sexta-feira, abril 20, 2007
Sala de Leitura (2)
terça-feira, abril 17, 2007
As matriarcas (8)
- D. Olívia!
- Tiziu!
- A professora já tinha terminado, viu? Não fugi da aula, não senhora.
- Eu não disse absolutamente nada, Tiziu.
- Mas antes que a senhora diga...
- Não estou aqui para vigiar você. Fique calmo. Vim porque combinamos um passeio de bicicleta para mais tarde, mas antes preciso ir a um lugar.
- Que lugar é esse?
- Uma casa que fica no Largo da Esperança.
- No Largo da Esperança? De quem é a casa?
- Foi da minha família: bisavós, avós, minha mãe e agora é minha. Mas ela está fechada há alguns bons anos.
- Não gosto de ir por aquelas bandas, D. Olívia.
- E por quê?
- Porque tem muita alma por lá.
- Como é, menino? Que história é essa?
- Falam que lá tem uma casa assombrada que pertenceu à D. Maria da Anunciação. Em algumas noites, uma dona doida anda pelas ruas do largo, vestida de Maria Madalena...
Minha visão ficou turva e a voz de Tiziu foi sumindo, sumindo até que não ouvi mais nada.
sexta-feira, março 23, 2007
As matriarcas (7)
Às 7 horas da manhã, o sino da igreja badalou anunciando a primeira missa do dia. Nem mesmo o sermão de Pe. Miguel escapou de referenciar o fenômeno. Por mais que ele tentasse explicar não havia jeito.
Os mais idosos estavam temerosos, pois ainda guardavam consigo antigas crendices escatológicas. A meninada queria ficar acordada para ver a lua tingir-se de vermelho.
Naquele dia, apenas eu e mamãe fomos à Igreja. Saímos cedo, sorrateiramente, para que a bisa não notasse. Mamãe não dava ouvidos às manias da cidade e para não exasperar a bisa e nem contrariar suas regras, preferiu não ser vista.
Quando voltamos da missa, a casa estava toda fechada. Apesar do imenso calor, as janelas estavam cerradas, as cortinas baixas, portas chaveadas. Diante do oratório, a bisa rezava o terço pedindo misericórdia à Virgem Maria para que “São Pedro não acabasse em chamas”. Tia Margarida andava de um lado para o outro da casa e atrás dela vovó Totonha com um copo de água com açúcar:
- Bebe, Guida, vai te acalmar.
Eu não entendia porque um simples eclipse causava tanto desequilíbrio na rotina de todos. Tudo o que eu mais queria era pegar minha bicicleta e rumar para a clareira quando chegasse a hora. Queria observar tudo de perto.
À noite, após o jantar, levantei-me depressa da mesa e fui caminhando em direção ao quintal. A bisa puxou meu braço e perguntou:
- Onde é que a mocinha vai?
- Guardar a bicicleta – respondi gaguejando, sinal evidente da minha mentira.
- Ninguém sai de casa hoje, Olívia.
- Mas bisa, eu combinei de encontrar a turma na clareira.
- Amanhã, Olívia. Amanhã.
Chateada, fui para o quarto. Foi assim que perdi o primeiro eclipse da minha vida.
domingo, março 18, 2007
Literaturas Comparadas
O OFÍCIO DE ESCREVER
Uma Oficina Literária não ensina um indivíduo a escrever, no sentido de dar-lhe qualquer tipo de receituário, mas a desenvolver suas habilidades como escritor; daí ela designar-se “oficina” ou “laboratório”. A Oficina Literária é um lugar de treinamento, para onde o indivíduo leva seus textos e os vê discutidos por colegas e por profissionais da área que os vão ajudar a aprimorá-los. Esses textos são reescritos diversas vezes, à medida que as contribuições dos demais participantes vão atuando sobre o autor, e este vai gradativamente aprimorando sua escrita até chegar a uma forma que o satisfaça naquele momento. É um trabalho coletivo, de enriquecimento mútuo, porque todos os participantes apresentam textos que são constantemente reescritos e reelaborados, a partir das contribuições oriundas das discussões com os demais. A Oficina Literária Afrânio Coutinho foi uma experiência pioneira nesse sentido e que produziu grandes frutos. Diversos poetas e contistas, por exemplo, ganharam muita projeção depois que a freqüentaram. E ela marcou a vida cultural do Rio de Janeiro na década de 1980.
AFRÂNIO COUTINHO
O meu pai exerceu uma influência constante em minha vida, sobretudo pelo exemplo de grande intelectual, erudito, mas ao mesmo tempo simples, sem sofisticações, de extraordinário pensador, sempre inquieto, indagando sobre tudo, e pelo seu caráter de pioneirismo que o levou a construir coisas como a Faculdade de Letras da UFRJ, com seus cursos de pós-graduação, modelares durante tanto tempo, e uma obra crítica e ensaística sólida, que se ergueu contra a crítica puramente impressionista, introduzindo uma perspectiva mais científica na abordagem do fenômeno literário. Ele foi sem dúvida o introdutor do New Criticism no Brasil, mas o tipo de crítica que ele aqui desenvolveu diferiu também do New Criticism na medida em que nunca deixou de lado a importância do contexto. Dentre suas diversas obras, A Literatura no Brasil tem-se destacado pelo seu cunho de monumentalidade. É uma obra de história literária coletiva que ele idealizou e coordenou, tendo escrito inclusive muitos de seus capítulos, a maioria dos quais foi reunida em outro volume, publicado sob o título de Introdução à Literatura no Brasil. É uma obra em seis volumes, que abrange toda a produção literária canônica brasileira, desde suas primeiras manifestações até o período de sua produção (2ª metade do século 20), e que foi amplamente reeditada, achando-se já na 6ª edição, atualizada. Minha participação na obra restringe-se apenas às últimas edições, que eu ajudei a rever e atualizar, e para as quais contribuí também com um capítulo sobre o Pós-Modernismo.
LITERATURA BRASILEIRA
Acho que a literatura brasileira já construiu um espaço no cenário internacional, tanto que ela é estudada com interesse nas universidades de diversas partes do mundo, como nos EUA e na Europa Ocidental. Em alguns países, como, por exemplo, a França ou os EUA, há inclusive formação em Literatura Brasileira. Na América Hispânica ela está despertando um interesse cada vez maior e está penetrando cada vez mais os currículos universitários. No que diz respeito ao caráter estético-literário das obras, acho que a nossa produção não deixa nada a dever com relação às grandes literaturas do Ocidente. O que dificultou durante muito tempo o conhecimento de autores brasileiros no exterior foi a barreira idiomática, mas isso está sendo superado graças ao número cada vez maior de traduções que se têm feito de obras de nossa literatura. E essa quantidade de traduções demonstra, por sua vez, melhor do que qualquer outro aspecto, o interesse que há por tais obras.
PÓS-MODERNISMO
O que vem sendo designado de Pós-Modernismo no meio acadêmico atual é um movimento surgido nos Estados Unidos na década de 1960 como reação aos excessos do Modernismo anglo-saxão e das correntes teórico-críticas imanentistas, que haviam dominado o meio intelectual e artístico na década precedente. Surgiu com figuras como John Barth e Thomas Pynchon, no campo da literatura, e Andy Warhol na esfera das artes plásticas, e teve como uma de suas principais preocupações a crítica às chamadas “grandes narrativas da modernidade”, para empregar a expressão de Lyotard, um de seus mais destacados teóricos. O Pós-Modernismo cresceu e se espalhou bastante nas décadas seguintes, estendendo-se a outras partes do mundo e aos mais variados setores do conhecimento, e associando-se às lutas políticas que se vinham então desenvolvendo por parte dos grupos minoritários. Na literatura, ele foi amplamente marcado pela auto-referencialidade das obras e pela preocupação com a contextualização histórica, como reação à supervalorização do caráter autotélico do texto defendido pela estética anterior e pelos adeptos das correntes imanentistas. Na América Latina, a discussão sobre o pós-moderno chegou na década de 1980, dividindo a crítica entre os que aceitavam a designação e os que a consideravam mais uma importação forânea, pouco compatível com o nosso contexto. Deixando de lado as divergências e polêmicas que se desencadearam a partir daí, fato é que o termo hoje vem sendo aceito pela crítica acadêmica para designar, sobretudo, um tipo de produção que se diferencia da modernista em alguns aspectos significativos, dentre os quais a presença constante da mídia, a auto-referencialidade citada, os experimentalismos flagrantes e a necessidade premente de reler obras anteriores com o olhar do presente.
