sábado, julho 17, 2010

As Matriarcas (12)

- Olívia! Oliiiiiívia!
- Já vou, já vou.
Apenas uma coisa era mais divertida do que os longos passeios de bicicleta com a turma: o quintal da casa de vovó Totonha. Lá, eu não via o tempo passar. Perdia-me por aquela imensidade de terra, flores, frutas e animais. Vovó "me deu" um pedaço dele para fazer o que quisesse, então, eu decidi fazer uma horta.
Como eu gostava de plantar coentro e manjericão! Elas tinham aquele aroma inconfundível de coisas frescas, dos molhos deliciosos que tia Margarida fazia e das tais garrafadas que ela preparava e tinham um poder curativo conhecido por todos na cidade. Lembro de sempre ter fila no portão de vovó Totonha:
- Margarida, mulher, o que é que você tem aí para constirpação?
- Margarida, o que é bom para estancar hemorragia?
Eu ficava hipnotizada ao ver tia Guidinha debruçada sobre tachos e panelas gigantes ou então pilando as ervas ressecadas.
Pela manhã, acompanhava vovó ao galinheiro. Eu segurava a cesta de vime enquanto ela recolhia os ovos entre estridentes cacarejos.
Gostava de ficar horas pendurada nas jabuticabeiras. Comia até sentir náusea ou ter dor de barriga. Tia Guidinha precisava me enxotar dos galhos. Ela dizia-me que se continuasse comendo as jabuticas com tanta voracidade, não sobraria nada para seu famoso licor vendido na quermesse da igreja da matriz.
Mas o que eu mais gostava era quando a noite caía. Sentávamos no quintal para ouvir tia Margarida ler um livro (eu sempre pedia as Reinações de Narizinho) ou contar causos de terror. Eu deitava na rede com mamãe, aquela que ficava localizada ao lado dos bugarins.

A memória tem cheiro. E a minha cheirava a bugarins.

sexta-feira, julho 02, 2010

Aberta a temporada de caça aos idiotas

Rapaz, político é um bicho nojento.
Estava eu aqui, revisando um texto quando escuto: "ele cuidou dos pobres, lutou pelos trabalhadores", blá blá blá.

Daí pensei: O Lula pirou? Vai para o terceiro mandato?
Caraaaaaaca, a propaganda política era do José Serra!!!!!

Seria trágido se não fosse risível... tsc tsc tsc.

Se o festival de hipocrisia continuasse assim: "ele curou os doentes, saciou os famintos, ressuscitou os mortos"... eu pensaria, sem qualquer sombra de dúvida: Jesus Cristo?? É o Juízo Final!
Mas voltei à sanidade. Além de heresia, seria uma puta sacanagem com JC. Ele não se juntaria à corja.

terça-feira, junho 29, 2010

Da futilidade

Não gosto de futebol, não sou entendedora. Troco qualquer jogo de qualquer campeonato por uma tarde com os amigos ou um cineminha ou por uma leitura prazerosa, em casa.

Mas na Copa, as coisas mudam. Essa construção social é avassaladora, trabalha com o inconsciente coletivo com muita mestria.

O fato de não ser uma torcedora dedicada não me torna uma analfabeta no esporte. Conheço os jogadores, consigo acompanhar os lances e, por incrível que pareça, já sei até identificar quando ocorre um impedimento.

Agora me expliquem por que as mulheres ainda se submetem a participar de reportagens em que a única coisa que se sobressai é a futilidade? Enquanto todos prestam atenção no jogo, elas – muito bonitas e maquiadas – fofocam feito lavadeiras (perdoem-me as lavadeiras, não é preconceito, apenas não encontrei comparação mais senso comum do que essa).

Quando perguntam se conhecem algum jogador, todas em uníssono respondem: Kaká e Júlio César! (Aimeupaieterno!!!).

O cara da mesa ao lado diz que elas são mais barulhentas do que as vuvuzelas e as babac..., digo, beldades morrem de rir com o “elogio” proferido pelo rapaz.

Jesus, tenha piedade. Vou ali me matar e já volto.

