edição extra
sexta-feira, abril 18, 2008
quarta-feira, abril 16, 2008
Espasmos # 7
Sim, a vida ainda vibra em mim... ela vibra na constância das minhas oscilações.
Vibra quando tudo arde, quando o sangue goteja, quando os corais se esquecem por segundos de seus habitantes naturais e vêm enfeitar meu corpo, despertando-me para o meu colorido: meu cabelo-alga, minha pele-escama, meus braços-nadadeiras... agora sou porto de mim.
Vibra quando tudo arde, quando o sangue goteja, quando os corais se esquecem por segundos de seus habitantes naturais e vêm enfeitar meu corpo, despertando-me para o meu colorido: meu cabelo-alga, minha pele-escama, meus braços-nadadeiras... agora sou porto de mim.
segunda-feira, abril 14, 2008
sábado, abril 12, 2008
Espasmos # 6
A verborragia não se esgotara.
Num tom entre o descrente e o irônico, uma outra voz retrucava o mesmo refrão até o ponto de reproduzir ecos que me lembravam de que eu não poderia fugir ao meu destino.
Então, escolheu o melhor diamante – límpido e duro – tatuando sobre minha pele a pergunta tão preciosa:
“Mata-me a curiosidade, conta-me, a vida ainda vibra?”
Num tom entre o descrente e o irônico, uma outra voz retrucava o mesmo refrão até o ponto de reproduzir ecos que me lembravam de que eu não poderia fugir ao meu destino.
Então, escolheu o melhor diamante – límpido e duro – tatuando sobre minha pele a pergunta tão preciosa:
“Mata-me a curiosidade, conta-me, a vida ainda vibra?”
terça-feira, abril 08, 2008
Espasmos # 5
E alguém sussurrou, ao longe, algo que me pareceu ser assim:
“Diante do Tempo, a vida
pode parecer uma irrelevância
(Talvez o seja mesmo).
O que fazer se o irrelevante
é tudo o que possuo?
Fechar uma porta,
Apagar a luz
Faz toda a diferença.
Não tenho a eternidade para saber...”
“Diante do Tempo, a vida
pode parecer uma irrelevância
(Talvez o seja mesmo).
O que fazer se o irrelevante
é tudo o que possuo?
Fechar uma porta,
Apagar a luz
Faz toda a diferença.
Não tenho a eternidade para saber...”
sexta-feira, abril 04, 2008
Novidades e um pouquinho de escracho
Em breve este blogue contará com a participação de uma antiga amiga.
Apesar do pouco tempo disponível e de uma agenda atribuladíssima, ela se dispôs a arranjar um horário para atendê-los no Consultório da Valentina.
Quem viver, verá.
quinta-feira, abril 03, 2008
Espasmos # 4
A folha estava amarrotada num claro gesto de quem deitou fora uma idéia que não servia ou não conseguia desenvolver. Bem no centro do papel, em destaque, lia-se a palavra “memória”.
Queria lembrar-me de algo? Ou esquecer? Não importa, agora de posse da memória de outrem, escreveria sobre vidas que não me pertencem, mas que são parte de mim.
Queria lembrar-me de algo? Ou esquecer? Não importa, agora de posse da memória de outrem, escreveria sobre vidas que não me pertencem, mas que são parte de mim.
segunda-feira, março 31, 2008
Espasmos # 3
E quanto mais gritava ao vento, menos era ouvida. A voz era dissipada pela velocidade do ar... sentia-me órfã, abandonada, lançada ao redemoinho, ao pó... comigo, uma folha de papel era arremessada ao nada; esperei os movimentos, decorei sua rotação e no momento exato do rodopio, agarrei-a com as mãos.
quinta-feira, março 27, 2008
Torcendo para que chegue por aqui
Começa hoje, no Clube Monte Líbano em São Paulo, a comemoração dos 125 anos do nascimento do escritor, pintor e filósofo libanês Khalil Gibran (1883-1931) com o lançamento de medalha, mostra e debates sobre sua obra.
www.starnews2001.com.br/kahlil/museu_gibran.htm
A presidente da Associação Cultural Brasil-Líbano, Lody Brais, conseguiu do Museu Gibran filmes sobre o artista que começam a ser exibidos no sábado. Na sexta, será inaugurada exposição com livros, pinturas, cartas e documentos pessoais no hall do teatro do clube. E no domingo será instalado o busto do escritor na praça que fica entre as Avenidas República do Líbano e Afonso Brás.