FUTURO DA LITERATURA
Eu não acredito que o mundo audiovisual venha a acabar com o livro ou com o prazer da leitura. São coisas diferentes que não me parecem incompatíveis. Ao contrário, acho até que as formas de expressão audiovisual podem contribuir para o interesse pelo livro, como é o caso dos filmes ou das novelas de televisão baseadas em obras literárias que têm contribuído bastante para a venda dessas obras. Não sou pessimista quanto ao futuro do livro.
Parabéns ao portuga
Antonio Lobo Antunes, um dos escritores de língua portuguesa mais lidos e traduzidos no mundo, é uma das principais figuras da literatura de seu país.
Lobo Antunes pertence a uma família da grande burguesia portuguesa. Nasceu em 1942. Estudou Medicina e depois se especializou em psiquiatria. Trabalhou em um hospital de Lisboa antes de dedicar-se exclusivamente a escrever, a partir de 1985.
O serviço militar, que cumpriu em Angola de 1971 a 1973 durante as guerras coloniais portuguesas na África, inspirou vários romances.
Entre outros livros é autor de Memórias de Elefante, Os Cus de Judas , Conhecimento do Inferno, Boa Tarde Às Coisas Aqui Embaixo e O Manual dos Inquisidores.
O Prêmio Camões, que vale 100.000 euros, foi creado em 1988 por Portugal e Brasil para distinguir os autores de língua portuguesa que contribuem para o enriquecimento do patrimônio cultural deste idioma.
terça-feira, março 06, 2007
As matriarcas (6)
Sobre a porta da loja lia-se a placa talhada na madeira: Oficina do Gegê. Como a porta estava aberta, fui entrando. Era um galpão de aproximadamente uns vinte metros quadrados sem qualquer organização. Havia pneus, câmaras de ar, remendos por toda a loja; pedaços de bicicleta – raios, pedais, selim, guidão – espalhados no chão. Era difícil caminhar por ali.
Já que não havia ninguém para atender, resolvi bater palmas – um velho hábito do interior – para pedir ajuda.
- Ô de casa!Nenhuma resposta.
- Ô de casa. Tentei novamente, mais forte dessa vez.
Lá do fundo da loja alguém respondeu:
- É já.
Em alguns segundos, surge uma figura simpática e bonachona. Entrou sorrindo largo, dentes branquíssimos, cara redonda. Não me restaram dúvidas. Só podia ser o pai de Tiziu, afinal, eram os mesmos olhos brilhantes.
- Bom dia, moça.
- Bom dia, Sr. Geraldo. Eu sou Olívia e...
- Ah! O Tiziu me falou da senhora. A professora lá da capital.
Segurei firme o riso. Fiquei imaginando como teria sido o relato daquele moleque. Ele viu os livros que trouxe e deduziu que sou professora. O que não deve ter sido muito animador, uma vez que a escola não é assunto que lhe pareça agradável.
- Isso mesmo. Ele disse-me que o senhor poderia conseguir uma boa bicicleta pra mim.
- Eu posso, mas é de segunda mão. Não se importa?
- De forma alguma. Como não vou ficar muito tempo, talvez um mês ou dois, pensei em alugar uma.
- Alugar? Nunca fiz isso, não senhora. Eu conserto, pinto, monto, desmonto, mas alugar... é novidade. Eu posso emprestar.
- Não, Sr. Geraldo. Veja aí uma bicicleta e diga o preço. Eu compro. Quando eu for embora, deixo para o senhor arrumar uma venda, um bom negócio.
Saí de lá montada numa bicicleta vermelha, com raios brilhantes, retrovisor e uma buzina de som extravagante.
É. Bicicleta é um meio de transporte sério em São Pedro das Missões.
quinta-feira, fevereiro 15, 2007
Vitrine (3)
segunda-feira, fevereiro 12, 2007
As matriarcas (5)
- Bom dia.
- A senhora gostou do quarto?
- Sim, está confortável. Obrigada.
- Se precisar de alguma coisa...
- Na verdade, preciso, sim. Quero dar uma volta pela cidade, mas primeiro preciso encontrar o Tiziu. Ele disse-me que seu pai conseguiria uma boa bicicleta para mim.
- Ah, sim! Neste horário, o moleque Tiziu deve estar no Grupo Escolar, mas a loja do Geraldo fica bem perto daqui. Venha, eu mostro pra senhora.
De fato, a loja era bem perto. Do outro lado da praça, para ser mais precisa. Parece que tudo de relevante para a cidade ficava na praça da Matriz. Igreja, coreto, hotel, uma sorveteria e a loja do Sr. Geraldo.
Lembro-me perfeitamente das missas de domingo na Matriz. Eram longas, demoradas demais mesmo. Causavam sonolência nos fiéis. No entanto, era o dia mais movimentado e esperado da semana. Mamãe punha-me laços no cabelo. Vovó Totonha usava seu colar de pérolas – presente de casamento – e vestido de linho branco muito bem engomado. A bisa, como era muito gorda, estava sempre de chambre de algodão e um coque trançado. Tia Margarida, muito alta, pernas longilíneas, gostava de saias plissadas e de perfume. Ela passava tanto que eu ficava enjoada, mal conseguia tomar café da manhã, mas nunca a repreendi, nunca pedi que abandonasse tal prazer, afinal eles eram tão poucos.
Depois da missa começava o melhor: pipoca, algodão doce, bandinha tocando, as crianças correndo livres pela praça. Na época de quermesse, tia Margarida vendia seu famoso licor de jenipapo e vovó Totonha levava seus deliciosos beijus. Eu voltava para casa com dor de barriga.
Tia margarida, antes de ficar doente, dava aulas no Grupo. As crianças adoravam-na. Faziam fila na barraca para provar do seu licor, que era muito doce e tinha quase nada de álcool. Eu sei porque experimentava em casa. Ela dizia “a prova final é a Olívia quem dá”.
- D. Olívia. D. Olívia.
- Tiziu! Eu procurava mesmo por você.
- É?
- É. Estava indo à loja do seu pai alugar uma bicicleta, mas me diga, você não deveria estar na aula, mocinho?
- Eu tava, mas é que... é que...
- Mas é que você está cabulando aula.
- Não conta nada para o meu pai, por favor.
- Não conto se você der meia volta.
O bico habitual surgiu em seu rosto.
- Esse bico de novo, não! Volte para a aula e mais tarde convido você para um passeio de bicicleta e ainda contrato seus serviços de guia. O que acha? Vai querer?
O olhinho dele brilhou. O bico sumiu.
- E a dona paga? Quanto?
- Pago, claro que pago. Combinamos isso depois. Agora volte já para a escola.
domingo, fevereiro 04, 2007
A estrutura abismal – mise en abyme – nas artes plásticas, no cinema e na literatura
Uma obra dentro da obra, a ficção dentro da ficção: a célebre cena do drama shakespeariano em que Hamlet pede para que uma companhia teatral encene diante da corte o assassinato do seu pai, o rei Hamlet, a fim de desmascarar os culpados, observando a reação deles à peça, é um exemplo clássico e bastante citado de mise en abyme.
“Relato interno”, “duplicação interior”, “composição em abismo”, “construção em abismo”, “estrutura em abismo”, “narração em primeiro e segundo graus”. Todas essas denominações se referem, em português, a uma técnica narrativa, inspirada originalmente em procedimentos encontrados nas artes plásticas (pintura) e que, posteriormente e com as adaptações necessárias à especificidade de cada forma de arte, chegou à literatura e ao cinema. Tal técnica consiste em colocar uma história dentro da história, como um enclave – uma narração secundária que de algum modo se desenvolve a partir da ficção original.
No ano de 1891, o escritor e ensaísta francês André Gide utilizou e teorizou sobre o termo mise en abyme em seus Diários. Era a primeira vez que, em literatura, a nomenclatura era empregada – anteriormente tinha sido utilizada no estudo dos brasões (heráldica); o abyme (abismo) era uma reprodução em miniatura, no centro do escudo, da sua própria forma total, o que dava uma sensação de repetição infinita do mesmo. Os escritores do nouveau roman utilizaram com freqüência o procedimento, que se tornou quase uma marca do movimento.
Os jogos de espelhos dentro da narrativa, para o leitor ou espectador mais atento, permitem alternar os momentos de realidade da vida com os da realidade da obra de arte: uma recriação da experiência da vida real imiscuída à experiência criativa e estética. É importante ter em mente que o reflexo do fragmento incluído não possui sempre o mesmo grau de analogia com a obra que o inclui, variando de acordo com a interação que o artista quer estabelecer entre os níveis da narrativa.
