quinta-feira, novembro 24, 2005

Querida V.,

Há quase dois meses enviei-te uma carta. Como não obtive respostas, fiquei sem saber se houve problemas com o serviço postal ou contigo. Espero que seja apenas uma banalidade, querida, um problema de extravio de correspondência.

Ando tendo sonhos estranhos, V., e aí lembro de ti dizendo-me para prestar muita atenção neles. Ah, V., você e suas manias! Posso ouvi-la, com ar muito sério: “somos cercados por sinais”.

Então, preste atenção nesse sinal: já é quase primavera. Não bastasse a profusão de cores e aromas que invadem Paris nessa época, vou levando uma flor muito rara para enfeitar ainda mais essa cidade – a minha Tereza.

Ligarei assim que o avião pousar.

Saudades,

A.

sexta-feira, novembro 18, 2005

Pense nisso!

Dica do meu amigo Vítor que hoje comemora dois grandes eventos.

"Feio é fumar, tu não comeces...!"
Image hosted by Photobucket.comImage hosted by Photobucket.com

Assista também ao vídeo!


quarta-feira, novembro 09, 2005

ESCREVER. Enganos profundos, debates e impasses que provocam o desejo de “exprimir” o sentimento amoroso numa criação (notadamente de escritura).

4. querer escrever o amor é entender a desordem da linguagem: essa região tumultuada onde a linguagem é ao mesmo tempo demais e demasiadamente pouca, excessiva (pela expansão ilimitada do eu, pela submersão emotiva) e pobre (pelos códigos sobre os quais o amor a projeta e a nivela).


Relendo Fragmentos de um discurso amoroso do Roland Barthes, deparei-me no “verbete” ESCREVER. Refletindo um pouco e extrapolando os limites do discurso amoroso, sou capaz de generalizar que a necessidade de exprimir qualquer sentimento provoca o desejo da criação artística em suas mais diversas expressões e, no meu caso, o desejo é notadamente a de fiar escrituras.

***

Era uma vez uma história de amor e como tal pretendia-se linda, plena de significados e sintaxe perfeita, mas uma história de amor é bem mais (ou seria bem menos?) do que escrever uma história de amor.

Durante dias labutou sobre o papel, enervou-se, rasgou palavras, esmiuçou verbos. Na lixeira, jaziam infinitas possibilidades de dizer eu-te-amo: nenhuma resultou ser convincente.

Então, respirou fundo e resolveu esperar pela inspiração como o amante que, sentado ao lado do telefone, aguarda – excitado, mas fingindo paciência – os toques estridentes. Após um tempo, como o telefone não toca, a angústia toma conta.

Cansou de esperar e tolerar atrasos.

Chorou copiosamente por pouquíssimos segundos. Limpou o nariz na manga da camisa, amassou o papel entre as mãos e que era pra ser uma história de amor virou vinagre.

terça-feira, novembro 01, 2005

Existem alguns livros que conseguem manter o frescor das novas descobertas mesmo após muitas releituras.
A História de Cronópios e Famas, de Julio Cortázar é um desses livros. Não sei explicar direito, mas todas as vezes que releio esse trecho uma sensação estranha me invade. É como se chovesse dentro de mim.
Image hosted by Photobucket.com
Gotas, Rui Vieira.

APLASTAMIENTO DE LAS GOTAS

Yo no sé, mira, es terrible cómo llueve. Llueve todo el tiempo, afuera tupido y gris, aquí contra el balcón con goterones cuajados y duros, que hacen plaf y se aplastan como bofetadas uno detrás de otro, qué hastío. Ahora aparece una gotita en lo alto del marco de la ventana; se queda temblequeando contra el cielo que la triza en mil brillos apagados, va creciendo y se tambalea, ya va a caer y no se cae, todavía no se cae. Está prendida con todas las uñas, no quiere caerse y se la ve que se agarra con los dientes, mientras le crece la barriga; ya es una gotaza que cuelga majestuosa, y de pronto zup, ahí va, plaf, deshecha, nada, una viscosidad en el mármol. Pero las hay que se suicidan y se entregan enseguida, brotan en el marco y ahí mismo se tiran; me parece ver la vibración del salto, sus piernitas desprendiéndose y el grito que las emborracha en esa nada del caer y aniquilarse. Tristes gotas, redondas inocentes gotas. Adiós gotas. Adiós.