Curtas da Copa

Nada melhor do que uma vitória para que a imprensa vira-casaca mostre a cara.
Vai sal grosso aí, Dunga?

quinta-feira, maio 27, 2010

"See you in another life, brotha"

Putz, tem tempo que não escrevo um post, pessoas.

Eu poderia elencar inúmeros motivos para este meu silêncio: excesso de trabalho, cansaço, falta de tempo, mas esses não são fatores determinantes.

Já escrevi posts enquanto me sentia cansada, chateada, deprimida, frustrada, puta da vida. Esses sentimentos nunca me impediram de “falar”.

Mas estou em algum lugar do tempo que não sei definir o que sinto, só sei de uma coisa: não tenho nada a dizer. Quando algo me provoca e penso: “vou escrever sobre isso”, tudo não passa de ímpeto. Tão logo eu começo a rascunhar as palavras no papel, o desejo passa, acho “mais do mesmo”, repetitivo, não acrescenta.

Pessoalmente, isso me angustia, porque denota aquele estado que chamo de TANTO FAZ (E eu não sou uma pessoa de esperas!).

Tanto faz falar ou não falar, escrever ou não escrever, denunciar ou não denunciar... Esse lugar chamado TANTO FAZ é um terreno movediço, perigoso, amorfo, é o espaço de quem perdeu a esperança, de quem desistiu de agir, porque no fim, não adianta, nada muda.

Por outro lado, no que se refere aos textos que aqui publico e se pretendem ‘literários’, o silêncio não me incomoda. Aprendi a respeitar os intervalos e os longos desertos criativos, porque escrever algo que clama alguma elaboração exige estudo, dedicação, leitura. Não acredito em inspiração apenas.

Mas ontem, depois de ver o último episódio de Lost, tive vontade de escrever umas bobagens aqui.


Eu acompanhei as duas primeiras temporadas da série. Achava aquela nova linguagem o máximo! O roteiro era impecável, os mistérios iam surgindo de maneira inteligente, prendendo a atenção e exercendo efeitos alucinóginos na audiência, de modo que era impossível não viajar nas teorias.

Na terceira temporada, comecei a ficar entediada e receosa pelo final e, então, comecei a “cabular aulas”.

Apesar de sempre ter ouvido e lido que os roteiristas já tinham um plano traçado, digamos assim, a planta baixa da série, sabendo quando e como acabaria, eu tinha certeza que não seria bem assim. Afinal, uma série que revolucionou a linguagem televisa, não ia se manter hermeticamente fechada à resposta da audiência.

Fui turista da quarta temporada, porque não me sentia mais tão motivada. O descarrilamento de Lost começou a me dar paura.

Antes de mais nada, eu sou homus literatus. Quando eu gosto demais de um livro e vejo que estou preste a terminar a leitura, começo a pisar no freio, fico adiando o final, porque vai batendo saudade das personagens e da narrativa bem construída.

Foi o que fiz em relação a Lost, comecei a ver de vez em quando, para não estragar a mágica de duas temporadas brilhantes.

Voltei a ser uma “lostie” na quinta temporada e esperei para ver o desfecho desta que foi a sexta e última.


Primeiro ponto: achei o final muito digno com as personagens. O fato de os roteiristas de Lost terem se perdido, não invalida a importância dessa série para os padrões de linguagem e mídia televisivas. Lost é incontestavelmente um marco no mundo do entretenimento e a série será sempre lembrada.


The End foi emocionante, cheia de epifanias redentoras e uma mensagem muito otimista no que se refere às relações humanas que construímos no decorrer de nossa existência.

E Lost tem um monte de outros detalhes que renderiam livros e mais livros: uma filosofia de aceitação da morte, a tomada de consciência de que as pessoas vivem isoladas, em suas ilhas pessoais. E não importa o quanto você fuja, a alternativa de quem escapa da ilha é o deserto – que é uma simbologia muito forte, e das mais antigas, para a representar a solidão e o embate do Homem com os seus demônios.

Agora vamos combinar: nem metade dos mistérios propostos foi respondida. E não vem com esse papo de que é a personagem que importa, os mistérios são secundários. Se fosse única e exclusivamente a personagem que importasse, então, não precisaria criar uma mítica, uma teoria matemática para explicar as viagens no tempo. Uma narrativa bem construída justifica a existência de personagens bem estruturadas.