Para Lucien Dällenbach, principal teórico deste conceito, mise en abyme é “todo fragmento textual que mantém uma relação de semelhança com a obra que o contém”, funcionando como um reflexo, um espelho da obra que o inclui. Autores como Shakespeare, Borges, Kafka ou o próprio Gide utilizaram essa estrutura para colocar em xeque o próprio conceito de ficção e, por conseguinte, a própria definição de real. Alguns estudiosos acreditam que essa forma metanarrativa gera uma sensação de maior ficção (como se o leitor fosse ainda mais atraído para o jogo da criação), porém, outros autores pensam que o recurso alerta o público-leitor para a “irrealidade” da trama.
*Jornalista e editor da Continente Multicultural.
sábado, fevereiro 03, 2007
As matriarcas (4)
Havia mais do que as lembranças de vestidos e passeios, das mãos hábeis de vovó Totonha e de sua força. Havia também a “loucura” de tia Margarida, a fragilidade das figuras masculinas – vovô Nico, tio Tatá e o meu próprio pai.
Ah, tinha também D. Lola, minha bisa! O ano que morei em São Pedro foi o primeiro e último do nosso convívio. Eu lembro-me tão bem de seus cabelos de nuvem – branquinhos e longos, muito longos. Eu passava a tarde a penteá-los e depois os trançava. Ela dormia na cadeira de balanço enquanto eu fiava suas madeixas. Bisa Lola estava quase sempre dormindo, rezando ou comendo. Quando morreu, pesava mais de cem quilos e tinha uns noventa anos.
Certo dia, vovó Totonha pediu que eu a acordasse para lanchar. Chamei e ela não respondeu. Brinquei nas suas tranças e ela lá, imóvel. Cutuquei e seu corpo estava gelado. Não demorei a perceber que o sono que dormia não era somente profundo, mas eterno. Foi então que descobri que a morte é fria e silenciosa.
Gritei por mamãe e vovó. Pedi que acudissem. Até tia Margarida veio ver o motivo de tanto barulho. Ao perceber o que acontecia ficou trêmula num cantinho da sala, repetindo sem parar, numa voz débil e baixa: “deixem a mamãe dormir”.
Vovô não estava em casa. Mamãe e vovó carregaram a bisa até o quarto. Foi grande a confusão. Mamãe não sabia o que fazer primeiro e numa rapidez incrível, deu o remédio de tia Margarida e depois fez com que deitasse; puxou minha mão e disse-me para subir na bicicleta e trazer ajuda.
Vovó Totonha não verteu lágrima, ficou firme o tempo todo. Com a ajuda de mamãe deu banho e vestiu a mortalha na bisa, puxou a reza, encabeçou o cortejo até o cemitério. Mais atrás, as mulheres carpideiras seguiam os homens. Foram necessários seis deles para carregar o caixão.
Depois de tudo, três coisas nunca saíram da minha memória: o cheiro de lavanda na casa, Tia Margarida na chuva e claro, a primeira vez que vi Vovó Totonha chorar.
sexta-feira, janeiro 26, 2007
Homenagem ao maestro
Para você Tom, muito mais que músico.
Brasil: Um país lindo e com nome de árvore. O Pau-Brasil é hoje uma raridade. O Brasil era um paraíso, um país mateiro, grande Nação Florestal. Floresta com onça, anta, macuco, madeiras preciosas que nem foram utilizadas mas queimadas, as queimadas que começavam em Minas e iam até as praias do Espírito Santo. Queimar; fogo, sempre fogo na fabricação demente, insana, do deserto. Depois vinha a chuva e carregava os restos e vinha o sol e cozinhava o chão. Ao lado a voçoroca, o buracão profundo. Insensatos. A superfície da terra virou uma moringa, uma telha.
Amanhece no interior do Boing Jumbo 747 da Varig. Lá embaixo Minas, Zona da Mata. Não tem mais mata. Estamos chegando... cadê a Floresta Atlântica? E a terra despencando morro abaixo. Um compatriota, sentado ao meu lado diz: Os americanos já destruíram suas matas, seus índios; nós temos os mesmos direitos... Meu Deus, o que que os índios pensarão disto, o que as árvores pensarão disto? Chico Mendes falou na TV americana em bom português: vão me matar, não mandem flores, deixem as flores vivas na floresta.
Com legendas, em inglês.
terça-feira, janeiro 23, 2007
As matriarcas (3)
Ensinou-me a fazer contas. Toda a tarde tomava-me a tabuada com direito à prova dos nove. Ralhava quando me via contar nos dedos, coisa que ainda hoje faço. Ela esmerou-se, mas sempre fui péssima em matemática, não tenho a menor afinidade com os números.
Coisa que eu gostava era vê-la costurar. Fazia coisas lindas. Lembro-me de um vestido de casamento todo de organza. Sonhei com ele por muitas noites, imaginando-me naqueles saiotes rodados, flutuantes. Ele tinha flores aplicadas que ela mesma fez. Recortava os moldes, passava goma no tecido e depois metia-lhe o ferro quente para moldar as pétalas. Eu olhava tudo aquilo maravilhada, com olhos de admiração e cobiça. Um dia teria um vestido como aquele, cheio de flores e laços.
Vovó Totonha sempre fez minhas roupas. Só comecei a usar roupas de lojas no colegial, quando minha mãe comprou meu primeiro jeans. De resto, tudo era feito por vovó. As outras meninas morriam de inveja porque minhas roupas eram únicas. Nunca corri o risco de ver alguém com o mesmo modelo. Não sabia eu que a exclusividade das minhas peças não era um capricho ou vaidade, mas contenção de despesas. Melhor assim, ao invés de carregar o trauma da pobrezinha, desfilei com brejeirice o prêt-a-porter de vovó Totonha.
Ela também me ensinou a bordar, fazer crochê, capas de almofada, trabalhar com retalhos... de todas essas atividades manuais, a única habilidade que me restou foi manejar a caneta e isso também devo a ela que alternava a lição da tabuada com as aulas de caligrafia. Eu adorava desenhar as letras na pauta, vê-las transformando-se em palavras redondinhas sobre o papel.
segunda-feira, janeiro 15, 2007
As matriarcas (2)
- Eu ajudo meu pai.
- E o que seu pai faz?
- Ele é ferreiro. Conserta as carroças e bicicletas de todo o povoado.
- Parece divertido.
Ele deu de ombros.
- E a escola?
- O que tem?
- Como o que tem? Você estuda, não estuda, Tiziu?
- Estudo, mas não gosto muito. Eu gosto mesmo é de correr por aí no meu cavalo.
- Uma coisa não impede a outra
Mudou de assunto:
- A dona é parente do Nhô Agenor?
- Não.
- Então o que veio fazer aqui?
- Uma pesquisa.
- Não entendi.
- Quero saber sobre algumas pessoas que viveram aqui.
- A dona é da polícia?
Não pude evitar o riso. Sua pergunta continha tanta excitação e aventura.
- Não, Tiziu. Eu conto histórias e elas viram livros.
- Ah! – exclamou todo frustrado.
Minha vez de mudar de assunto:
- Tiziu, será que seu pai me aluga uma bicicleta? Acho que vou precisar de uma.
- Claro. Depois eu levo a senhora lá na oficina para escolher uma bem bonita.
- Ótimo.
- Chegamos.
A pensão do Agenor era um casarão estilo colonial, antigo, mas bem conservado. Móveis rústicos, toalhas de linho, portas pesadas, assoalho brilhando e um cheiro forte de óleo de peroba.
- Vou pegar suas malas.
- Obrigada.
Agora que eu já recuara no tempo, deveria ir até o fim. Sabia que não se tratava de uma história qualquer.
sexta-feira, janeiro 12, 2007
As matriarcas (1)
Desço e o chefe da estação grita as boas-vindas. Ele ainda se veste como os antigos chef de gare do final do século XIX. Sua roupa não tem um único vinco, o quepe está impecável em sua cabeça, mas a estação está abandonada, tudo é só pó, paredes rachadas precisando de tinta. São Pedro das Missões parou no tempo. Todas as coisas têm cheiro de passado.
- Por favor, como faço para chegar até a cidade? Poderia me conseguir um táxi?
O chefe sorriu:
- Em São Pedro não temos táxi ou ônibus. Mas posso conseguir uma charrete.
Uma charrete!! Meu Deus, o povoado ainda usa charretes. Depois de trezentos quilômetros trepidando num trem ainda terei de agüentar uma boa meia hora numa carroça.