Gibran teve sua obra marcada por grande misticismo e idealismo. Seu livro mais famoso, O Profeta, fala de um visionário que se prepara para uma grande viagem que talvez não tenha volta, o que deixa seus discípulos desolados, contudo, antes de partir, orienta-os acerca do amor, da amizade e da liberdade. Gibran tentou unir crenças e filosofias aparentemente inconciliáveis, uma da vez que o livro acentuadamente romântico foi influenciado por fontes de aparente grande contraste: Nietzsche, a Bíblia e William Blake.
www.starnews2001.com.br/kahlil/museu_gibran.htm
Gibran emigrou para os Estados Unidos e começou a escrever poemas e meditações para O Emigrante (Al-Muhajer), jornal árabe publicado em Boston. Ele também desenha e pinta e na exposição de seus primeiros trabalhos, atrai o interesse de Mary Haskell, sua mecenas. Mary custeia os estudos de Gibran em Paris. Lá, ele conhece Rodin e torna-se aluno do famoso artista. Uma de suas telas é escolhida para a Exposição de Belas-Artes de 1910.
Amai-vos...
Amai-vos um ao outro,
mas não façais do amor um grilhão.
Que haja, antes, um mar ondulante
entre as praias de vossa alma.
Enchei a taça um do outro,
mas não bebais da mesma taça.
Dai do vosso pão um ao outro,
mas não comais do mesmo pedaço.
Cantai e dançai juntos,
e sede alegres,
mas deixai
cada um de vós estar sozinho.
Assim como as cordas da lira
são separadas e,
no entanto,
vibram na mesma harmonia.
Dai vosso coração,
mas não o confieis à guarda um do outro.
Pois somente a mão da Vida
pode conter vosso coração.
E vivei juntos,
mas não vos aconchegueis demasiadamente.
Pois as colunas do templo
erguem-se separadamente.
E o carvalho e o cipreste
não crescem à sombra um do outro.
sábado, março 08, 2008
Espasmos #2
- É que na maioria das vezes sou mesmo corredeira volumosa...
- Nunca escutas? Quantas vezes precisarei desembocar em ti para entenderes a violência dos sentimentos gerados pela força das minhas águas?
- Suplico ao vento que pare de soprar: estou exausta de tanta arrebentação.
- Nunca escutas? Quantas vezes precisarei desembocar em ti para entenderes a violência dos sentimentos gerados pela força das minhas águas?
- Suplico ao vento que pare de soprar: estou exausta de tanta arrebentação.
Espasmos #1
Eu sempre me liquefaço em dias de chuva – nunca te disse? Pois é. Dissolvo-me. Diluo minha matéria bruta para aliviar meu peso, meus passos, pois sendo líquido posso vazar pelos poros transformando-me em corredeira ou simplesmente evaporar sem deixar vestígios.
Filosofia Barata (2)
O ser moderno.
- Tudo começou por causa daquele bendito curso de artes plásticas que você me recomendou.
- Então a culpa é minha?
- Em parte – disse sorrindo com olhos perspicazes.
- Mas eu avisei pra você ficar esperta. Ele é ou não é envolvente?
- No começo eu achei que sim. Agora não tenho tanta certeza. No fundo, ele é mais um cretino posando de moderno.
- Espera um pouco, Marina. Ele não é cretino.
- Qual o nome que você dá para alguém que usa a Arte como desculpa para perpetuar um comportamento machista pra lá de secular?
- Ele é desencanado.
- Ele é filho da puta. Se são sinônimos para você, tudo bem.
- Mas me conta, o que aconteceu?
- Não aconteceu. E pelo ritmo acelerado do meu desinteresse, não vai acontecer.