P.S1: Agradeço ao Pedro por ter me apresentado esse espetáculo pluvioso.
P.S2: Aqui tem mais Cortázar.

quinta-feira, outubro 20, 2005

Image hosted by Photobucket.com
V.,

O que eu poderia esperar de você a não ser o melhor? Seu amor, paciência, generosidade... obrigada por não me julgar, minha querida, porque eu já faço bem o papel da juíza, minhas sentenças são severas demais, mas acredite, eu já posso soprar minhas feridas sem lambê-las.

Quando você me falou sobre as portas de seu castelo, lembrei-me imediatamente de sua mãe. Certa vez ela nos preparou um chá delicioso, muitos biscoitos e geléias. Você ficou calada a maior parte do tempo, olhos baixos e úmidos e quando finalmente resolveu falar foi pra pedir-lhe que me contasse a história tantas vezes repetidas a você quando criança.

Este foi o dia em que fiquei sabendo que seu pai tinha sido promovido e iria ocupar um cargo na França. Lembra V.? Tudo ainda está tão nítido na minha memória!

“Era uma vez uma ave muito rara, de plumagem exuberante. Todos os dias ela ia ao jardim da casa de Annie.
A menina observava-o da janela e já ensaiava uma aproximação. A cada dia, ela chegava mais e mais perto do bichinho até que teve uma idéia: foi à cozinha, esfarelou a casca do pão na palma de sua mão.
O pássaro vinha rápido, bicava os farelos e depois voava. Isso repetiu-se por semanas até que adquirida a confiança, ele pousou nas mãos de Annie para se alimentar sem pressa ou receios.
Ele voltava todos os dias e ambos deleitavam-se de prazer.
Um dia, a menina resolveu prolongar o encontro e assim que o pássaro pousou, ela fechou as mãos, prendendo-o e acariciando a sua plumagem.
Apesar de não ter se machucado, o pássaro ficou muito assustado e assim que Annie abriu as mãos, ele voou alto, muito alto.
No dia seguinte, ela foi esperá-lo no jardim, como sempre fazia, mas o pássaro nunca mais voltou.”

É isso o amor, não é V.? Um pássaro livre que ficará para sempre em nossas vidas se soubermos respeitar suas asas.

Todo esse tempo em que silenciei, V., foi para tomar coragem de abrir minhas mãos e libertar o pássaro que havia nelas. Resumindo: minha love story chegou ao fim. Tudo ainda é muito novo e dói terrivelmente, minha querida, ao mesmo tempo, nunca houve tanta serenidade nos meus movimentos.

Preciso te contar algo extraordinário, V! ando compulsiva com o lápis, tenho escrito qualquer coisa em qualquer pedaço de papel. Não existe muito nexo no que escrevo, mas tem sido uma descoberta deliciosamente egoísta.
Eis um mundo ao qual só a mim pertence!

Estive pensando em ir ao seu encontro.
Há quantos anos não nos vemos, V.? Seis, talvez sete? Meu Deus, minha Teresa fará quatro anos e é um absurdo que vocês não se conheçam!
Veja a sua agenda e me diga se posso chegar em Paris junto com a primavera.

Saudades,

A.

terça-feira, outubro 04, 2005

De Vitória de Santo Antão para o mundo

Dando uma barata de sebo, que não se conforma com as injustiças literárias, finalmente encontrei algo interessante, que vale a pena a visita.

Para quem, como eu, é apaixonada por ele, corra e delicie-se.

;))

quinta-feira, setembro 29, 2005

Confissões

“Tenho a minha vida nas mãos, Abel. Recebe-a.
Mas ouve: o amor, artefato de difícil manejo,
é cheio de botões secretos
e de facas que à mínima imperícia ou distração
saltam voando e lanham a carne”.