- Pois que seja.
- A dona não é daqui, vê-se logo. O que a traz a esse fim de mundo?
- Meu ofício.
Saquei da bolsa minha cadernetinha de anotações. Chico do táxi. Chico, segundo relatos da vovó, era o único do povoado que tinha carro. Um velho Ford amarelo que ele usava para prestar socorro aos moradores. Nunca cobrava pelos serviços.
- o que aconteceu com o Chico do táxi?
O homem arregalou os olhos como se tivesse visto uma assombração. Será que disse algo errado?
- O Chico morreu, dona. Faz três anos.
- Lamento muito. Deixe que eu me apresente. Sou Olívia, neta de Totonha, bisneta de D. Lola.
Pensei que o homem fosse morrer na minha frente. Ficou paralisado com uma estátua de sal.
- Minha avó contou-me muitas histórias daqui.
- Prazer, D. Olívia. Desculpe o espanto, mas tem tanto tempo.
- Eu sei. Estive aqui uma única vez. Eu tinha sete anos na época. Retive algumas coisas na memória e pelo que vejo, não mudou muito. Achei que fosse ter um impacto, mas sinto-me como a menina de sete anos.
- É, as coisas não mudaram muito mesmo. Vou chamar um moleque para levá-la até a cidade. A senhora deve está cansada.
- Estou mesmo. Diga-me, a pensão do Agenor ainda existe?
- Existe, sim.
- Tiziu, ó Tiziu vem cá, menino.
Tiziu era um garoto negrinho como a noite, mas tinha olhos enormes e um sorriso tão branco e largo que espantava qualquer medo ou receio. Porque devo confessar, estava receosa com os fantasmas que encontraria.
- Olá Tiziu. Eu sou Olívia. Poderia me deixar na pensão do Agenor?
- Posso, sim, dona. Tenho o cavalo mais rápido e valente daqui.
- Então, vamos.
- Tiziu, não vá em disparada. Não apronte nenhuma com a moça.
Ele amuou e murmurou um “tá bem” a contragosto. Agradeci ao chefe da estação. Quando a charrete ia adiantada, ele gritou:
- Esqueci de dizer, sou mestre Antônio.
Acenei com a mão e respondi.
- Eu sei.
Um poema que me marcou...
"Em legítima defesa
...
in Volume II - Ruy Belo
quarta-feira, janeiro 10, 2007
Feliz Aniversário!!!!
sábado, janeiro 06, 2007
De volta à programação "quase" normal
- E se tudo não passar de uma grande ilusão? Se estivermos todos mergulhados tão profundamente no sono que passamos a acreditar que isto é real?
- Como assim?
- Esquece. É mais um dos meus delírios, mais uma das minhas tentativas de colocar lógica, alguma razoabilidade na vida.
- És doida.
- Eu sou – riu-se.
- Essa paz de que falas, que almejas fica cada dia mais distante, não vês? Nunca a terás se quiseres controlar tudo, entender tudo, explicar tudo. Há coisas que não se explicam, são os mistérios insondáveis da alma, da vida.
- Estás a dizer-me que somos títeres? Um bando de levianos?
- Não, estou a dizer que somos diferentes e temos padrões éticos e morais conflitantes. Há quem ache banal coisas que consideras importante. E o que vias fazer? Passar a vida em dor ou aceitar que toda essa gente não é par para ti, mas pode ser para outros?
- Sou obtusa, incontestavelmente – debochou.
- Sabes que é isto que te salva da insanidade? Teu humor ácido, tua ironia, teus deboches.
- Cada um defende-se como pode.
- É quando não te levas tão a sério que posso ver tuas asas.
- Não tenho intenção de escondê-las, mas sim de usá-las sem medo ou restrição. Mas há tantos muros...
- Sempre haverá, mas tens a opção de voar alto, acima deles.
- Então compreendestes, finalmente, o meu dilema.
- Compreendi?
- Voar acima deles instalará tal distância que o convívio tornar-se-á impossível e ficar próxima limita-me a envergadura.
- Alguns dilemas são cárceres, labirintos sem saída ou, no máximo, de uma saída só: matar ou morrer. Outros, porém, são multifacetados; abrigam muitos caminhos, promovem a busca do equilíbrio, entendes? Podes traçar um plano de vôo onde tuas asas toquem as duas extremidades.
Ela riu.
- Do que ris?
- Dessa conversa, da tua amizade, do diálogo em espiral...
- Explica-me.
- E sou eu quem gosta de explicações!
- Minha culpa, minha máxima culpa.
- O riso vem do prazer de ter alguém confrontando sem guerras, do cuidado em confortar e buscar – juntos e de modo inclusivo – alternativas possíveis, do movimento quase cênico em apresentar idéias, como se bancássemos o advogado do diabo um do outro.
- Tudo filosofia barata regada a bom vinho.
- In vino veritas.
sábado, dezembro 23, 2006
Feliz Natal
NOITE FELIZ
(Adélia Prado)
Dói tanto que se pudesse diria:
me fere de lepra.
Mas que importa a Deus o monte de carne podre?
Tem piedade de mim, Vós, cujo filho duas vezes gritou,
apesar de ser Deus. Me dá um sonho.
É como se meu pai não me amasse
não tivesse dado a vida por mim.
Só belos versos, não.
Uma linha depois da outra,
tão finamente escritas,
com tão primoroso fecho –
e o que sinto é cansaço.
Basta a beleza própria
da estocada das coisas no meu peito.
Comer, sonhar, talvez morrer, quem sabe?
A morte existe, ô pai?
Sei que na Polônia católica
ninguém escreveu com estas mesmas palavras
na carrocinha de doces:
“para todos e sua família desejo um feliz natal”.
No Brasil, sim, na minha rua,
Usando uma língua pobre e uma caneta de cor,
alguém sentiu o inefável.
Não se perderá o fermento, ó comadre.
Bebem? Não pagam as contas?
- Vamos fazer um teatro...
Tem máscara do boi, do burro,
As vestes de José e Maria,
tem a roupa do homem que negou hospedagem
mas que veio depois, depois da estrela,
dos anjos, depois dos pobres pastores, e mais recebeu.
Porque não merecia.
Sou miserável.
Um monte de palha seca
É a obra de minhas mãos.
Tem piedade de mim,
Desce, orvalho do céu,
Desce sobre nós,
Restabelece o fio das conversas saudáveis.
Traze a fresca manhã.
quinta-feira, dezembro 21, 2006
Fado
Acostumamos a nos confessarmos no silêncio das palavras. Somos capazes de discernir se a pena pesa ou não na mão pela forma de nos expressar. Encontramo-nos perfeitamente na ausência de sons.
Mas ontem, finalmente, sua voz alcançou-me e isso pareceu-me um fado cheio de sentimentalidades.
Ouvi-lo foi como reconhecer minha metade perdida.
terça-feira, dezembro 19, 2006
Anthony by the sea. Nan Goldin
I carry your heart with me (i carry it in my heart)
I am never without it (anywhere
I go you go, my dear; and whatever is done
by only me is your doing, my darling)
I fear not fate (for you are my fate, my sweet)
I want no world (for beautiful you are my world, my true)
and it's you are whatever a moon has always meant
and whatever a sun will always sing is you
here is the deepest secret nobody knows
(here is the root of the root and the bud of the bud
and the sky of the sky of a tree called life; which grows
higher than soul can hope or mind can hide)
and this is the wonder that's keeping the stars apart
I carry your heart (i carry it in my heart)
E.E. Cummings
domingo, dezembro 10, 2006
Teorias amorosas (11)
- Volta pra mim!
Com esta, encerra-se a série Teorias amorosas.
quinta-feira, dezembro 07, 2006
Teorias amorosas (10)
até o amor cair
doente, doente”.
Depois de colocar-me definitivamente para fora de sua vida, disse, comovida como o diabo, as seguintes palavras:
“Apesar da separação (tão desejada por ti), continuo amando-te. Não te envaideças por isso. O mérito é todo meu. Independente de ser ou não correspondida, vou amar-te até o fim, até o fim do meu amor”.
sexta-feira, novembro 24, 2006
Uma pausa para a delicadeza
domingo, novembro 19, 2006
O diário de G.H (8)
Eu não queria machucá-la. Não fora essa a minha intenção. Tocar sua chaga aberta fora um gesto involuntário. Quisera estancar o sangue e repor, se possível, o pedaço que lhe faltava.
