser esquecidos, porque estão no centro da nossa modernidade e irradiam uma das visões mais críticas e inteligentes sobre o ser humano e a sociedade brasileira.

segunda-feira, junho 09, 2008

(II)

“Tudo é inútil. Estar aqui deitada e entregue a um estranho também é inútil, uma perda de tempo. O que quero descobrir que ainda não sei? Não há nada que já não saiba há um milhão de anos, um milhão de vidas. É o peso do tempo que carrego sobre os ombros. O peso de ter me visto de fora, ver em mim o que toda a gente vê: o Nada, um imenso tédio, a constatação de que não sirvo para nada, fracassei. Fracassei em não ambicionar dinheiro, objetos, títulos. Fracassei por não ter par, por mais vil que fosse. Ver em mim o que os outros vêem é uma experiência de morte. Mas como, se já nascemos mortos?
Eu queria fugir só para não ser quem sou. Ir para onde não me conhecem, para não mais encontrar os rostos conhecidos que sempre expressam nas suas feições a incompreensão diante da minha dor, ma eu nunca sairei daqui. Então, eu sonho em ser outra e isso é mais verdadeiro do que qualquer realidade.
Já faz algum tempo que me despedi da vida, porque descobri que viver e morrer não são tão diferentes. Há tantos que vivem, mas já estão mortos! E eu não enxergo nessa gente senão desprezo. Quem sente demais encerra em si a impossibilidade de tocar o outro e é esta solidão que torna tudo inútil”.

Festa Literária de Paraty



Bem-vindo à FLIP
20082 a 6 de julho



Programação
A partir de hoje a programação completa da Festa Literária Internacional de Paraty, com biografias dos autores convidados e resumo das mesas está disponível no site da FLIP. São 41 autores convidados vindos da América do Norte, da Europa, da África e de vários países da América do Sul, além dos 22 autores nacionais.


Homenagem a Machado
Abrindo a FLIP, Roberto Schwarz, um dos mais destacados intérpretes da obra de Machado, discutirá o livro Dom Casmurro, por ele considerado o "romance possivelmente mais refinado e composto da literatura brasileira". Em outra mesa, "Papéis Avulsos", Flora Süssekind, Luiz Fernando Carvalho e Sergio Paulo Rouanet falam sobre suas diferentes experiências com a obra machadiana.
A homenagem a Machado se estende também pela programação do FLIP ETC. com adaptações da obra do autor para o cinema, teatro, e uma exposição sobre o Rio de Janeiro do fim do século XIX.


Show de Abertura
Luiz Melodia é o convidado desta sexta edição para o show de abertura, que acontecerá na quarta-feira, dia 2/7.


Ingressos
Os ingressos estarão à venda a partir do dia 10/6. A compra pode ser feita pela internet, por telefone, ou em pontos de venda de Ingresso Rápido. Para detalhes clique aqui.

- Tenda dos Autores (mesas e conferência de abertura): R$ 25 cada
- Show de abertura na Tenda do Telão: R$ 25
- Tenda do Telão (transmissão das mesas e da conferência de abertura): R$ 8


Patronos
Estão abertas as inscrições para Patronos e Amigos FLIP. Para cada categoria há uma série de benefícios.
Conheça detalhes acessando o site da FLIP.

quarta-feira, junho 04, 2008

Davi X Golias

Hoje pela manhã, ao chegar ao trabalho, fiz o de sempre. Acessei o e-mail da empresa para verificar se já havia algum texto para revisar. Nenhum, mas tinha uma mensagem da minha chefe. Ela também escreve e sabendo que amo o Machado de Assis de paixão, enviou-me esta carta-bomba para atiçar meus ânimos.
Depois de ler e responder, pensei que seria interessante fazer um post sobre o assunto.
Bom, aí está.

Ah, o texto é do Daniel Lopes e pode ser encontrado no Digestivo Cultural.


Não gostar de Machado

Não gostar de Machado de Assis, no Brasil, é arriscado. Quero dizer, se você sair por aí dizendo que não gosta. Mesmo se lhe foi pedida uma opinião. Você não corre o risco de ser surrado (não sei se essa garantia serve caso você esteja nos corredores da ABL), mas com certeza receberá aquele olhar de piedade que apenas os seres superiores sabem produzir.
Você é criticado por não gostar de Machado mesmo por quem nunca o leu, ou, ainda pior, por quem o leu e também não gostou, mas ainda assim... patrimônio nacional é patrimônio nacional. Mexer com Machado é quase como mexer com a Amazônia. Quase, nada, é pior, muito pior. Se Al Gore quer saber o que é realmente bom pra tosse, que experimente, em vez de dizer que a Amazônia é do mundo, declarar que Machado é "um escritor de segunda", como já opinou Millôr Fernandes.
Há pouco tempo, um leitor do Digestivo, comentando no meu perfil, se revoltou contra o fato de eu ter escrito que "ainda no colégio, nunca consegui gostar de Machado de Assis, e apenas quando já havia entrado na universidade pude compreender que não perdera nada". Também concorreu para aumentar a indignação do leitor o fato de eu ocupar espaço no Digestivo com textos sobre livros de autores estrangeiros, insignificâncias como J. M. Coetzee e Nathaniel Hawthorne: "Não gostar do Machado e gostar de escritores estrangeiros bem traduz esta juventude de hoje influenciada pela cultura americana e outras, que entram nos nossos ouvidos diariamente pela mídia e também por livros".
O autor da mensagem assinou como Delton. Eu lhe enviei uma resposta, mas esta voltou, acusando e-mail inválido.
Seja como for, assim que li seu comentário lembrei de algo que me ocorreu logo que entrei no curso de Ciências Sociais da Universidade Federal do Piauí. Foi em 2003. Certo dia, entre uma aula e outra, estou a folhear no corredor um livro de George Orwell, quando um rapaz mais ou menos da minha idade pára sua caminhada simplesmente para dizer que eu sou um alienado. Eu levanto os olhos e o vejo erguendo um livro de José de Alencar. "Já leu isso?", perguntou. Sou um sujeito muito tímido, não gosto de discutir nem com gente inteligente. Disse apenas que "já, é um livro muito ruim". Nem vi direito o título, mas se era José de Alencar só podia ser algo chato, e eu queria me livrar do rapaz o mais rápido possível. Ele resmungou e foi embora.
Hoje penso que ele devia ser um desses membros do movimento estudantil que gastam mais tempo se movimentando do que estudando. Não sei se ele viu que o livro do Orwell era em inglês, pois eu estava começando a estudar inglês. Acho que não viu. Se tivesse visto, a bronca poderia ter sido maior. Com certeza, ele não sabia da história de vida de George Orwell. Tomara que, de 2003 para cá, a militância do jovem fã de Alencar em um partido político ou outro lhe tenha deixado algum tempo de sobra para aprender sobre a participação de Orwell na Guerra Civil espanhola, do lado dos republicanos e contra os fascistas ― experiência que gerou o livro Homage to Catalonia.