Image hosted by Photobucket.com
José Sobral Negreiros

Eu amo-o. Isso não altera a ordem do universo. Amo-o. E amá-lo é um ato solitário, independe de sua vontade, do seu querer. Amor – uma seta que flui de mim em sua direção e é da minha natureza fluir, lançar setas.

Ninguém, nada pode impedir o fluxo que jorro abundantemente. Nem mesmo você ou sua ausência são capazes de estancar o sangue, o calor das minhas veias. Pensar que essa mágica poderia ter sido desfeita pela sua partida dói no meu corpo até os ossos, mas se este fosse o seu desejo, eu abriria minhas asas em vôo raso, porque sou pássaro visionário, possuo a força de amar e eu quero do amor tudo: a doçura, os sobressaltos, a febre, o delírio, a calmaria.

Repito. Amo-o. E o amor em nosso tempo parece-me rarefeito, em vias de extinção, uma moeda atribuída de valor de troca. Será que só a palavra AMOR sobreviverá como um registro gráfico ou sonoro ou uma peça de museu? Um objeto de recordação? O que será de tudo, de todos quando finalmente nos arrancarem a força de amar, a alegria de amar, a cólera de amar? Restauremos, então, o amor e através de nós que ele perdure.

Iniciamos novamente o nosso percurso. Deitados lado a lado somos reconduzidos, em silêncio, ao Éden, através das estrelas e do vento. Somos os protagonistas de um paraíso transfigurado porque renascemos caídos, expulsos, logo, responsáveis e cientes da porção humana. Estamos novamente de mãos dadas e a sua figura avança, amplia-se sobre mim, rompendo os limites do corpo, habitando minha carne intemporal. Repousa nos meus rios sua cabeça e sorve o mel das minhas coxas.

Calo minha boca na sua, beijo mansamente seus ombros, nuca, costas. Contraio meu corpo sobre o dele. Ele retesa-se. Mordo sua orelha e sussurro, entre dentes, uma, duas, dez, mil vezes a palavra amor na intenção de resgatar o sentido, o nexo, o som, a música. Meus seios roçam sua pele e fazemos o encaixe que começa pelos poros e atravessa o nosso centro nevrálgico. Sua mão procura minha entrada, não bate à porta, devassa meu interior, demarcando caminhos: não quer perder-se.

Olha-me do umbral da minha passagem secreta que só responde à tua senha. Não quero outras digitais tateando minhas umidades. Reconhece-me tua e descansa tranqüilo na bainha que preparei para ti. Nela só há espaço para a tua espada, forjada pelo fogo sagrado da noite. Tua lava incendeia sem queimar...guardo-a em mim, em mim... em ti, em ti somente o amor completo.


quarta-feira, setembro 28, 2005

Eu tenho essa mania de ser par.
O mundo não é par, as pessoas não o são, então, por que engendro no meu centro esse desejo?
Eu sou uma pergunta que nunca encontra resposta satisfatória. O silêncio não é bom companheiro nessas horas, ele estimula o interrogatório palavroso e eu... eu não ouso saber.
Eu tenho medo de descobrir que por baixo de tudo há o Nada, transparente e esmagador.
Talvez o Nada seja o elo arrebentado da corrente, ao partir-se, nos condenou à solidão.
Image hosted by Photobucket.com

quarta-feira, setembro 21, 2005

O que ela não me pede chorando que eu não faço sorrindo?
Image hosted by Photobucket.com

sexta-feira, setembro 16, 2005

Minha A.,


Eu também já tive profundas raízes, esqueces? Algumas ainda estão lá e não duvido que sempre estarão; outras eu tive que arrancar, lançar ao fogo, caso contrário, entranhariam tanto a terra... o que estou dizendo? As raízes adensaram-se demais em terras minhas, perfuraram-me quase ao ponto de morte, mas eu não queria morrer, A.

Desistir de você? Eu? O importante é que não desistas de ti!
Quantas pessoas, A., passaram por mim e partiram? Quantas? Quantas arrasaram os meus jardins, destruíram minhas rosas? Quantas temeram meus vendavais e preferiram não correr o risco? Ah, querida, eu cansei de tanta aridez, tanta covardia, rios rasos...