Foi aí que me lembrei daquela casquinha no meu peito e dos olhos... ah, aqueles olhos! Lembrei-me também do empurrão que ela me dera. Ela instigara-me, comunicara-me de alguma forma sobre a ferida que se abriria nela, em nós. Tentou avisar-me e não compreendi o que seus olhos viram com antecedência.
Depois disso, ela se retraíra no meu interior, mas eu podia sentir perfeitamente a sua respiração.
Eu continuava tropeçando nas minhas muitas pernas, na ânsia louca de reencontrá-la, mas ela parecia não querer novo contato, como se temesse um descuido, um susto, uma dor. Contudo, eu continuava esperando por ela, pelo diálogo interrompido. Esperaria o tempo necessário.
Chegamos a um ponto em que retroceder não é possível.
Aquela eterna angústia, aquele desconforto de não me saber, de não conseguir identificar as tantas partes do meu todo, tudo isso clamava por definições e essa era a minha chance. Não viveria mais tropeçando em mim, não evitaria mais os movimentos por temer arranhar ou quebrar alguma estrutura interna. Estava exausta de pisar mansinho para não afugentar meus ‘convidados’. Convidados qual o quê! Não chamei ninguém para dividir meus cômodos. Eles simplesmente vieram com uma bagagem enorme. Tinham muitas perguntas, falavam simultaneamente, suas vozes uniam-se em coro à minha própria voz. Eu sei, eu sei que vieram para ficar. Dadas tais circunstâncias, compartilharíamos nossas muitas metades.
Adormeci, mas de madrugada acordei sentindo cócegas nas minhas coxas, no ventre, como se milhares de formigas caminhassem sobre mim.
Acendi a luz. Ela deixara um recado.
sexta-feira, outubro 27, 2006
Teorias amorosas (9)
- Susie?
- Quem é?
- Ulisses.
Após seis anos do mais absoluto silêncio, Ulisses resolveu aparecer. Assim simplesmente como se seis anos fossem seis dias.
- Susie?
- Oi.
- Estou na sua cidade.
- Ah, está?
- Sabia que me separei?
- Não, não sabia. Na verdade, eu nem sabia que você havia casado.
- Estou com saudades. Quero muito te ver, sair, conversar, tomar um vinho...
- Me comer... Tudo exatamente como antes, como se a última vez tivesse sido ontem, né?
Cinicamente, ele responde:
- Ai! Você não mudou nada. Continua cortante.
- Também você não mudou nada. Continua um cretino.
Teorias amorosas (8)
- E é assim que você me ama?
- ‘Alguém’ me ensinou a máxima: vai doer, mas depois passa. Passou.
- Tempo rápido o teu, hein?
- Não culpe o tempo. Ele não mitiga nada. Não é atenuante. Seu único mérito é deslocar o foco da nossa dor. E quer saber? Vá à merda.
- Que ridículo. Depois de velha, ficou obscena.
- Obsceno é o abandono. E velha é a tua mãe.
quinta-feira, outubro 26, 2006
Teorias amorosas (7)
Ele impassível: “Exatamente”.
Ela histérica: “Exatamente o quê?”.
Ele mais impassível ainda: “Amava. Não amo mais”.
Teorias amorosas (6)
Tentei contato:
- Que tal uma caminhada?
- Não tenho vontade.
- Já sei. Vamos sair, chamamos os amigos, tomamos uma cerveja.
- Vai você.
- Eu vou, mas e você?
Deu com os ombros.
- Esse teu silêncio é o que me mata.
De repente, num estalar de dedos, ele veio de braços abertos em minha direção. Ele sempre agia assim quando lhe faltavam argumentos, tão patético. Esquivei-me dos seus tentáculos. Seu abraço não iria mais abafar o grito:
- Do que você tem medo? Seja qual for o problema, eu não vou te abandonar!
- Talvez eu queira ser abandonado.
Talvez eu queira ser abandonado. Talvez eu queira ser abandonado. Isso ecoava nos meus ouvidos numa avalanche de sinonímia: “cai fora”, “eu não te quero mais”, “acabou”. Foi o que ele disse sem dizer. E se não foi, também não se retratou.
sexta-feira, outubro 13, 2006
Ash to ash, dust to dust
Não sei onde estão os caminhos que apontam para os recomeços.
Lanço os dados como quem inicia um novo jogo, mas por desconhecer as regras, não sabe como mover o pião. Ah, se eu pudesse, ao menos, discernir entre os pontos de partida e chegada, sentiria algum alívio, algum conforto.
Os dias são sempre iguais, ou pior, eles nunca são iguais aos que desejo. Uma estranha sensação de impotência apossasse-se de mim e tudo o que posso é transbordar meus rios subterrâneos.
Choro porque os dias são cinzentos, porque faz frio na minha alma; choro ao ler um poema, ao ouvir uma música, ao ver uma cena; choro porque colho rosas matutinas, mas não retenho em minhas mãos seu perfume; choro porque não consigo expressar o que sinto; choro de cansaço porque o cansaço é tudo o que me resta.
As palavras tornaram-se ermas. Hibernaram em busca de significados e o inverno, ah, o inverno é tão longo!
Enquanto o tempo arrasta suas horas, minha casa acumula poeira e eu me alimento de terra.
Teorias amorosas (5)
Passaram o dia mudos, evitando olhares, os mesmos cômodos. Um grande mal-estar tomou conta, a certeza do inconveniente, mas era 31 de dezembro e não dava mais para cancelar a ceia caríssima que haviam pago há dois meses atrás.
Então vieram a noite, as luzes, o brilho, o champanhe e os fogos. Dez minutos ininterruptos de fogos.
Melancólica, encostou a cabeça no ombro dele. Ficaram assim por um momento e depois foram embora.
Ele abriu a porta do carro. Ela pegou a valise e antes de despedir-se, observou:
- Sabe, olhando aqueles fogos, a explosão... acho que finalmente compreendi a nossa história.
- Sei. Breve, mas linda?
- Não. Muito barulho por nada.
segunda-feira, outubro 09, 2006
Ato de Contrição
- Como é bom rever-te bem, Dulce! Estás mais bonita. Emagreceste!
- O mérito é todo teu.
- ?
- Sofrimento combinado à inapetência é um coquetel infalível, meu caro. Deixa qualquer Spa no chinelo.
Sem graça, ele olhou-a bem no fundo dos olhos e com 180 dias de atraso disse:
- Perdoa-me pela minha incapacidade, pela maneira brutal como parti.
Os olhos de Dulce ficaram quentes e úmidos, seu rosto estava em brasa. Ela pensou que despejaria ali toda a sua dor, ira, desprezo e incompreensão. Que finalmente chegara o momento de cuspir todos os cacos de vidros que engolira, o fel; que o esmurraria, que cobraria a conta do analista, da farmácia; que o insultaria e pediria o ressarcimento por todos os danos, pelas poucas horas de sono, pelos dias não vividos, por cada ruga, pela memória quase perdida, pelo riso esquecido, pelos sonhos mofados. Mas para sua surpresa, não disse nada.
- Dulce, se pudesse voltar o tempo...
- Não podes.
- Eu sei, mas se pudesse, ajoelharia a teus pés (e já foi ajoelhando) e imploraria teu perdão. Pediria mais uma ‘última chance’. Eu sei, eu sei... já me deste a última chance pelo menos duas vezes, mas, Dulce, descobri que é a ti quem amo. Eu sinto tua falta.
Respirou fundo. Depois, serena e compassadamente, falou:
- Dá-me uma boa razão. Convença-me que mereces.
Amaro suou frio. Não podia desperdiçar a oportunidade. Então resolveu apelar para Deus.
- Porque és boa, Dulce. Tu és cristã e como tal compreendes que todos cometem erros e se os reconhecem são dignos de uma segunda chance.
Como é engraçado ver o ser humano em estado de desespero. Amaro ali súplice, na sua frente, de joelhos... por muito menos, ela o teria recebido de volta.
- Encontra-me amanhã, às três da tarde, em frente à Catedral.
No dia seguinte, às três horas em ponto, ele estava lá.
Um vendedor de flores aproximou-se e pôs-lhe um envelope nas mãos.
- Uma dona pediu para entregar, moço.
Amaro, podes escolher. Vá 1) PARA O INFERNO ou 2) PARA A PUTA QUE TE PARIU. Para teres certeza da nobreza de minha alma, certifiquei-me quanto aos endereços. Se ambos não forem o mesmo lugar, certamente devem ser casas vizinhas, de modo que não perderás a viagem.
P.S.: Bondade tem limite.