Nacionalismo literário

"Triste do povo que precisa de heróis". O que diria então Bertold Brecht da carolice de uma intelectualidade nacional que precisa de heróis para se sustentar?
Sempre duvidei que alguém em sã consciência, se lhe fosse dado dois livros, um de George Orwell e um de José de Alencar, ao cabo das leituras preferisse Alencar. Se preferir, não descriminarei. Juro. Mas duvido que prefira.
É verdade que Machado de Assis não é tão ruim quanto José de Alencar. Se, conforme disse em recente entrevista ao jornal Rascunho o professor e escritor sergipano Antonio Carlos Viana, "dar Machado de Assis para um menino de 15 anos é querer que ele não goste de literatura, nunca mais", o que dizer do trauma gerado em um jovem que é forçado a ler coisas como Senhora? Viana diz ter acabado de escrever um livro em que indica 45 autores indispensáveis para que alunos do segundo grau tomem gosto pela leitura ― entre os quais, Franz Kafka e John Fante. Estou com ele.
Aliás, por que mesmo nossas crianças e jovens são torturados com obras monstruosas da literatura brasileira e portuguesa, ao mesmo tempo em que são privados dos grandes clássicos da literatura universal? É claro que existem excelentes obras brasileiras ― é difícil, por exemplo, imaginar um estudante não se divertindo e se comovendo com Memórias de um sargento de milícias ou Triste fim de Policarpo Quaresma. Mas por que, em vez de incluir estorvos do período romântico brasileiro, nossas grades curriculares não permitem aos mestres trabalhar novelas de Herman Melville, Gogol e Tolstoi, contos de Jack London e por aí vai? É para "valorizar o que é nosso"?
Mas enquanto a função principal dos nossos professores de literatura for fazer os alunos detestarem a literatura, o tipo de produto literário nacional que os estudantes irão comprar em sua vida adulta será, no máximo, as obras completas de Paulo Coelho, empilhadas estrategicamente na estante da sala, unicamente para fins de enfeite.
De cada 100 jovens que entram na universidade (tendo feito belos pontos nas provas de literatura), quantos se tornarão adultos apreciadores da literatura relevante, nacional e internacional? Sejamos benevolentes, suponhamos que esse número seja de 10. Desses 10, quantos devem à escola essa dádiva? 1. Podem sair pesquisando por aí. Os outros 9 se comportaram de forma rebelde na juventude, fingindo que liam poesia parnasiana, apenas para fazer a média na prova, enquanto que, na surdina, encontravam em sebos e bibliotecas o que realmente lhes dava prazer e o que de fato os transformou em leitores maduros ― alguns, até, apreciadores de Machado de Assis.
E para constar. O que respondi ao leitor Delton no e-mail que não foi entregue, em resumo, foi que
― é verdade, não gosto de Machado de Assis. E não é porque nunca o li, ou não entendi as estórias. Sim, li algumas e as compreendi, mesmo as que abandonei pela metade. O que não quer dizer que no futuro, em novas leituras, não possa vir a gostar dele. Mas não sinto a menor obrigação de fazê-lo;
― é uma besteira achar que se alguém não gosta de Machado ou qualquer outro escritor é porque tem que crescer mais "literaturalmente". Claro, eu tenho muito que evoluir, e espero evoluir sempre. Mas quem garante que, lá pelos 140 anos, tendo evoluído continuamente, ainda assim eu não vá gostar de Machado? Ou será que se o sujeito tem 100 anos e não gosta de Machado é porque ele não evoluiu o suficiente? E quem gosta de Machado aos 15 anos já atingiu o ápice de sua vida "literatural"? Que bobagem, não é mesmo?
― eu lhe asseguro que é muito bom ser influenciado por culturas de fora, dos EUA, da Europa, Oriente, África, Marte... Tão bom quanto ser influenciado pela cultura local. Acredite, há porcaria escrita em todo lugar, e em todo lugar há coisa boa à nossa espera. Pergunte a Machado, que era fã de carteirinha de Montaigne e Laurence Sterne.


Chefe, o texto é muito bom. Bem escrito e tal...
Concordo com algumas coisas, discordo de outras. Bom mesmo é chegar numa idade em que essas farpas já não são combustíveis para o meu espírito. Bom mesmo é ler e dar gargalhadas por ver pessoas chovendo no molhado ou, num português bem chulo que não deixa margem a dúvidas, cagando regras.
Em parte, eu entendo a crítica porque sou sócia do pequeno grupo que odeia Joyce. Tadinho, não é odiar. Eu não o odeio, mas eu acho o Ulisses um porre, chato pra chuchu, de lascar. Outro escritor que não me causa sequer cócegas é o Jorge Amado (salvo O gato Malhado e a andorinha Sinhá, Capitães de areia e A morte de Quincas...). Eu acho a literatura dele morna, repetitiva. A Zélia sempre me pareceu melhor, não sei, eu acho que ela tratou de temáticas mais interessantes. Mas, contudo, entretanto, todavia, por mais que eu pense isso – e eu penso – respeito e não nego a importância desses autores para a literatura.
Eu não acho Freud essa Brastemp toda, comparado a outros da área, mas eu seria louca em negar que tudo começou com ele. Se gosto mais de Jung do que de Freud, a culpa é do próprio Freud, sem seus estudos, Jung não poderia ter ido além.