Cansar pode ser um bom sinal, então preste atenção aos teus sinais!
Quando eu cansei de entregar em outras mãos aquilo que só a mim pertencia, tornei-me senhora do meu castelo. Ao contrário do que imaginava, não era preciso fortificar suas estruturas, montar guarda, impedir entradas, não, nada disso... a minha maneira, escuta bem isso A., a MINHA maneira foi deixar todas as portas e janelas abertas para que as pessoas saíssem com a mesma facilidade que entravam, sem pensar que corriam riscos de serem pilhadas, encarceradas, roubadas em suas individualidades...

Um breve parêntese, querida, para uma gargalhada! O ser humano é tão tolo, A... quando vão entender que ninguém rouba a individualidade de ninguém, somos nós quem abrimos mão dela. O que a gente não suporta é ser responsável pela nossa infelicidade.

Voltemos...
Hoje, tenho uma meia dúzia de pessoas que escolheram ficar. Sim, são poucas, mas são as que importam, são as que fazem diferença, as que somam, as que amam intensamente, as que não se fartam de sobejo.

Fique tranqüila, querida. Não estou aqui para julgá-la. Não precisas provar absolutamente nada para mim, eu bem sei que não se trata de passividade. Tirando os casos patológicos, ninguém tem prazer em sofrer. Dê os passos que puderes, dentro de tuas medidas.

Eu estarei sempre aqui.

Outra coisa, antes que me esqueça. Eu comi do fruto rubro da árvore proibida, sim! E sabe o que aconteceu? Descobri um mundo vasto em dor e gozo, mergulhei nessa vastidão e Deus alegrou-se comigo.
O diabo? Ele fugiu. Não agüentou concorrência!

Tua V.

quinta-feira, setembro 15, 2005

Os amigos são pessoas imprescindíveis mesmo! Não importa o vulcão que em nós germina e lança labaredas, eles invariavelmente conseguem nos emocionar.
Obrigada, Carlinhos!


Muito bonito, hein?
Retribuindo o presente (que foi muito inspirador):

Ela, o mistério em pessoa

Olhei-a intensamente.
Ofertei-lhe todo o tempo
Em sua inquietante infinitude,
E tentei plantar flores em seu Eu.

Hoje, devolveu-me o cofre
de promessas irrealizadas.
Não negocia seus mistérios.
E agora eu não sei se é por ela ou
por eles que eu estou apaixonado.

(Carlos Pereira)

sexta-feira, setembro 09, 2005

Eu, pessoa inalienável

Olhou-me diferente.
Ofertou-me o tempo
Em sua infinita relatividade,
Plantou orquídeas no meu coração.

Hoje, devolvo-lhes as chaves
De antigas promessas:
Não negocio meus mistérios,
Meus segredos são indevassáveis.

quarta-feira, agosto 31, 2005

Profissão de fé

Do ideal e da Glória

Que busca o escritor? O verdadeiro escritor, isto é: o que faz da palavra escrita sua razão de viver. Pois, como tudo, e do mesmo modo que existe, por exemplo, o mau sacerdote, também o escritor, tem os seus macacos. Os que imitam os gestos do escritor, publicando livros, discutindo sobre Joyce, dando entrevistas, e não são escritores. Estes buscam tão-somente o nome nos jornais, mais tarde as sinecuras, os postos bem pagos, as condecorações, tal ou qual prestígio social e, naturalmente, a Academia. Tais personagens não contam e não importa o que buscam: são segregados pelo mesmo chão que produz todas as outras espécies de embusteiros.

O que o escritor deseja é realizar e entregar, aos seus semelhantes, principalmente aos que falam a sua língua, obras às quais hajam consagrado o melhor de si mesmos. Trabalhar submisso a restrições, sob encomenda, é necessário em outros ofícios. No seu, a encomenda e a restrição correspondem exatamente à morte do ofício. A liberdade é seu clima.