P.S2.: Se tinhas dúvidas, agora sabes: o Diabo também existe.
terça-feira, setembro 26, 2006
Teorias amorosas (4)
Na manhã seguinte, jogou-me num beco escuro e sem saída. Na plaqueta de identificação lia-se: Jardim do Éden.
quinta-feira, setembro 21, 2006
O diário de G.H. (7)
Preparei o banho tendo o cuidado de deixar o vapor tomar conta. Mergulhei na banheira disposta a deixar na água todos os meus medos. Eles escoariam pelo ralo e pronto. Seríamos eu e ela.
Habituei-me a chamá-la assim: ela. Não sabia de quem se tratava, mas estava certa do seu gênero.
Encarei o espelho prestando atenção na umidade que escorria por ele e pelas paredes. Não pude conter o gesto. Toquei no seu ‘suor’ e levei a ponta dos dedos aos lábios: tinha gosto de sal.
Passei a mão pela superfície lisa e a imagem dela surgiu. Ela é... ela sou eu! Não escondi o espanto, mas a imagem não respondia aos meus movimentos e expressões, permanecia imóvel, impassível, olhos oblíquos.
Como se lesse meus pensamentos, deixou transparecer sua inquietude e voltou a cabeça em direção ao seu peito.
Esfreguei novamente o espelho e vi aquilo com olhos surpreendidos e admirados. Ela tinha um buraco enorme vazando seu corpo, no peito, exatamente entre os seios.
Estendi meu braço a fim de alcançar sua ferida e de repente a imagem não estava mais lá.
terça-feira, setembro 05, 2006
Vitrine (2)
Espero que se enterneçam como eu.
sentei-me comigo. no outro lado da tarde. e já era tão tarde. entre nós o silêncio reconhecido. tarde demais. o de muitos anos. entardecido. a metade do espelho estalado pelos punhos de um monólogo longo a cruel onde às respostas tardias se colaram caminhos escavados com a alma cheia de nada. sentei-me comigo debaixo da oliveira. ao nosso lado o mar e a terrível claridade da água. filtro de todas as tardes metáforas ironias figurações e ecos.
Obrigada Mendes Ferreira!
Beijo.
terça-feira, agosto 22, 2006
Ratos, todos eles! Alimentam-se das sobras do pavor,
Roem nossos sonhos deliciando-se com seus sobejos.
Vis! Incapazes de um gesto ou palavra.
Dormem tranquilamente enquanto pernoito na escuridão.
São tão numerosos! O que podem os gentis contra eles?
sexta-feira, agosto 04, 2006
LuZ
Escuto Bach.
Meu Deus, que alma translúcida é essa?!
Escuto Bach. Elevo-me aos céus e penso: não pode haver avareza depois de Bach.
Os miseráveis deveriam, pelo menos uma vez ao dia, ouvir a abundância de Bach como prescrição médica.
- Doutor, tenho o coração seco.
- Ouça Bach, meu filho.
Ou então:
- Estou fazendo análise.
- Oh, que ótimo. Está gostando?
- Muuuito.
- Ele é reichiano?
- Não, é bachiano.
Nesses dias de ressaca, Bach é esperança pura. Fecho os olhos, abro os ouvidos da alma e posso ver a vida novamente: amores-perfeitos em flor; rosas amarelas – perfume sem frascos; um céu de azul-infinito.
Enquanto o mar em mim não acalmar, amanhecerei Bach. Todos os dias.
terça-feira, julho 25, 2006
Teorias amorosas (3)
www.photosearch.com.br
Antes de sair, ele beija-lhe a testa:
- Feliz aniversário.
Ela sorrindo:
- Não demoro. Nos vemos logo mais.
À tardinha, ela volta com o vestido novo e vê o envelope sobre a cama.
“No começo dói, mas vai passar.”
domingo, julho 16, 2006
Teorias amorosas (2)
- ...
- O que não pode nem deve acabar é a delicadeza do tempo, de tempos vividos.
- ...
- Garçon, um frisante.
- ?
- Brindarei às bolhas.
- O que tem elas?
- São como o fim do amor. Sentimos uma leve cócega ao final do gole que é para nos lembrar que não estamos de todo mortos.
quinta-feira, julho 13, 2006
Vitrine (1)

Meu amor, guardo-te ainda em mim, com a doce memória de quem te deseja em segredo. Queria-te mas não sei como, não sei onde. Preciso-te assim ausente, desaparecido de mim. Despido, nu e cru. Faz-me só amor. Até sempre.
– Faz-me só amor, peço-te. Percorre-me o corpo, adoça-mo. Quero ter-te em mim, sentir-te quente nos meus braços, sentir-te amargo. Percorre-me de ti, apossa-te de mim, do que me resta assim já morta. Toca-me com um dedo, germina-me. Fecha-me os olhos com saliva, prende-me a boca com mar, ata-me os braços de terra e enleia-te nas minhas pernas, transeuntes cansados. Cospe-me a alma, rasga-me o corpo, descobre-me os segredos e desata-me as lágrimas. Cobre-me de cor e diz-me baixinho: até sempre meu amor, até sempre. Olha-me a cantar, degola-me a sorrir. Gasta-me o corpo, mata-mo até ao fim.
– Meu amor, até sempre meu amor. Até sempre…
sexta-feira, julho 07, 2006
Teorias amorosas (1)
- Como assim?
- Ao menor descuido perfura nosso coração.
sábado, julho 01, 2006
Is it a joke?
- This will hurt.
- Why isn't love enough?
- I fell in love with her, Alice.
- Oh, as if you had no choice? There's a moment, there's always a moment, "I can do this, I can give into this, or I can resist it", and I don't know when your moment was, but I bet there was one.
A vida na sua brutalidade:
- Sim, nos afeta porque amamos...eu fico louca de pensar que alguém está desfrutando um cheiro, um beijo, da pessoa que eu amo...a gente tem o amor como a terminação nervosa.
- Descobri que pessoas não andam; bailam.
- Eu pensei, as pessoas não andam, elas são como as borboletas...tocam levemente o chão e por pouco tempo.
- Somos a nossa melhor piada e isso na verdade é puro desespero. Rir de nós antes que alguém note as feridinhas.
- As minhas feridas eu mesma lambo.
- Verdade... sou lúcida demais para ser feliz.
- As pessoas não estão preparadas para os lúcidos.
- O caminho tem pedras.
segunda-feira, junho 19, 2006
Das muitas mortes
Morremos quando o sangue congela nas veias e ainda assim a vida insiste em ficar.
quarta-feira, junho 14, 2006
Do silêncio
O suposto equilíbrio repousa no fio da navalha, uma escorregadela e o diapasão produzirá sons eternamente distorcidos.
Desvio meus olhos daquela imensidão azul e repouso meu ouvido no seu peito – rochedo que ampara as investidas das ondas.
No momento, tudo o que posso fazer é ouvir o líquido dissolvendo o concreto.
quinta-feira, maio 18, 2006
Sobre violência e queijandos
Sempre pensei no Glossolalias como um espaço eminentemente literário, mas depois do post A arte engajada, acho que as pessoas tiveram uma leve impressão do meu entendimento sobre o que é literatura.
Quem já me conhece há mais tempo, sabe exatamente que uso a palavra como uma forma de expressão artística, mas também para realizar minhas catarses e refletir sobre o mundo ao meu redor.
Devido aos últimos acontecimentos, não posso simplesmente me calar. Prometo não ser muito enfadonha nem fazer análise política da atual conjuntura brasileira, mas fica difícil manter-se alheio à crise dos poderes e do Estado.
Após assistir ao último Roda Viva, 15/05/06, fiquei pensando em como somos hipócritas e coniventes com as coisas. Os modismos vêm e vão e aderimos a ele sem pensar.
Lembro-me que, na época do ataque às torres gêmeas, a palavra de ordem era tolerância. Usamos exaustivamente essa palavra e – mea culpa seja feita – eu estou nesse rol.
“Temos que ser tolerantes com os nossos irmãos mulçumanos” – dizia uma manchete de jornal; “o presidente Bush precisa aprender o significado da palavra tolerância” – clamava outro.
Não, não sou pró-Bush!! Não estou defendendo mais violência. Estou fazendo um convite à reflexão, não política, não étnica ou seja lá mais o quê, vamos nos ater ao emprego dessa palavra em expressões da nossa língua.
Na adolescência, tinha uma amiga que sempre desabafava a crise conjugal dos pais comigo. Lembro bem dela me dizendo: “minha mãe não ama mais o meu pai, ela o tolera”.