“Sempre duvidei que alguém em sã consciência, se lhe fosse dado dois livros, um de George Orwell e um de José de Alencar, ao cabo das leituras preferisse Alencar. Se preferir, não descriminarei. Juro. Mas duvido que prefira”.

Afirmações desse tipo não tornam o autor do texto diferente daqueles que critica. O fato de ele não ter prazer na leitura Machadiana não lhe dá o direito de julgar que outros o tenham.

PS: O autor não pode mesmo descriminar, uma vez que não existe crime. O máximo que ele pode é não discriminar.

Bem, isso é uma coisa.
Outra coisa é propor Gogol, Tolstoi, Kafka (!!), e acrescento, Proust, Tchecov ao invés de Machado. Pirou? Só porque são estrangeiros? Essa é a única diferença que consigo identificar, em minha modesta opinião. Esses autores são tão “difíceis” de deglutir quanto um Machado! Pelo amor dos meus filhinhos.
Que existe um estrangeirismo exacerbado e mal camuflado, existe. O que é uma bobagem. Apenas diga: prefiro literatura estrangeira à brasileira. É mais simples, direto e menos falso.
O currículo escolar brasileiro precisa ser revisto. E não é de hoje!
Acho realmente muito difícil que estudantes de quinta série apreciem Memórias Póstumas. Se já era difícil para a minha geração, imagine para essa que tem todas as facilidades visuais das novas tecnologias. Essa afirmação também se aplica aos estrangeiros que o autor tanto ufana. Imagina a geração videoclip lendo A metamorfose, do Kafka ou O estrangeiro, do Camus? Ia ter suicídio coletivo, minha filha!
O que pode ser bem aproveitado de Machado para essa garotada são os contos e seus dois romances, Helena (romântico) e Iaiá Garcia (de transição). Os romances realistas precisam de uma apresentação, um flerte.
Outra coisa ainda:

“Mas por que, em vez de incluir estorvos do período romântico brasileiro, nossas grades curriculares não permitem aos mestres trabalhar novelas de Herman Melville, Gogol e Tolstoi, contos de Jack London e por aí vai? É para "valorizar o que é nosso"?”.

Eu não acredito que estou respondendo a isso, chefe! Kkkkkkkkk
Essa pessoa não é burra, né!? Pode ser reacionária ou sofrer de brasofobia. Brasofobia?
Sim, cara pessoa, é para valorizar o que é nosso! A grade curricular BRASILEIRA pretende que nós BRASILEIROS conheçamos os expoentes da nossa literatura que é BRASILEIRA. Elementary, my dear Watson!
Eu duvido que na Rússia, as escolas incluam na grade curricular de literatura russa um romance francês ou brasileiro. O mesmo vale para a França, Estados Unidos, etc.
Literatura comparada fica para a universidade. Lá, as pessoas matarão a vontade insana de ler Moby Dick, essa obra imprescindível para a formação literária de um ser superior.
E outra coisa: A AMAZÔNIA É PATRIMÔNIO NACIONAL! DO MUNDO É O CARALHO!

Beijo,
Lu

quarta-feira, maio 28, 2008

Descobri assim por acaso e me apaixonei.



Let it go - Fauxliage

I'll begin to let you go
When the sunlight melts the snow
Every night i drive away from you
I see the mountains i have to move

And you there
You don't care
I wonder if you

Wanted me like i wanted you
It's a lonely truth
That i can't change you
And you sure can't change me

It's hard to hell tonight to sleep
To close my eyes would admitting my defeat

And you there
You don't care
I wonder if

Wanted me like i wanted you
It's a lonely truth
That i can't change you
And you sure can't change me

Are you
Wanting me like i wanted you
It's a lonely truth
That i can't change you

And you there
You don't care
I wonder if

You wanted me like i wanted you
It's a lonely truth
That i can't change you
Wanted me like i wanted you

It's a lonely truth
That i can't change you
And you sure can't change me

(I)

“Não sei bem explicar o motivo, mas este é o processo: nos momentos de crise, meus movimentos são cíclicos. Primeiro me afasto de todos, busco o silêncio e a solidão. Sem isso sou incapaz de me ouvir. Depois me jogo nos livros. Não, não são aqueles que compõem a famosa lista os livros que preciso ler. São os mesmos de outrora. Releituras. É mais ou menos como visitar parentes, entende? Nunca é aleatório. Também não é leitura de entretenimento para burlar a angústia ou distrair os pensamentos. É sempre uma inquieta Clarice, um desassossegado Pessoa, um decadente Schoppenhauer. São palavras que habitam as profundezas. Simultaneamente escolho a trilha sonora. Enquanto leio, escuto Bach. É como voltar a um local especial e muito belo. Os afrescos da Sistina. Essa é a guerra. Enquanto desço aos meus porões, Bach trabalha secretamente rumo a uma ascese. Quem vence? Se ainda estou aqui, está claro que Bach tem se saído bem. Até agora ele foi sempre vencedor. Contudo, isso nunca me impediu, enquanto tateava o porão escuro, de colecionar cicatrizes. O que não é privilégio meu. As ostras estão aí para provar.”

terça-feira, maio 20, 2008

Escrevo, triste, no meu quarto quieto, sozinho como sempre tenho sido, sozinho como sempre serei. E penso se a minha voz, aparentemente tão pouca coisa, não encarna a substância de milhares de vozes, a fome de dizerem-se de milhares de vida, a paciência de milhões de almas submissas como a minha ao destino quotidiano, ao sonho inútil, à esperança sem vestígios. Nestes momentos meu coração pulsa mais alto por minha consciência dele. Vivo mais porque vivo maior. Sinto na minha pessoa uma força religiosa, uma espécie de oração, uma semelhança de clamor. Mas a reação contra mim desce-me da consciência.