A liberdade? De que natureza? Todas. A começar pela liberdade interior. Isto é, pelo arrefecimento, em seu íntimo, de ambições alheias à literatura e que possam desviá-lo, perdê-lo.
Essa liberdade, que, com maior ou menor esforço, pode ser alcançada em condições adversas, não basta. Uma série de fatores outros é exigida para que o ato de escrever, o ofício de escrever alcance a plenitude.
(Osman Lins. Do ideal e da glória - problemas inculturais brasileiros)

segunda-feira, agosto 22, 2005

"Amores serão sempre amáveis"

V., minha V...

Recebi seu presente. Tão delicadas as matryoshkas, querida. Não sei dizer-te se gostei mais delas ou de tua carta que li suspirando como quem lamenta o não vivido ou tem saudade do que não foi.

Eu sei que você enfrentaria todos os tormentos para deliciar-se, ainda que por uma única vez, com os frutos rubros e selvagens. Até já pensei, sorrindo sozinha, que você, tal como Eva, não hesitaria em comer da maçã mesmo que isso significasse ser banida do Paraíso.

Ah, minha V., não desistas de mim! Porque lá no fundo, eu também gostaria de poder, mas eu tenho tantos medos... por enquanto, saber da existência desse lugar tão colorido já é um grande avanço, saber que tenho para onde ir quando eu conseguir romper minhas amarras dá-me um alento enorme, mas V., aprendi a ter raízes profundas e de tanto convivermos, afeiçoei-me a elas. Eu sei quão difícil deve ser para você aceitar esse meu lado, que pode parecer passividade, mas não é, minha querida. Acredite, não é.

Eu tenho dificuldade de me desapegar e eu tomei apego até pelo que faz sangrar. Lembra que minha mãe, na sua bruta ingenuidade, nos dizia que o ser humano acostuma até com o que não presta? É, V., a gente também se acostuma às nossas próprias ruínas, às paredes caiadas, à velha e confortável poltrona de tecido puído. O baú de antiguidades também faz parte de mim.

Outras coisas também fazem parte de mim: orgulho exagerado, dificuldade em admitir um fracasso e uma boa dose de covardia, mas de tudo isso, o que mais me incomoda, querida, é saber que fracassei, que minha love story virou filme de terror, que todo o amor que tenho não é suficiente, não basta... “o amor tudo pode” é uma máxima frustrada, minha cara.

Uma hora eu vou aprender a transformar esse amor que sobra, que é resto em sementes. É preciso saber desistir, V. Deixar livre para que o que não floresceu em terras minhas, floresça em jardins outros.

Beijos,

A.

quarta-feira, agosto 17, 2005

Dos encontros

Hoje, o Glossolalias faz um ano de existência.

Meu Deus, esse blog tem exatamente um ano de palavras. Se eu pudesse encadeá-las uma após outra, qual seria o tamanho do percurso já feito?

O que escrevo tem algum valor? Faz alguma diferença? Serve para alguma coisa ou alguém?

No fundo, eu escrevo para mim, porque é vital à minha sobrevivência. Nem me lembro quando escrever tornou-se tão essencial. Parece-me que nasci assim, caneta e papel nas mãos. Às vezes é um presente, outras um fardo. Dar sentido a tudo que vaga pelo pensamento é a única maneira que encontrei de estabelecer alguma serenidade com meu interior tão caótico.

Escrevo para me justificar pessoa, para conquistar uma identidade que vai além do nome e cpf, algo que me relate, me delate. E quando eu escrevo não tenho necessidade de falar, tenho uma predisposição natural de ficar calada e isso me fez aceitar o silêncio e ser mais compreensiva com os sentidos das coisas e com a vaguidão das palavras e de seus significados que tento apreender ferozmente.

É preciso escrever assim, puro,sem truques. Meu texto é o que tenho e nele aprendo a viver, a amar, a fazer amigos, é minha realidade. É meu testemunho ainda que muitas vezes ele deponha contra mim. Depois que está pronto, ele vai viver independente, vai ter uma individualidade da qual não mais participo. Seguirá sozinho, fará seus (des)caminhos e eu? Vou gestar outros textos – filhos pródigos que jamais retornam.