Na faculdade, um amigo próximo adorava cozinhar e sempre nos chamava para jantar em sua casa. Invariavelmente, no fim da noite, depois de muito vinho, sua esposa expunha a cru a vida do casal, gerando constrangimento em todos. Eu também perguntei-lhe muitas vezes por que não se separavam. Sua resposta era algo parecido com “temos dois filhos e é preciso tolerar essa situação”.
Nem preciso dizer que as crianças eram pequenos tiranos, desajustados, assustados, sempre chamando atenção com comportamento de riscos (brincando com facas, subindo em mesas, etc). Esses mesmos pais toleravam toda a sorte de má criação porque se sentiam culpados e não queriam censurar ‘a liberdade’ dos filhos.
Tolerar é uma palavra ruim, digo, com um sentido ruim. Tolerar alguém é aturar, suportar. Estar numa situação em que aturamos alguém é muito desconfortável. Sempre que tivermos chance de pular fora, vamos pular e aí não mais toleraremos chefes boçais, empregos medíocres, relações falidas, pessoas sem limites.
Tolerar também me lembra via de mão única; passividade; permanência. Tolerar é sempre dizer sim, inclusive quando chega a hora de dizer não.
Mulheres espancadas continuam aturando a “caipirinha do fim de semana” e toda vez que aturam dizem sim ao comportamento violento dos parceiros. Tolerar não gera a mudança.
Homens toleram dondocas perdulárias e com isso elas jamais saberão o real valor das coisas. Serão eternamente perdulárias.
Pessoas toleram ciúme doentio e o doente enciumado vai morrer assim, castrador, desconfiado.
Tolerar negros, judeus, homossexuais na escola, trabalho, vizinhança não nos torna melhores. Isso é o mesmo que dizer, camufladamente, sou preconceituoso e finjo aceitar.
Não vou nem levar em consideração que existe um ganho, sim, em tolerar situações limítrofes, mas deixo essa análise para um psicólogo.
Eu não quero mais tolerar violência, corrupção, desamor, submissão, sobras, preconceito. O que eu quero é voltar a usar mais a palavra respeito.
Cristo, sendo Deus, não tolerou os vendilhões do templo. Ele disse não à conspurcação de um lugar sagrado, expulsando a todos. Talvez se tolerasse o comércio no local sem reação, eles continuassem, mas quando ele chamou atenção para a falta de respeito para com a fé, sua atitude fez a diferença.
Nem com nossos melhores amigos, família, parceiros concordamos o tempo todo. Não é possível, afinal somos indivíduos, mas se há respeito, então, temos tudo. A gente não deixa de admirar essas pessoas porque elas torcem para um time diferente do seu, pela sua cor, credo, orientação sexual, porque são de outra classe social. O que mantém os laços de amor, de dignidade, de humanidade, de ética é o respeito.
Respeito pressupõe, pelo menos, duas pessoas numa relação. O respeito implica mudanças, gera crescimento, amplia horizontes. O respeito dialoga. E a experiência pautada pelo respeito pode trazer alguma dor, um certo incômodo, mas parece que nós estamos muito ocupados para nos incomodar.
sábado, maio 06, 2006
O diário de G.H (6)
Lembro-me que ele espumava de ódio toda vez que me teletransportava. Podíamos estar no calor da maior discussão, mas se escutasse passos na calçada ou uma música que me tocasse, eu simplesmente não estava mais lá.
De repente, eu não estava mais lá nem aqui. Eu estava no vapor do banheiro, na palavra escrita a dedo no espelho. Era preciso voltar e descobrir não quem eu sou, mas qual delas sou eu.
Estava em casa, sentei-me diante do espelho oval adquirido num antiquário. "É um legítimo espelho da era vitoriana" - disse a vendedora toda afetada. Vitoriana era eu ali, parada, tentando reconhecer minhas verdades. E eu não queria que tais verdades fossem usadas como um pretexto para mentir. Confessar-me poderia ser uma grande vaidade e eu queria me despojar dela; queria tocar nessa coisa áspera que se oculta no breu da noite.
Essa coisa áspera era a tal AIRTEMIS? Quer dizer, SIMETRIA.
O que isso queria dizer?
Simetria seria essa minha pretensa vocação para organizar as coisas ao meu redor? Ordenar as coisas era o primeiro passo para meu processo criativo. Juntar fragmentos, liberar o caos para depois aprisioná-lo. Era como colocar os planetas em órbita. Mas a órbita de fora nada tinha de simétrica com a órbita da minha cabeça e das coisas efervescentes que agastavam meu juízo.
Foi então qu lembrei de G.H, estupefacta diante da barata.
Eu entendia seu horror e sua atração pelo inseto que sempre existira antes de toda e qualquer existência.
Suei frio só de pensar que aquela outra era imemorial. Era a matéria viva tentando rasgar minha pele morta e inexpressiva. Eu só consegueria sair vivificada se a enfrentasse e, numa atitude antropofágica, a devorasse.
Fiquei atenta aos movimentos. Era irremediável o encontro perigoso e necessário.
quarta-feira, março 22, 2006
A arte engajada
Você defende que a literatura é uma missão. Pode explicar melhor em que consiste essa missão e de onde vem sua outorga?
Acho que a Arte tem que transcender a realidade, tem que ser testemunha de uma época, de uma sociedade. Eu nasci no Brasil, falo português-brasileiro, venho de uma família de proletários... Ora, não dá para renunciar às minhas origens. A minha literatura é programática. Antes de começar a escrever, em 1996, eu me perguntei se valia a pena, porque não tenho vaidades mesquinhas de escrever para aparecer em jornais e revistas, ser conhecido, essas coisas. Tanto que minha literatura é totalmente dependente das minhas experiências pessoais. A literatura brasileira, com honrosas e raras exceções, não tem uma tradição de representar a classe média baixa (não digo o marginal, pois esse está bem retratado). Então, resolvi encarar esse problema. Me dispus a dar voz e rosto e vida àquelas pessoas todas que participaram da minha vida e que se afundaram no mais profundo anonimato, aquele de que fala Manuel Bandeira, dos que sequer possuem um nome inscrito na lápide. É um compromisso político meu... Quem me outorgou essa missão? Penso que da mesma maneira que nas tribos mais distantes da nossa história, onde cada um tinha uma função, havia também o contador de histórias, que funcionava como uma memória viva das tradições do povo. Não tenho talento para nada a não ser escrever. Então, a mim foi dada a missão de contar a História do Brasil do ponto de vista de quem nunca participou da festa.
segunda-feira, março 20, 2006
O diário de G.H. (5)
Não sabia o que fazer. Estava em choque.
Preocupações menores acorreram ao pensamento: “ficarei com o corpo tatuado?”, “nunca mais poderei usar um decote?”.
O pranto explodiu, um medo repentino tomou-me de assalto, contudo, instantaneamente fui pensando em algo para me acalmar e comecei a cantarolar uma canção. Aos poucos já respirava normalmente.
Corri para a sala, procurei na estante o dicionário de mitos. Artêmis, Artêmis... Artêmis! Achei. A tal coisa havia grafado o nome de forma errada.
“Tida como virgem e defensora da pureza, era também protetora das parturientes e estava ligada a ritos de fecundidade; na Ática, enfatizou-se seu caráter de ‘senhora das feras’. Apesar dessa imagem protetora, Artêmis exibia facetas cruéis: matou o caçador Órion; condenou à morte a ninfa Calisto por deixar-se seduzir por Zeus; transformou Acteão em cervo para ser despedaçado por sua própria matilha e, com Apolo, exterminou os filhos de Níobe e Anfião, para vingar uma suposta afronta”.
Lembrava-me que a morte de Orion havia sido uma fatalidade, um ardil preparado por Apolo, mas isso não vinha ao caso agora. O que essa outra queria me dizer?
As costas voltaram a arder e busquei novamente o espelho.
Gritei para ela ouvir:
- Não quero que se acostume a isso. Meu corpo não é seu livro de cabeceira!
A ardência cedeu prontamente. Olhei através do espelho e minha pele estava novamente lisa, imaculada.
Vesti-me e saí de casa o mais rápido possível.
Entrei no carro, liguei o rádio e dei a partida. Distraí-me ouvindo as músicas e quando percebi já havia passado do bar. Olhei pelo retrovisor e... claro, a palavra era outra!
terça-feira, março 14, 2006
O diário de G.H (4)
Há dias encaro esse band-aid com um misto de medo e curiosidade.Ando na casa inteira num vai-e-vem desmesurado, estou ansiosa e impaciente para as visitas. Receio que elas desconfiem do meu caráter duplo e comecem a me encarar com desconfiança.