Na cena final, o elenco foi reunido, mas alguém viu Mr. Eko no recinto?

Por que não foi permitida a Benjamin Linus, que sempre foi minha personagem preferida – eu tenho uma queda por vilões inteligentes –, uma redenção completa? O cara que deu a vida pela ilha foi excluído do processo de eleição do “candidato”.

Também não gostei do maniqueísmo estabelecido entre Jacob e o Homem de Preto. Por que Jacob era o Bem e o Homem de Preto, o Mal? A retomada da construção do discurso do anjo decaído não foi bem executada.

O que separou Caim de Abel foi a inveja; Lúcifer de Deus, a arrogância, a cobiça... mas o que separou Jacob do irmão, que não foi merecedor sequer de um nome?

O Homem de Preto queria ser livre, queria poder cruzar o oceano e conhecer outras realidades; ele queria ter o livre arbítrio de escolher não viver com a assassina de sua mãe. E por que Jacob foi sempre tão submisso? Por que aceitou tão bem o fato da morte da mãe e o convívio com sua assassina, mas jamais aceitou o desejo do irmão de ir além?

Isso não é apenas mistério. É, como diria Nietzsche, humano, demasiado humano.

A complexidade psicológica das personagens, construída ao longo de seis anos, foi substituída e subestimada pela aceitação e redenção, pura e simples, como se esse desfecho fosse a regra, a única trajetória possível do percurso humano.

domingo, março 14, 2010

Glauco

Ontem rascunhei um post, baseado em teorias sociais, citando inclusive o DaMatta, em que tentava explicar (o que não tem explicação!) a mim mesma o que tem nos levado a menosprezar a vida de tal forma que perdemos toda e qualquer referência de respeito e indignação e nos acostumamos a achar tudo normal.
Desisti. Comparado ao que temos vivido, achei o texto nonsense, raso, sem nenhuma coerência. Mas que coerência tem a violência? Ela nunca foi tão banal.
Melhor do que o discurso é, sem dúvida, a tirinha do Geraldão.






quarta-feira, fevereiro 03, 2010

Dia da Saudade

30 de janeiro é o Dia da Saudade.


Do latim, solìtas, átis 'unidade, solidão, desamparo, retiro'; der. do lat. sólus, a, um 'só, solitário.

Essa palavrinha manhosa, tinhosa, cujo significado traz, para quem a sente, um pontinha de dor sem deixar de lado a lembrança do sorriso, do prazer só existe na Língua Portuguesa. Claro que existem expressões equivalentes em outros idiomas, mas sem a inteireza, sem a carga poética que empregamos pelas bandas de cá.


Assim a define o Houaiss:

Sentimento mais ou menos melancólico de incompletude, ligado pela memória a situações de privação da presença de alguém ou de algo, de afastamento de um lugar ou de uma coisa, ou à ausência de certas experiências e determinados prazeres já vividos e considerados pela pessoa em causa como um bem desejável (freq. us. tb. no pl.)”.


Melhor do que as definições e etimologias que cercam o vocábulo, só mesmo Tom e Vinícius:


Chega de Saudade

(Tom Jobim e Vinícius de Moraes)


Vai minha tristeza

E diz a ela que sem ela não pode ser

Diz-lhe numa prece

Que ela regresse

Porque eu não posso mais sofrer


Chega de saudade

A realidade é que sem ela

Não há paz não há beleza

É só tristeza e a melancolia

Que não sai de mim

Não sai de mim

Não sai


Mas, se ela voltar

Se ela voltar que coisa linda!

Que coisa louca!

Pois há menos peixinhos a nadar no mar

Do que os beijinhos

Que eu darei na sua boca


Dentro dos meus braços, os abraços

Hão de ser milhões de abraços

Apertado assim, colado assim, calado assim,

Abraços e beijinhos e carinhos sem ter fim


Que é pra acabar com esse negócio

De você viver sem mim

Não quero mais esse negócio

De você longe de mim

Vamos deixar esse negócio

De você viver sem mim