Suspirou fundo e deu início ao seu monólogo:
“Enquanto desenhávamos, ele passeava pela sala, observava nossos traços e nossas expressões. Ao final da aula, pediu para que eu ficasse. Precisava conversar comigo. Fiquei. Ele deu mil dicas e sugestões, indicou livros e pediu meu telefone. Ligou. Falou da mulher que sou: interessante, independente, sedutora... queria me ver, me tocar, falou um monte de sacanagem. Do outro lado eu me divertia com a fantasia que criara a meu respeito. Foi direto e sem cerimônias. Queria prazer sem compromisso. Ri ainda mais. Achei a frase digna dos anúncios de jornais da sessão de acompanhantes: “fulano realiza todos os seus desejos, prazer garantido sem compromissos.” Se ele se ouvisse de verdade, o cara moderno e liberal que acreditava ser daria lugar a um troglodita total. “Me deixa te ver”, ele insistia. Eu disse que não podia e realmente não podia mesmo, mas dei corda, no fim de semana nos encontraríamos, sairíamos para tomar um café. “Vamos deixar rolar, ver se a química funciona.” Foi então que a conversa mudou de rumo. Ele: eu te disse que tenho namorada? Eu: não, não perguntei. Ele: não acho fidelidade uma coisa tão importante. Eu: acho lealdade mais importante do que fidelidade. Ele: era importante que você soubesse disso. Eu: é importante que VOCÊ saiba disso. Ele: como? Eu: estou solteira, livre, faço o que quero e quando quero, portanto, não devo satisfações a ninguém. Ele: entendo, digo isso porque não posso ser visto, o encontro tem que ser num lugar discreto. Eu: parece que sua namorada não tem a mesma opinião sobre a fidelidade. (silêncio). Eu novamente: vou ser absolutamente sincera. Primeiro, eu não tenho motivos para me esconder; segundo, mesmo que seja só prazer sem compromisso (e eu não vejo nenhum problema nisso), há que se ter delicadeza, afinal, uma boa dose de cortejo não mata ninguém. Existem pessoas (e isso não é nenhuma novidade), quando bem pagas, que tiram a roupa, transam e vão embora. Sem nenhuma complicação e o melhor, sem compromisso. Ele: não quis te ofender. Eu: não ofendeu. Sacanagem é algo fácil de fazer, principalmente sem compromisso, mas feita assim tão secamente não tem graça, não deixa lembrança, não vira ficção, não marca, é mera contabilidade. Ainda que um encontro seja apenas sexo, é preciso ter cheiro, textura, química, conquista, precisa instigar, desafiar, criar clima, ter vontade de falar difícil, impressionar, ler Rimbaud no original... ele: isso é romance, não sexo.”
- Mas que cretino!
- Como você mudou de opinião! E rápido!
- Tudo começou por causa daquele bendito curso de artes plásticas que você me recomendou.
- Então a culpa é minha?
- Em parte – disse sorrindo com olhos perspicazes.
- Mas eu avisei pra você ficar esperta. Ele é ou não é envolvente?
- No começo eu achei que sim. Agora não tenho tanta certeza. No fundo, ele é mais um cretino posando de moderno.
- Espera um pouco, Marina. Ele não é cretino.
- Qual o nome que você dá para alguém que usa a Arte como desculpa para perpetuar um comportamento machista pra lá de secular?
- Ele é desencanado.
- Ele é filho da puta. Se são sinônimos para você, tudo bem.
- Mas me conta, o que aconteceu?
- Não aconteceu. E pelo ritmo acelerado do meu desinteresse, não vai acontecer.