PESSOA, Fernando. O livro do desassossego. Cia. das Letras, 2006.

terça-feira, maio 13, 2008

Homem pode, mulher não!

Citando Eco

Eu sou suspeita para falar de Umberto Eco.
Simplesmente adoro a maneira como escreve; sou apaixonada pelo seu trabalho como crítico; acho seus textos teóricos muito leves e sem aquela carga academicista; aprecio a sua "frouxidão", sua largueza italiana e principalmente, admiro sua capacidade de interpretar o mundo.
O Caderno Mais da Folha de São Paulo publicou a matéria intitulada "Professor Aloprado". Por ser extensa, compartilho com vocês as partes mais interessantes.


Admito que na vida existem felicidades que duram dez segundos ou meia hora, como quando nasceu meu primeiro filho - naquele instante, eu estava feliz. Mas são momentos muito breves. Alguém que é feliz a vida toda é um cretino. Por isso, antes de ser feliz, prefiro ser inquieto.

Algo de muito bonito que ocorre ao envelhecermos é que nos recordamos de uma multidão de coisas da infância que tinham sido esquecidas (...) Por isso, vou ao encontro de minha velhice com muito otimismo, porque, quanto mais envelheço, mais recordações tenho de minha infância.

Minha relação com os alunos sempre foi uma relação de aprendizagem, porque, ensinando, eu também aprendia (...) Uma relação erótica, porque a relação de um professor com um aluno é como a relação de um ator com seu público: quando você aparece em cena, é como se o estivesse fazendo pela primeira vez, e você tem a sensação de que, se não tiver conquistado o público nos primeiros cinco minutos, o terá perdido. É isso o que eu chamo de uma relação erótica, no sentido platônico do termo. Além disso, há uma relação canibal: você come as carnes jovens deles, e eles comem sua experiência. Há pessoas infelizes que passam os primeiros anos de sua vida com pessoas mais jovens, para poder dominá-las, e, quando envelhecem, estão com pessoas mais velhas. Comigo aconteceu o contrário: quando eu era jovem, estava com pessoas mais velhas que eu, para aprender, e agora, tendo alunos, estou com jovens, o que é uma maneira de manter-se jovem. É uma relação de canibalismo; comemos um ao outro. Por isso não deixei de ter relação com a universidade, apesar de ter me aposentado.

Cinqüenta por cento dos italianos votam em Silvio Berlusconi, o que é indicativo de uma profunda imaturidade política. É um momento extremamente triste, em que os elementos de esperança e entusiasmo são muito poucos.

Estamos em velocidade tão grande que não existe nenhuma bibliografia científica americana que cite livros de mais de cinco anos atrás. O que foi escrito antes já não conta, e isso é uma perda também quanto à relação com o passado.

Essa velocidade vai provocar a perda de memória. E isso já acontece com as gerações jovens, que já não recordam nem quem foram Franco ou Mussolini! A abundância de informações sobre o presente não lhe permite refletir sobre o passado. Quando eu era criança, chegavam à livraria talvez três livros novos por mês; hoje chegam mil. E você já não sabe que livro importante foi publicado há seis meses. Isso também é uma perda de memória. A abundância de informações sobre o presente é uma perda, e não um ganho.

Esse é um de nossos problemas contemporâneos. A abundância de informação irrelevante, a dificuldade em selecioná-la e a perda de memória do passado -e não digo nem sequer da memória histórica. A memória é nossa identidade, nossa alma. Se você perde a memória hoje, já não existe alma; você é um animal. Se você bate a cabeça em algum lugar e perde a memória, converte-se num vegetal. Se a memória é a alma, diminuir muito a memória é diminuir muito a alma.Vamos à internet para tomar conhecimento das notícias mais importantes. A informação dos jornais será cada vez mais irrelevante, mais diversão que informação. Já não nos dizem o que decidiu o governo francês, mas nos dão quatro páginas de fofocas sobre Carla Bruni e Sarkozy. Os jornais se parecem cada vez mais com as revistas que havia para ler na barbearia ou na sala de espera do dentista.

Hoje, emergem muitas posições anticlericais, e muitas pessoas se declaram atéias. Ninguém estava pensando nisso antes. Subiu ao trono um papa que pensa como um papa do século 19.

sexta-feira, maio 09, 2008

Literatura

Oficina literária no Ar

As aulas do romancista Raimundo Carrero, agora transmitidas também pelas ondas do rádio, são um incentivo à paixão pela literatura.

Por Rafael Dias

Dez para as três da tarde. Toca o celular, interrompendo a entrevista. Com voz grave e tom rouco onipresente, Raimundo Carrero atende à chamada: do outro lado da linha, alguém deseja confirmar um compromisso importante para logo mais, dali a pouco mais de uma hora. Alarme falso. Impaciente, o autor de Somos pedras que se consomem não esconde o frio na barriga como um novato prestes a sucumbir à ameaça do futuro desconhecido. Cruza as pernas, sacode o pé esquerdo, pede um cafezinho, “faz tempo que não tomo café”, solta ele. Outras vezes, tem aparência serena, um olhar firme que dá a impressão de perscrutar o interlocutor. Mal termina a ligação, o aparelho toca de novo. Agora, sim, a produção da rádio JC/CBN Recife informa que, dentro de instantes, ele entrará ao vivo para apresentar o quadro Momento literário, do programa CBN Total.