De tempos em tempos, aportam nos cais, encontram pessoas que os acolhem, acrescentando-lhe novos sentidos e depois voltam a seguir viagem.

Na mágica da vida, acabo esbarrando com essas pessoas e é quando tenho notícia deles.

Confessar-me em público deu-me essa nova dimensão do texto, deu-me alguma generosidade de reconhecer que são meus sem que o pronome possessivo seja, de fato, uma posse, uma prisão.

Agradeço a todos vocês que participam e nos acolhem em seus cais.

terça-feira, agosto 16, 2005

Andei por aí perseguindo estrelas como quem caça borboletas... como se fosse possível apanhar nas mãos o brilho de quem já se apagou ou o vento sutil que o bater de asas proporciona.

Esbarrei nos impedimentos que nos separam – o espaço infinito e o balé das horas.

Tu sorrias, descrente, das minhas buscas.

Procurei gravar na areia toda a fome de mundo que eu sinto, toda essa urgência que motiva minhas entranhas, mas como demorastes, as espumas desmancharam os desenhos. Eles pareciam tão vívidos, mas já agora não resta sequer provas de sua existência.

Esperei pelo teu gesto...

O sol sangrou a tarde com seu aceno final. A noite trouxe a lua para fazer-me companhia. Logo mais a aurora veio avisar que já era tempo de despertar.

Esperei pela tua palavra...

Deixei bilhetes nos bolsos de tua roupa, olhei fixamente nos olhos teus, coloquei música, ensaiei dançar.

Não houve gesto, sequer palavra.

Hoje desfilo longe de teus olhos. Mudei a direção dos meus passos. Segui o mar que chamava pelo meu nome em sua concha. Existe um apelo em sua voz que é impossível ignorar. Não sei se é o movimento das ondas ou a força das marés... só sei que é um sussurro que lambe minhas pernas cheias de sal. E eu gosto de sua língua percorrendo minha pele.

Desejei inúmeras vezes que imitasses o mar, esperei pela arrebentação das tuas ondas para fertilizar meus sonhos, coloquei bóias indicando o caminho para que não te perdesses, para que não nos perdêssemos... mas nem o farol pode nos iluminar.

Hoje, da outra margem, observo teus movimentos e sou eu quem sorri.

Persegues estrelas como quem caça borboletas, como se fosse possível, como se fosse possível.

quinta-feira, agosto 04, 2005

Quase

Há uma longa espera
No breve espaço em que
A mão antecede o gesto
E a boca anuncia o beijo.

Afago este intervalo amoroso,
Oculto profundos desejos.
Já no instante seguinte,
Transmuto.

Não faço pactos com a solidão.
Sigo na direção do que é meu.
Ainda que no fim sejamos
Só a noite escura e mais eu.

quarta-feira, agosto 03, 2005

Matryoshka

A., minha querida, hoje compartilharei contigo um segredo de infância. Faço isso porque entendi ser a melhor maneira de responder tua carta tão vertiginosa e mágica. Acho que você finalmente está abrindo a primeira camada rumo ao seu centro.

Quando pequena, meu avô deu-me um presente num embrulho tosco, mal ajambrado. Notei que ele mesmo fizera o pacote com suas mãos enormes e desajeitadas. Antes, porém, de tomá-lo para mim, disse-me as seguintes palavras: "tens nas mãos a metáfora da essência humana. Se entenderes o segredo, entenderás o amor, que também responde pelo nome de vida".

Não entendi direito o que quis dizer, como não entendia muitas coisas que ele dizia. Vovô sempre falava cifrado, cheio de mistérios. Não era à toa que chamavam-no de excêntrico. Vivia entre aqueles livros enormes e pesados, colecionava miudezas, ficava dias sem sair de casa resolvendo enigmas ou criando palíndromos.

Sempre me diverti com suas esquisitices, A. Fui crescendo e ficando cada vez mais maravilhada com aquele velho. Somente hoje, querida, eu entendo que ele não era nem esquisito nem excêntrico. Acho que foi a pessoa mais lúcida que conheci.