Suspirou fundo e deu início ao seu monólogo:
“Enquanto desenhávamos, ele passeava pela sala, observava nossos traços e nossas expressões. Ao final da aula, pediu para que eu ficasse. Precisava conversar comigo. Fiquei. Ele deu mil dicas e sugestões, indicou livros e pediu meu telefone. Ligou. Falou da mulher que sou: interessante, independente, sedutora... queria me ver, me tocar, falou um monte de sacanagem. Do outro lado eu me divertia com a fantasia que criara a meu respeito. Foi direto e sem cerimônias. Queria prazer sem compromisso. Ri ainda mais. Achei a frase digna dos anúncios de jornais da sessão de acompanhantes: “fulano realiza todos os seus desejos, prazer garantido sem compromissos.” Se ele se ouvisse de verdade, o cara moderno e liberal que acreditava ser daria lugar a um troglodita total. “Me deixa te ver”, ele insistia. Eu disse que não podia e realmente não podia mesmo, mas dei corda, no fim de semana nos encontraríamos, sairíamos para tomar um café. “Vamos deixar rolar, ver se a química funciona.” Foi então que a conversa mudou de rumo. Ele: eu te disse que tenho namorada? Eu: não, não perguntei. Ele: não acho fidelidade uma coisa tão importante. Eu: acho lealdade mais importante do que fidelidade. Ele: era importante que você soubesse disso. Eu: é importante que VOCÊ saiba disso. Ele: como? Eu: estou solteira, livre, faço o que quero e quando quero, portanto, não devo satisfações a ninguém. Ele: entendo, digo isso porque não posso ser visto, o encontro tem que ser num lugar discreto. Eu: parece que sua namorada não tem a mesma opinião sobre a fidelidade. (silêncio). Eu novamente: vou ser absolutamente sincera. Primeiro, eu não tenho motivos para me esconder; segundo, mesmo que seja só prazer sem compromisso (e eu não vejo nenhum problema nisso), há que se ter delicadeza, afinal, uma boa dose de cortejo não mata ninguém. Existem pessoas (e isso não é nenhuma novidade), quando bem pagas, que tiram a roupa, transam e vão embora. Sem nenhuma complicação e o melhor, sem compromisso. Ele: não quis te ofender. Eu: não ofendeu. Sacanagem é algo fácil de fazer, principalmente sem compromisso, mas feita assim tão secamente não tem graça, não deixa lembrança, não vira ficção, não marca, é mera contabilidade. Ainda que um encontro seja apenas sexo, é preciso ter cheiro, textura, química, conquista, precisa instigar, desafiar, criar clima, ter vontade de falar difícil, impressionar, ler Rimbaud no original... ele: isso é romance, não sexo.”
- Mas que cretino!
- Como você mudou de opinião! E rápido!
segunda-feira, fevereiro 04, 2008
Para que servem as listas?
Não sei bem, talvez para serem contestadas. O certo é que elas proliferam ano após ano.
Apresento-lhes a lista dos “Cem Melhores Filmes”, feita pelo crítico inglês Ronald Bergan que consta no seu livro que acaba de ser traduzido e publicado pela Editora Zahar.
Bergan apresenta comentários sobre cada um dos filmes que selecionou, ordenados rigorosamente em ordem cronológica.
Se há injustiças? Ou melhor seria dizer omissões? Sempre há, mas confesso que fiquei orgulhosíssima ao ver citado o brasileirinho Cidade de Deus.
Cinéfilos, deliciem-se.
O Nascimento de uma Nação – O Gabinete do Dr. Caligari – Nosferatu, o Vampiro – Nanook, o Esquimó – O Encouraçado Potemkim – Metrópolis – Napoleão – Um Cão Andaluz – O Martírio de Joana d’Arc – Nada de Novo no Front – O Anjo Azul – Luzes da Cidade – Rua 42 – O Diabo a Quatro – King Kong – O Atalante – Branca de Neve e os Sete Anões – Olímpia – A Regra do Jogo – ... E o Vento Levou – Jejum do Amor – As Vinhas da Ira – Cidadão Kane – Relíquia Macabra – Pérfida – Ser ou Não Ser – Nosso Barco, Nossa Vida – Casablanca – Obsessão – O Bulevar do Crime – Nesse Mundo e no Outro – A Felicidade Não se Compra – Ladrões de Bicicleta – Carta de uma Desconhecida – Um País de Anedota – O