O esquete de apenas 10 minutos, veiculado de segunda a sexta-feira, sempre ao vivo, no “nobre” horário vespertino de uma FM (90,3 MHz), é o ponto de encontro religioso de um contingente de público que deseja ouvir as dicas preciosas de um romancista consagrado, como um grupo de discípulos reunidos numa ágora, diante do sábio grego. Estudantes, donas-de-casa, advogados, médicos, políticos, intelectuais, funcionários em sua sagrada hora de sesta, literatos ou não, todos estão ao alcance dos ensinamentos de Carrero. Basta um radinho de pilha em mãos ou sintonizar a freqüência no som do carro e a vontade, ainda que furtiva, de aprender a escrever bem. Literatura, quem diria, tornou-se artigo pop. Não só isso, discutir o fazer literário deixou de ser um tabu. Do terreno sacrossanto, desce das nuvens até nós, mortais. A iniciativa foi do jornalista e apresentador Aldo Vilela, que convidou o romancista, em fevereiro do ano passado, para que reproduzisse a sua famosa oficina literária na rádio. Hoje a atração é fenômeno de audiência, dando oportunidade de desvendar os meandros da escrita na companhia do escritor – agora também pela internet, pelo link do JC/CBN, no site do JC Online.


Leia a matéria na íntegra, na edição nº 89 da Revista Continente Multicultural. Já nas bancas

terça-feira, maio 06, 2008

Espasmos # 9

As bóias indicadoras de segurança parecem-me distantes demais, ainda assim eu busco alcançá-las. Quero saber como é o mar além dos limites do permitido, do aconselhável. Que segredos guardam suas profundezas?
Não tenho medo de ser devorada por nenhum leviatã. O que eu temo é ser lentamente consumida pelos vermes da agonia e do tédio.
O tombadilho agora clama por mim.
Fim da série Espasmos.
B side

sábado, maio 03, 2008

Recadinho da doutora

P.S.

Publicação

Amigos,
A Editora Komedi publicou um conto meu na revista eletrônica "Literatura".
Quem quiser conferir, é só clicar no link abaixo:

terça-feira, abril 29, 2008

Espasmos # 8

Ancorou seu corpo junto ao meu. Depois de ficar imóvel por um tempo, tentou com imensa dificuldade dirigir-se ao tombadilho.
Observando a lentidão dos seus movimentos e o vazio no olhar, tomei-lhe as mãos cuidadosamente; tive medo que ele quebrasse ao meu toque, estilhaçasse em mosaicos indescritíveis e impossíveis de juntar.
Não relutou em segurar a bóia que lancei. Agarrou-a com vontade e debruçou-se entregue ao resgate.
Não rompi seu silêncio. Ofereci meu porto até que, por si só, ele também descubra a viração, a vibração da vida.

sábado, abril 26, 2008

Piaf - um hino ao amor

Há algum tempo aceno com a possibilidade de escrever um texto sobre o filme Piaf, mas nunca o fiz. As razões são muitas, mas a mais pungente é que toda vez que arrisquei rabiscar qualquer coisa, impressão, emoção, achava o texto muito aquém daquilo que foi despertado em mim.
Dessa vez também não será diferente. Há muito compreendi os caprichos da palavra: às vezes, ela é poderosa e indiscutível; outras, ela é impotente, incapaz de traduzir o arrepio na pele, a lágrima vertida.
Foi aí que constatei que Piaf se assemelha muito com a palavra: misteriosa, reveladora, ininteligível, contida, soberba, efusiva, elegante, ordinária, controversa, resumida. Piaf era tudo isso e muito mais.
Piaf era previsível. Sim, pre-vi-sí-vel. Dificilmente alguém com seu histórico de vida não perpetuaria as marcas da dor, as mazelas da infância, a crueldade das experiências, a amargura do abandono. Era preciso ser supra-humano para passar incólume por tudo isso. E Piaf era só humana... humana como eu ou como você. É por isso que sua trajetória nos encanta tanto. Sua e outras tantas histórias demasiadamente humanas. São essas que nos marcam, porque criam laços, identidades, nos faz pertencer ao mesmo clã, ao mesmo pó. Somente as experiências afins são comunicadas com tanta delicadeza e força.
Clark Kent, Peter Park, Bruce Wayne e demais heróis distraem-nos daquilo que somos; modificam o foco, a perspectiva da nossa condição, despertam desejos de ser o que jamais seremos. São sonhos, entretenimento, utopia. E não estou dizendo que sejam dispensáveis. Não são. A vida sem esses elementos seria insuportável. Precisamos alimentar quimeras pra conseguirmos agüentar a brutal realidade de sermos apenas quem somos.
Foi por isso demorei tanto a escrever sobre os sentimentos que o filme despertou em mim. Custei a entender que tanta semelhança embaçava o brilho do sonho.
E há momentos na vida em que o que se quer é ser mulher-gato, bela adormecida, mulher maravilha, qualquer coisa que nos faça esquecer, ainda que por breves momentos, que somos Piaf, Stephen Biko, Camille Claudel, Dorothy Parker, Virgínia Woolf, enfim, pessoas que assumiram sua condição e viveram suas experiências baseadas na realidade que as cercava.
Piaf, para além da cantora maravilhosa, intensa; para além da voz refinada e marcante, era só Piaf, por isso, inesquecível.

sexta-feira, abril 18, 2008

quarta-feira, abril 16, 2008

Espasmos # 7

Sim, a vida ainda vibra em mim... ela vibra na constância das minhas oscilações.
Vibra quando tudo arde, quando o sangue goteja, quando os corais se esquecem por segundos de seus habitantes naturais e vêm enfeitar meu corpo, despertando-me para o meu colorido: meu cabelo-alga, minha pele-escama, meus braços-nadadeiras... agora sou porto de mim.