É certo que não podia viver assim, prisioneira em meu próprio lar ou como um refém dando refúgio ao bandido. E por que eu acho que isso que está em mim é um inimigo? Como posso temer a mim mesma?
Fui até a gaveta da penteadeira e tirei um espelho desses que aumentam. Posicionei sua face em frente ao machucadinho e, de olhos fechados, puxei o band-aid de uma vez só. Abri os olhos e a feridinha tinha cicatrizado!Fiquei intragável por alguns dias, procurando no peito um vestígio do machucado que pudesse me revelar os tais olhos.
Vai ver a minha outra teve medo de mim e cimentou internamente as paredes para não ser mais incomodada. Sinto dizer que é uma bobagem, pois agora estou decidida a saber mais dessa criatura e não vou descansar enquanto não encontrá-la novamente.
Decidida a esquecer a obsessão, nem que fosse por um curto período, resolvi sair de casa e ver pessoas. Foi então que ao prender os cabelos num rabo de cavalo a fim de me maquiar, aproximei-me bem do espelho. Senti que por trás dos meus olhos um outro par de olhos me observava, atento. Puxei a cadeira para mais perto, mas eles já não estavam lá. De repente, uma ardência nas costas, virei-me abruptamente.
Estava lá grafado na pele: A I R T E M I S.
quinta-feira, março 02, 2006
O Diário de G.H. (3)
Red dress, Michael Austin
A hora do susto
Surpreendentes eram seus olhos quando raspei com a minha unha a primeira camada de pele. Era uma feridinha besta, destas que a gente cutuca para se ver livre, mas eis que sob meu peito saltaram aqueles olhos persecutórios, loucos de vontade de saber quem quebrava a casca do ovo antes da hora.
Havia uma hora prevista para que ela nascesse? Saberia ela que estava escondida em mim ou seria sempre um embrião em gestação? Seu azar foi a tal feridinha causando um certo incômodo ao toque da minha mão e pontas de dedo.
Levei um susto, sem saber se continuava puxando a pele ou dava um jeito de devolver a casca ao lugar de onde tirei. Ali imóvel sob aquela cadeira, encarando os tais olhos, fiquei com essa indagação por muito tempo, até que sua mão abrupta empurrou-me por dentro, impelindo ao salto. Corri para o armário do banheiro: o band-aid dar-me-ia a trégua necessária para saber o que fazer com a tal descoberta.
segunda-feira, fevereiro 20, 2006
Um mini impressionista
Era o nosso último verão juntas. Assim que ele terminasse, iríamos cada uma em busca das próprias aspirações, enfrentaríamos, sozinhas, os nossos medos, sem ter umas as outras para apoiar. Afinal, chega uma hora na vida em que as pernas precisam dar conta do percurso que escolhemos trilhar.
Durante todo o tempo em que ficamos juntas, jamais ousamos falar na despedida, na hora do adeus. Nada havia sido combinado, mas agíamos como se veladamente soubéssemos da existência de um código secreto: se não falássemos, não doeria.
Até que Giulia surgiu com a idéia de um quadro. Havia conhecido no hotel, um jovem pintor francês – Paul – de muito talento. Ela o convenceu a nos retratar. Não imagino como, uma vez que ele falava muito pouco e estava sempre muito isolado.
Fomos todas as cinco ao encontro de Paul numa colina. Chegamos lá e ele não estava. Esperamos minutos, horas e nem sinal do pintor. Começamos a ficar um pouco irritadas com a demora; depois completamente desoladas, resolvemos esquecer a questão.
Apesar de desprevenidas, fomos nadar no lago. Já não nos importávamos se alguém aparecesse. Se isso acontecesse, seria uma lembrança alegre e despojada daquele nosso verão.
Muitos anos depois, quase vinte, nos reencontramos em Paris. Aproveitamos a tarde para conhecer a galeria de um amigo meu.
Passeando os olhos pelos muitos quadros, ouvimos o gritinho histérico de Giulia. Paramos apatetadas diante daquelas mulheres nuas numa colina. Aquela colina!
Lia-se embaixo da tela: As banhistas, Paul Cézanne.
terça-feira, fevereiro 14, 2006
Despedaçar
Sonhos são sonhos.
De que matéria são feitos? Às vezes penso que são de concreto, resistem às chuvas, à seca, ao calor abrasador e aos invernos tenebrosos mantendo-se intactos, firmes. Noutras vezes, penso serem feitos de fumaça, intocáveis, intangíveis. Basta serem alcançados para que se confundam com o éter.
Ontem à noite, descobri que sonhos são asas de borboletas: delicados, finos e de um colorido estonteante. É assim que quero mantê-los em mim, como asas de borboletas que farfalham daqui, farfalham dali e daqui a pouco rumam para imensidão de um não-sei-onde, vão encantar outros olhos, outras vidas.
sexta-feira, fevereiro 10, 2006
O Diário de G.H. (2)
Depois do tumulto
Choveu toda a noite, chuva miudinha, incansável. O céu parecia solidário à minha incompreensão, ao medo da descoberta que fiz quando arranquei a primeira camada de pele...
De repente, o relâmpago e nessa hora eu entendi a poesia das minhas muitas vidas.
Minha angústia, minha pressa de viver foi a responsável por tantas pessoas em mim. O silêncio de não me saber gerou inquietações e a cada interrogação uma vida nascia para responder os meus anseios.
Mas minha busca é pela criatura primeira, aquela que tomou um grande susto diante da velocidade da vida e dos intervalos de silêncio que ela me oferecia a cada vez que não sabia responder as minhas tantas curiosidades.
Um inferno abrasador movia meus impulsos, mas a chuva veio amainar meus plurais e trazer o alívio.
Sou eu quem me vê assim, sou eu quem sabe da desordem da casa, dos tais tropeços, da quantidade de pernas e braços. Poucos podem enxergar o que está por baixo da primeira camada. E eu me mortificava por confundir defeitos com verdades.
A diferença? Nem todos vêem as verdades, contudo, os defeitos exacerbam. As estranhezas saltam aos olhos como um grande abismo, mas as verdades dos meus muitos membros revelam-se para mim, somente, encontram-me na madrugada, nos sonhos, nas sombras que projeto.
A minha mão impõe-me um papel e não há delicadeza nessa procura.
terça-feira, fevereiro 07, 2006
O Diário de G.H. (1)
Aos parcos leitores
Este diário não é um estudo, não é uma erudição, sua única pretensão é confrontar impressões, estabelecer um diálogo íntimo de alma para alma; ele é apenas a descoberta fulgurante das minhas entranhas, proporcionada pelas repetidas leituras d’A paixão segundo G.H., de Clarice Lispector.
Numa madrugada qualquer de agosto
Sempre tive a sensação de mal-estar no mundo, uma sensação de não caber no meu espaço, um desconforto diante de meus pares – eu me pergunto: tenho pares?
Eu sabia que em mim há uma mulher que tento esconder ferozmente. Tenho medo que as pessoas identifiquem meus excessos, essa quantidade absurda de pernas e braços que camuflo sob a roupa que visto.
O que diriam se soubessem das muitas que vivem em mim e tentam bravamente, numa luta corporal, projetar-se do meu corpo? Tomariam-me por uma aberração?
Elas não podem me achar, então eu vivo a árdua tarefa de perder-me diuturnamente como no jogo de esconde-esconde. Qualquer hora dessas vou perder-me de tal modo que não mais serei capaz de fazer minha montagem humana. Tropeçarei nas pernas, trocarei os pares de braços e não saberei a quem pertenço. Fecharei meus muitos olhos porque a sobreposição de imagens fatigam minha visão e eu tenho medo das inúmeras verdades que testemunho. Selarei meus lábios para que as vozes não se confundam. É preciso esperar que todas elas adormeçam para que eu possa viver uma vida de cada vez, caso contrário, os anos pesarão sobre meus ombros e antes de envelhecer eu preciso me saber, preciso ordenar os ciclos individuais até tornar-me pessoa.
quinta-feira, fevereiro 02, 2006
Repassando...
Via Rubya:
1. Pegue o livro mais próximo de você
2. Abra na página 23
3. Ache a quinta frase
4. Poste o texto em seu blog junto com essas instruções
Eu ia me defrontar em mim com um grau de vida tão primeiro que estava próximo do inanimado.
A paixão segundo G.H. Clarice Lispector.