Terceiro Homem – Orfeu – Rashomom – Cantando na Chuva – Era uma Vez em Tóquio – Sindicato de Ladrões – Tudo o que o Céu Permite – Juventude Transviada – A Canção da Estrada – A Mensagem do Diabo – O Sétimo Selo – Um Corpo que Cai – Cinzas e Diamantes – Os Incompreendidos – Quanto Mais Quente Melhor – Acossado – A Doce Vida – Tudo Começou no Sábado – A Aventura – O Ano Passado em Marienbad – Lawrence da Arábia – Dr. Fantástico – A Batalha de Argel – A Noviça Rebelde – Andrei Rublev – The Chelsea Girls – Bonnie e Clyde – Meu Ódio Será sua Herança – Sem Destino – O Conformista – O Poderoso Chefão – Aguirre, a Cólera dos Deuses – Nashville – O Império dos Sentidos – Taxi Driver – Noivo Neurótico, Noiva Nervosa – Guerra nas Estrelas – O Casamento de Maria Braun – O Franco-Atirador – ET, o Extra-terrestre – Blade Runner, o Caçador de Andróides – Paris, Texas – Heimat – Vá e Veja – Veludo Azul – Shoah – Uma Janela para o Amor – Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos – Cinema Paradiso – Faça a Coisa Certa – Lanternas Vermelhas – Os Imperdoáveis – Cães de Aluguel – Trois Couleurs – Através das Oliveiras – Quatro Casamentos e um Funeral – Troy Story – Fargo, uma Comédia de Erros – O Tigre e o Dragão – Amor à Flor da Pele – Traffic – O Senhor dos Anéis – Cidade de Deus – Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças.
Apresento-lhes a lista dos “Cem Melhores Filmes”, feita pelo crítico inglês Ronald Bergan que consta no seu livro que acaba de ser traduzido e publicado pela Editora Zahar.
Bergan apresenta comentários sobre cada um dos filmes que selecionou, ordenados rigorosamente em ordem cronológica.
Se há injustiças? Ou melhor seria dizer omissões? Sempre há, mas confesso que fiquei orgulhosíssima ao ver citado o brasileirinho Cidade de Deus.
Cinéfilos, deliciem-se.
O Nascimento de uma Nação – O Gabinete do Dr. Caligari – Nosferatu, o Vampiro – Nanook, o Esquimó – O Encouraçado Potemkim – Metrópolis – Napoleão – Um Cão Andaluz – O Martírio de Joana d’Arc – Nada de Novo no Front – O Anjo Azul – Luzes da Cidade – Rua 42 – O Diabo a Quatro – King Kong – O Atalante – Branca de Neve e os Sete Anões – Olímpia – A Regra do Jogo – ... E o Vento Levou – Jejum do Amor – As Vinhas da Ira – Cidadão Kane – Relíquia Macabra – Pérfida – Ser ou Não Ser – Nosso Barco, Nossa Vida – Casablanca – Obsessão – O Bulevar do Crime – Nesse Mundo e no Outro – A Felicidade Não se Compra – Ladrões de Bicicleta – Carta de uma Desconhecida – Um País de Anedota – O Terceiro Homem – Orfeu – Rashomom – Cantando na Chuva – Era uma Vez em Tóquio – Sindicato de Ladrões – Tudo o que o Céu Permite – Juventude Transviada – A Canção da Estrada – A Mensagem do Diabo – O Sétimo Selo – Um Corpo que Cai – Cinzas e Diamantes – Os Incompreendidos – Quanto Mais Quente Melhor – Acossado – A Doce Vida – Tudo Começou no Sábado – A Aventura – O Ano Passado em Marienbad – Lawrence da Arábia – Dr. Fantástico – A Batalha de Argel – A Noviça Rebelde – Andrei Rublev – The Chelsea Girls – Bonnie e Clyde – Meu Ódio Será sua Herança – Sem Destino – O Conformista – O Poderoso Chefão – Aguirre, a Cólera dos Deuses – Nashville – O Império dos Sentidos – Taxi Driver – Noivo Neurótico, Noiva Nervosa – Guerra nas Estrelas – O Casamento de Maria Braun – O Franco-Atirador – ET, o Extra-terrestre – Blade Runner, o Caçador de Andróides – Paris, Texas – Heimat – Vá e Veja – Veludo Azul – Shoah – Uma Janela para o Amor – Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos – Cinema Paradiso – Faça a Coisa Certa – Lanternas Vermelhas – Os Imperdoáveis – Cães de Aluguel – Trois Couleurs – Através das Oliveiras – Quatro Casamentos e um Funeral – Troy Story – Fargo, uma Comédia de Erros – O Tigre e o Dragão – Amor à Flor da Pele – Traffic – O Senhor dos Anéis – Cidade de Deus – Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças.