sábado, abril 12, 2008

Espasmos # 6

A verborragia não se esgotara.
Num tom entre o descrente e o irônico, uma outra voz retrucava o mesmo refrão até o ponto de reproduzir ecos que me lembravam de que eu não poderia fugir ao meu destino.
Então, escolheu o melhor diamante – límpido e duro – tatuando sobre minha pele a pergunta tão preciosa:
“Mata-me a curiosidade, conta-me, a vida ainda vibra?”

terça-feira, abril 08, 2008

Espasmos # 5

E alguém sussurrou, ao longe, algo que me pareceu ser assim:

“Diante do Tempo, a vida
pode parecer uma irrelevância
(Talvez o seja mesmo).
O que fazer se o irrelevante
é tudo o que possuo?
Fechar uma porta,
Apagar a luz
Faz toda a diferença.
Não tenho a eternidade para saber...”

sexta-feira, abril 04, 2008

Novidades e um pouquinho de escracho

Em breve este blogue contará com a participação de uma antiga amiga.
Apesar do pouco tempo disponível e de uma agenda atribuladíssima, ela se dispôs a arranjar um horário para atendê-los no Consultório da Valentina.
Quem viver, verá.

quinta-feira, abril 03, 2008

Espasmos # 4

A folha estava amarrotada num claro gesto de quem deitou fora uma idéia que não servia ou não conseguia desenvolver. Bem no centro do papel, em destaque, lia-se a palavra “memória”.
Queria lembrar-me de algo? Ou esquecer? Não importa, agora de posse da memória de outrem, escreveria sobre vidas que não me pertencem, mas que são parte de mim.

segunda-feira, março 31, 2008

Espasmos # 3

E quanto mais gritava ao vento, menos era ouvida. A voz era dissipada pela velocidade do ar... sentia-me órfã, abandonada, lançada ao redemoinho, ao pó... comigo, uma folha de papel era arremessada ao nada; esperei os movimentos, decorei sua rotação e no momento exato do rodopio, agarrei-a com as mãos.

quinta-feira, março 27, 2008

Torcendo para que chegue por aqui

Começa hoje, no Clube Monte Líbano em São Paulo, a comemoração dos 125 anos do nascimento do escritor, pintor e filósofo libanês Khalil Gibran (1883-1931) com o lançamento de medalha, mostra e debates sobre sua obra.

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www.starnews2001.com.br/kahlil/museu_gibran.htm


A presidente da Associação Cultural Brasil-Líbano, Lody Brais, conseguiu do Museu Gibran filmes sobre o artista que começam a ser exibidos no sábado. Na sexta, será inaugurada exposição com livros, pinturas, cartas e documentos pessoais no hall do teatro do clube. E no domingo será instalado o busto do escritor na praça que fica entre as Avenidas República do Líbano e Afonso Brás.
Gibran teve sua obra marcada por grande misticismo e idealismo. Seu livro mais famoso, O Profeta, fala de um visionário que se prepara para uma grande viagem que talvez não tenha volta, o que deixa seus discípulos desolados, contudo, antes de partir, orienta-os acerca do amor, da amizade e da liberdade. Gibran tentou unir crenças e filosofias aparentemente inconciliáveis, uma da vez que o livro acentuadamente romântico foi influenciado por fontes de aparente grande contraste: Nietzsche, a Bíblia e William Blake.
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www.starnews2001.com.br/kahlil/museu_gibran.htm

Gibran emigrou para os Estados Unidos e começou a escrever poemas e meditações para O Emigrante (Al-Muhajer), jornal árabe publicado em Boston. Ele também desenha e pinta e na exposição de seus primeiros trabalhos, atrai o interesse de Mary Haskell, sua mecenas. Mary custeia os estudos de Gibran em Paris. Lá, ele conhece Rodin e torna-se aluno do famoso artista. Uma de suas telas é escolhida para a Exposição de Belas-Artes de 1910.

Amai-vos...

Amai-vos um ao outro,
mas não façais do amor um grilhão.
Que haja, antes, um mar ondulante
entre as praias de vossa alma.

Enchei a taça um do outro,
mas não bebais da mesma taça.

Dai do vosso pão um ao outro,
mas não comais do mesmo pedaço.

Cantai e dançai juntos,
e sede alegres,

mas deixai
cada um de vós estar sozinho.

Assim como as cordas da lira
são separadas e,
no entanto,
vibram na mesma harmonia.

Dai vosso coração,
mas não o confieis à guarda um do outro.

Pois somente a mão da Vida
pode conter vosso coração.

E vivei juntos,
mas não vos aconchegueis demasiadamente.

Pois as colunas do templo
erguem-se separadamente.

E o carvalho e o cipreste
não crescem à sombra um do outro.

sábado, março 08, 2008

Espasmos #2

- É que na maioria das vezes sou mesmo corredeira volumosa...
- Nunca escutas? Quantas vezes precisarei desembocar em ti para entenderes a violência dos sentimentos gerados pela força das minhas águas?
- Suplico ao vento que pare de soprar: estou exausta de tanta arrebentação.

Espasmos #1

Eu sempre me liquefaço em dias de chuva – nunca te disse? Pois é. Dissolvo-me. Diluo minha matéria bruta para aliviar meu peso, meus passos, pois sendo líquido posso vazar pelos poros transformando-me em corredeira ou simplesmente evaporar sem deixar vestígios.

Filosofia Barata (2)

O ser moderno.