Ah, o presente. Era uma legítima matryoshka, A. Herança de um parente russo. Devia ter uns 25 cm e dentro dela, havia outras seis iguaizinhas e menores.

Perguntas se lembro do jardim de Amboise… como eu o esqueceria, A, como? Foi em Amboise que entendi as palavras ditas por vovô. A primeira boneca, a maior, foi aberta diante daquele jardim de delícias. Lá eu tomei consciência que muitas de mim me habitavam.

Consegue me compreender, A? Abrir sua primeira matryoshka lhe proporcionou ver todo esse colorido que é a expressão da felicidade que li há pouco. Não sei o que você fará com essa descoberta, querida. Esta é uma decisão sua, solitária. A única coisa que posso lhe dizer é que abrir as bonecas seguintes significa estar diante de um outro espetáculo, uma efeméride! Mas não se iluda, a cada novo passo para dentro é uma dor, uma batalha entre quem você de fato é e as imagens distorcidas pelo espelho dos outros.

Amar – ou viver – é como brincar com as bonequinhas russas – sempre tem outra e mais outra e mais outra e é sempre a mesma bonequinha. Redescobrir-se é voltar à gênese, à primeira bonequinha que deu feição a tantas outras As que convivem em você.

E quando alcançamos o centro, ainda não é o fim. O percurso de volta à boneca maior, também tem seus tormentos.

Eu enfrentaria qualquer tormento pelos frutos rubros e selvagens, A! E você?
Image hosted by Photobucket.com

quinta-feira, julho 28, 2005

Querida V.,

Eu sei que demorei a responder-te, mas não peço desculpas porque a culpa é toda sua. Sim, sua. Foste tão eloqüente na última carta que me senti contagiada pela tua febre hemorrágica. Senti-me indigna de tuas confissões, minha querida, uma vez que estava eu mesma imersa numa grande mornidão.

Foi, então, que permiti que suas palavras entranhassem na corrente sangüínea e resolvi fazer as malas.

Fartei-me de música e bons vinhos. Reatei relações com Rimbaud, Auden, Drummond, Dorothy Parker… antigos amigos que iluminaram noites frias e tardes chuvosas. Quantas vezes a companhia deles salvou-me da solidão!

Estive em tantos lugares. Vi tantos rostos, V! Mas preciso dizer-te que estive novamente em Amboise, querida. Senti uma necessidade, uma urgência em manter contato com o nosso Éden.

Voltei àquele belo jardim. Lembras dele? Frutas silvestres manchavam o chão de um vermelho caudaloso e apesar de singelas, elas me pareciam tão selvagens. Morangos, cerejas, framboesas... selvagens.

O vermelho intenso das frutas chegava a ser ofensivo, ele desafiava a palidez de tantos rostos inexpressivos, parecia gritar para que se rebelassem e também fossem selvagens.

V., depois de muito tempo, eu senti novamente que tocava o barro do qual somos feitos, senti a argila fresca e úmida ali, pronta para ser moldada ao meu bel prazer.

A vida invadiu-me.

Obrigada, V., pelo sopro regenerador.

Amor,

A.

terça-feira, julho 26, 2005

Olhar-se no espelho e perceber, sem subterfúgios, que as mudanças ocorrem. Olhar-se e não sentir dor, apenas ter a serenidade de constatar que as transformações não param de acontecer.

Foi assim com ela.
Acordou hoje pela manhã e olhou-se no espelho. Encantou-se com aquela marquinha de expressão quando sorriu; apreciou o contorno do seu rosto do jeito que é agora; redescobriu o prazer de passar o batom pelos lábios, até achou charmoso aquele sulco suave no canto dos olhos.

Sua fome de mundo já é outra ou, pelo menos, manifesta-se diferentemente.

Contemplou a si mesma com doçura e pensou: “adeus afobações e ansiedades” .
Fez tudo mansamente, tateando a tez, distraída.

Beijou o espelho, marcando-o de vermelho, como quem deixa um lembrete de algo que não pode ser ignorado ou negligenciado.

- Não posso esquecer de mim. Feliz ano novo!