Dos equívocos
O poema que Maiakovski não escreveu
O equívoco que persiste em torno de célebre poema de Eduardo Alves da Costa, atribuído ao poeta russo indevidamente
Por Juareiz Correya, poeta e editor
Um poeta brasileiro tem sido confundido, com freqüência, nas quatro últimas décadas, com o poeta russo Vladimir Maiakovski. Os equívocos cometidos, as leituras apressadas, uma provável desatenção e, até mesmo, certo descaso com a produção poética brasileira contemporânea, já produziram interpretações impensadas e informações à beira de um ataque de sandice no meio cultural brasileiro. Comentários e artigos de algumas personalidades, de gente ilustrada e lida, têm reanimado a confusão e perpetuado um erro, no mínimo, culpado por uma séria injustiça que desvaloriza um dos grandes nomes da poesia brasileira particularmente criada na segunda metade do século 20. O poeta em questão é o fluminense Eduardo Alves da Costa, nascido em Niterói (RJ) e, paulistanizado desde os anos 60, reconhecidamente um dos mais expressivos poetas de São Paulo, cidade cuja produção poética é rica também por contar, em sua geração, com nomes da grandeza de um Álvaro Alves de Faria, Alberto Beuttenmuller, Eunice Arruda, Renata Pallotini, Cláudio Willer, Jaa Torrano, Érico Max Muller, Roberto Piva, entre outros. Confundem o seu nome com o de Maiakovski por causa da publicação do seu poema, justamente intitulado “No caminho, com Maiakovski”, incluído originalmente no seu livro O Tocador de Atabaque, lançado em São Paulo no ano de 1969.
Só para exemplificar, de forma bem localizada, cito alguns equívocos cometidos por escritores e jornalistas pernambucanos que conheço:
Há alguns anos, um professor, jornalista e poeta muito bem conceituado e reconhecidamente erudito, publicou, no Diário de Pernambuco, excelente artigo com a sua revelada e justa indignação sobre o momento político nacional, citando o poema de autoria de... Maiakovski! Por conhecê-lo e respeitá-lo, quando o encontrei, dias depois, lhe dei a informação sobre o verdadeiro autor do poema e ele, muito educado e consciencioso, me agradeceu a providencial correção. E outro não menos informado e culto jornalista, com coluna no Diário de Pernambuco, escreveu, em 2004, texto crítico muito bem contextualizado sobre a nossa indigente política nacional, citando “as flores do jardim” do poema de autoria de... Brecht! (Tem também este alemão na história...) Por conhecer pessoal-mente o jornalista, enviei comunicação sobre o erro acidental e ele me agradeceu com informação imediata divulgada na sua prestigiada coluna. Mas a confusão das identidades dos poetas continuou ainda neste ano de 2007, com a publicação de artigo corajoso, vigoroso e muito bem escrito, defendendo o Nordeste brasileiro, de autoria de conhecido professor e escritor pernambucano, em um dos jornais diários do Recife, em que Maiakovski, mais uma vez, é enaltecido como autor do poema no qual ele é citado e o autor é o brasileiríssimo Eduardo Alves da Costa.
E, para que não se diga que não falamos das flores do poema direito, e não se confunda mais russo com brasileiro, oferecemos, aos leitores da Continente, ajuda para iluminar a sua compreensão sobre esse problema jornalístico (não é literário porque o autor não o criou, e não é um problema editorial e cultural porque a Editora, ao publicar o poema em 1985, esclareceu, objetivamente, a questão): transcrevemos o famoso poema, pouco conhecido na íntegra, de Eduardo Alves da Costa, intitulado “No caminho, com Maiakovski”:
“Assim como a criança
humildemente afaga
a imagem do herói,
assim me aproximo de ti, Maiakovski.