- Tudo começou por causa daquele bendito curso de artes plásticas que você me recomendou.
- Então a culpa é minha?
- Em parte – disse sorrindo com olhos perspicazes.
- Mas eu avisei pra você ficar esperta. Ele é ou não é envolvente?
- No começo eu achei que sim. Agora não tenho tanta certeza. No fundo, ele é mais um cretino posando de moderno.
- Espera um pouco, Marina. Ele não é cretino.
- Qual o nome que você dá para alguém que usa a Arte como desculpa para perpetuar um comportamento machista pra lá de secular?
- Ele é desencanado.
- Ele é filho da puta. Se são sinônimos para você, tudo bem.
- Mas me conta, o que aconteceu?
- Não aconteceu. E pelo ritmo acelerado do meu desinteresse, não vai acontecer.
Suspirou fundo e deu início ao seu monólogo:
“Enquanto desenhávamos, ele passeava pela sala, observava nossos traços e nossas expressões. Ao final da aula, pediu para que eu ficasse. Precisava conversar comigo. Fiquei. Ele deu mil dicas e sugestões, indicou livros e pediu meu telefone. Ligou. Falou da mulher que sou: interessante, independente, sedutora... queria me ver, me tocar, falou um monte de sacanagem. Do outro lado eu me divertia com a fantasia que criara a meu respeito. Foi direto e sem cerimônias. Queria prazer sem compromisso. Ri ainda mais. Achei a frase digna dos anúncios de jornais da sessão de acompanhantes: “fulano realiza todos os seus desejos, prazer garantido sem compromissos.” Se ele se ouvisse de verdade, o cara moderno e liberal que acreditava ser daria lugar a um troglodita total. “Me deixa te ver”, ele insistia. Eu disse que não podia e realmente não podia mesmo, mas dei corda, no fim de semana nos encontraríamos, sairíamos para tomar um café. “Vamos deixar rolar, ver se a química funciona.” Foi então que a conversa mudou de rumo. Ele: eu te disse que tenho namorada? Eu: não, não perguntei. Ele: não acho fidelidade uma coisa tão importante. Eu: acho lealdade mais importante do que fidelidade. Ele: era importante que você soubesse disso. Eu: é importante que VOCÊ saiba disso. Ele: como? Eu: estou solteira, livre, faço o que quero e quando quero, portanto, não devo satisfações a ninguém. Ele: entendo, digo isso porque não posso ser visto, o encontro tem que ser num lugar discreto. Eu: parece que sua namorada não tem a mesma opinião sobre a fidelidade. (silêncio). Eu novamente: vou ser absolutamente sincera. Primeiro, eu não tenho motivos para me esconder; segundo, mesmo que seja só prazer sem compromisso (e eu não vejo nenhum problema nisso), há que se ter delicadeza, afinal, uma boa dose de cortejo não mata ninguém. Existem pessoas (e isso não é nenhuma novidade), quando bem pagas, que tiram a roupa, transam e vão embora. Sem nenhuma complicação e o melhor, sem compromisso. Ele: não quis te ofender. Eu: não ofendeu. Sacanagem é algo fácil de fazer, principalmente sem compromisso, mas feita assim tão secamente não tem graça, não deixa lembrança, não vira ficção, não marca, é mera contabilidade. Ainda que um encontro seja apenas sexo, é preciso ter cheiro, textura, química, conquista, precisa instigar, desafiar, criar clima, ter vontade de falar difícil, impressionar, ler Rimbaud no original... ele: isso é romance, não sexo.”
- Mas que cretino!
- Como você mudou de opinião! E rápido!

segunda-feira, fevereiro 04, 2008

Para que servem as listas?

Não sei bem, talvez para serem contestadas. O certo é que elas proliferam ano após ano.
Apresento-lhes a lista dos “Cem Melhores Filmes”, feita pelo crítico inglês Ronald Bergan que consta no seu livro que acaba de ser traduzido e publicado pela Editora Zahar.
Bergan apresenta comentários sobre cada um dos filmes que selecionou, ordenados rigorosamente em ordem cronológica.
Se há injustiças? Ou melhor seria dizer omissões? Sempre há, mas confesso que fiquei orgulhosíssima ao ver citado o brasileirinho Cidade de Deus.
Cinéfilos, deliciem-se.

O Nascimento de uma Nação – O Gabinete do Dr. Caligari – Nosferatu, o Vampiro – Nanook, o Esquimó – O Encouraçado Potemkim – Metrópolis – Napoleão – Um Cão Andaluz – O Martírio de Joana d’Arc – Nada de Novo no Front – O Anjo Azul – Luzes da Cidade – Rua 42 – O Diabo a Quatro – King Kong – O Atalante – Branca de Neve e os Sete Anões – Olímpia – A Regra do Jogo – ... E o Vento Levou – Jejum do Amor – As Vinhas da Ira – Cidadão Kane – Relíquia Macabra – Pérfida – Ser ou Não Ser – Nosso Barco, Nossa Vida – Casablanca – Obsessão – O Bulevar do Crime – Nesse Mundo e no Outro – A Felicidade Não se Compra – Ladrões de Bicicleta – Carta de uma Desconhecida – Um País de Anedota – O Terceiro Homem – Orfeu – Rashomom – Cantando na Chuva – Era uma Vez em Tóquio – Sindicato de Ladrões – Tudo o que o Céu Permite – Juventude Transviada – A Canção da Estrada – A Mensagem do Diabo – O Sétimo Selo – Um Corpo que Cai – Cinzas e Diamantes – Os Incompreendidos – Quanto Mais Quente Melhor – Acossado – A Doce Vida – Tudo Começou no Sábado – A Aventura – O Ano Passado em Marienbad – Lawrence da Arábia – Dr. Fantástico – A Batalha de Argel – A Noviça Rebelde – Andrei Rublev – The Chelsea Girls – Bonnie e Clyde – Meu Ódio Será sua Herança – Sem Destino – O Conformista – O Poderoso Chefão – Aguirre, a Cólera dos Deuses – Nashville – O Império dos Sentidos – Taxi Driver – Noivo Neurótico, Noiva Nervosa – Guerra nas Estrelas – O Casamento de Maria Braun – O Franco-Atirador – ET, o Extra-terrestre – Blade Runner, o Caçador de Andróides – Paris, Texas – Heimat – Vá e Veja – Veludo Azul – Shoah – Uma Janela para o Amor – Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos – Cinema Paradiso – Faça a Coisa Certa – Lanternas Vermelhas – Os Imperdoáveis – Cães de Aluguel – Trois Couleurs – Através das Oliveiras – Quatro Casamentos e um Funeral – Troy Story – Fargo, uma Comédia de Erros – O Tigre e o Dragão – Amor à Flor da Pele – Traffic – O Senhor dos Anéis – Cidade de Deus – Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças.

Dos equívocos

O poema que Maiakovski não escreveu

O equívoco que persiste em torno de célebre poema de Eduardo Alves da Costa, atribuído ao poeta russo indevidamente

Por Juareiz Correya, poeta e editor

Um poeta brasileiro tem sido confundido, com freqüência, nas quatro últimas décadas, com o poeta russo Vladimir Maiakovski. Os equívocos cometidos, as leituras apressadas, uma provável desatenção e, até mesmo, certo descaso com a produção poética brasileira contemporânea, já produziram interpretações impensadas e informações à beira de um ataque de sandice no meio cultural brasileiro. Comentários e artigos de algumas personalidades, de gente ilustrada e lida, têm reanimado a confusão e perpetuado um erro, no mínimo, culpado por uma séria injustiça que desvaloriza um dos grandes nomes da poesia brasileira particularmente criada na segunda metade do século 20. O poeta em questão é o fluminense Eduardo Alves da Costa, nascido em Niterói (RJ) e, paulistanizado desde os anos 60, reconhecidamente um dos mais expressivos poetas de São Paulo, cidade cuja produção poética é rica também por contar, em sua geração, com nomes da grandeza de um Álvaro Alves de Faria, Alberto Beuttenmuller, Eunice Arruda, Renata Pallotini, Cláudio Willer, Jaa Torrano, Érico Max Muller, Roberto Piva, entre outros. Confundem o seu nome com o de Maiakovski por causa da publicação do seu poema, justamente intitulado “No caminho, com Maiakovski”, incluído originalmente no seu livro O Tocador de Atabaque, lançado em São Paulo no ano de 1969.
Só para exemplificar, de forma bem localizada, cito alguns equívocos cometidos por escritores e jornalistas pernambucanos que conheço:
Há alguns anos, um professor, jornalista e poeta muito bem conceituado e reconhecidamente erudito, publicou, no Diário de Pernambuco, excelente artigo com a sua revelada e justa indignação sobre o momento político nacional, citando o poema de autoria de... Maiakovski! Por conhecê-lo e respeitá-lo, quando o encontrei, dias depois, lhe dei a informação sobre o verdadeiro autor do poema e ele, muito educado e consciencioso, me agradeceu a providencial correção. E outro não menos informado e culto jornalista, com coluna no Diário de Pernambuco, escreveu, em 2004, texto crítico muito bem contextualizado sobre a nossa indigente política nacional, citando “as flores do jardim” do poema de autoria de... Brecht! (Tem também este alemão na história...) Por conhecer pessoal-mente o jornalista, enviei comunicação sobre o erro acidental e ele me agradeceu com informação imediata divulgada na sua prestigiada coluna. Mas a confusão das identidades dos poetas continuou ainda neste ano de 2007, com a publicação de artigo corajoso, vigoroso e muito bem escrito, defendendo o Nordeste brasileiro, de autoria de conhecido professor e escritor pernambucano, em um dos jornais diários do Recife, em que Maiakovski, mais uma vez, é enaltecido como autor do poema no qual ele é citado e o autor é o brasileiríssimo Eduardo Alves da Costa.
E, para que não se diga que não falamos das flores do poema direito, e não se confunda mais russo com brasileiro, oferecemos, aos leitores da Continente, ajuda para iluminar a sua compreensão sobre esse problema jornalístico (não é literário porque o autor não o criou, e não é um problema editorial e cultural porque a Editora, ao publicar o poema em 1985, esclareceu, objetivamente, a questão): transcrevemos o famoso poema, pouco conhecido na íntegra, de Eduardo Alves da Costa, intitulado “No caminho, com Maiakovski”:

“Assim como a criança
humildemente afaga
a imagem do herói,
assim me aproximo de ti, Maiakovski.
Não importa o que me possa acontecer
por andar ombro a ombro
com um poeta soviético.
Lendo teus versos,
aprendi a ter coragem.

Tu sabes,
conheces melhor do que eu
a velha história.
Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo o nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.

Nos dias que correm
a ninguém é dado
repousar a cabeça
alheia ao terror.
Os humildes baixam a cerviz;
e nós, que não temos pacto algum
com os senhores do mundo,
por temor nos calamos.
No silêncio do meu quarto
a ousadia me afogueia as faces
e eu fantasio um levante;
mas amanhã,
diante do juiz,
talvez meus lábios
calem a verdade
como um foco de germes
capaz de me destruir.

Olho ao redor
e o que vejo
e acabo por repetir
são mentiras.
Mal sabe a criança dizer mãe
e a propaganda lhe destrói a consciência.
A mim, quase me arrastam
pela gola do paletó
à porta do templo
e me pedem que aguarde
até que a Democracia
se digne aparecer no balcão.
Mas eu sei,
porque não estou amedrontado
a ponto de cegar, que ela tem uma espada
a lhe espetar as costelas
e o riso que nos mostra
é uma tênue cortina
lançada sobre os arsenais.

Vamos ao campo
e não os vemos ao nosso lado
no plantio.
Mas ao tempo da colheita
lá estão
e acabam por nos roubar
até o último grão de trigo.
Dizem-nos que de nós emana o poder
mas sempre o temos contra nós.

Dizem-nos que é preciso
defender nossos lares
mas se nos rebelamos contra a opressão
é sobre nós que marcham os soldados.

E por temor eu me calo,
por temor aceito a condição
de falso democrata
e rotulo meus gestos
com a palavra liberdade,
procurando, num sorriso,
esconder minha dor
diante de meus superiores.
Mas dentro de mim,
com a potência de um milhão de vozes,
o coração grita – MENTIRA !”