Não importa o que me possa acontecer
por andar ombro a ombro
com um poeta soviético.
Lendo teus versos,
aprendi a ter coragem.
Tu sabes,
conheces melhor do que eu
a velha história.
Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo o nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.
Nos dias que correm
a ninguém é dado
repousar a cabeça
alheia ao terror.
Os humildes baixam a cerviz;
e nós, que não temos pacto algum
com os senhores do mundo,
por temor nos calamos.
No silêncio do meu quarto
a ousadia me afogueia as faces
e eu fantasio um levante;
mas amanhã,
diante do juiz,
talvez meus lábios
calem a verdade
como um foco de germes
capaz de me destruir.
Olho ao redor
e o que vejo
e acabo por repetir
são mentiras.
Mal sabe a criança dizer mãe
e a propaganda lhe destrói a consciência.
A mim, quase me arrastam
pela gola do paletó
à porta do templo
e me pedem que aguarde
até que a Democracia
se digne aparecer no balcão.
Mas eu sei,
porque não estou amedrontado
a ponto de cegar, que ela tem uma espada
a lhe espetar as costelas
e o riso que nos mostra
é uma tênue cortina
lançada sobre os arsenais.
Vamos ao campo
e não os vemos ao nosso lado
no plantio.
Mas ao tempo da colheita
lá estão
e acabam por nos roubar
até o último grão de trigo.
Dizem-nos que de nós emana o poder
mas sempre o temos contra nós.
Dizem-nos que é preciso
defender nossos lares
mas se nos rebelamos contra a opressão
é sobre nós que marcham os soldados.
mas se nos rebelamos contra a opressão
é sobre nós que marcham os soldados.
E por temor eu me calo,
por temor aceito a condição
de falso democrata
e rotulo meus gestos
com a palavra liberdade,
procurando, num sorriso,
esconder minha dor
diante de meus superiores.
Mas dentro de mim,
com a potência de um milhão de vozes,
o coração grita – MENTIRA !”
sábado, outubro 13, 2007
sexta-feira, outubro 05, 2007
Bravo! Bravíssimo!
Ela, a eloqüente Camila foi uma das dez finalistas do Concurso de Contos da Revista Bravo.
Parabéns, minha flor!
for ever:
* por Camila Magalhães Pereira Mendonça
!
ela vem tentando ler os mesmos livros de sempre. aqueles mal acabados. foi largando pela metade na prateleira. há muita dificuldade em encarar os fins.
tentou convencê-lo a instalar um ventilador de teto no quarto. fez ameaça de leve - aqui não trepo mais. credo cruz três vezes. coitada. tão falha. e mal se resolveu o papo, até que virou briga. agora estão emburrados. coisa chata de se ver.
mas se amam bonito. esse amor piegas dos apaixonados. amor-paixão. coisa de filme. coisa que ninguém acredita. tinha aquele papo de amigos. e toda a evolução homem e mulher que se sabe quando se trata de sexo sem sentimentos. mas tudo embola, tudo complica. ela sempre se envolve e não tem jeito.
andou ouvindo um cara australiano. mas não tem certeza. venezuelano? neo-hippie de barba coisa e tal. disse que era leve e fazia bem ao corpo. quando tocava no rádio ela fazia uns movimentos estranhos. coisa de yoga. uma acrobacia aeróbica disfarçando um efeito zen.
ele ficava parado no canto, encostado na parede, vendo ela deitada no tapete; porque na sala tinha o tal ventilador de teto. são casal de pouco, juntado a tempo curto. lua de mel ainda. pouca grana e muita alegria. apesar das brigas.
falta um ar condicionado. resolveria metade e meia das questões.
o calor estressa até a raiz, ela diz. a raiz dos pentelhos. e crescem loucos. tem alergia a gilete. mas depilar é um sofrimento sem fim. tem sempre a ditadura tortuosa da beleza. ser mulher não é uma tragédia, mas é um drama, ela bem sabe. e ele entende. porque é dos melhores homens do mundo. cabe aqui aquela pieguice inicial.
é quase dezembro. e não se esquece a trajetória desesperada desses dias abafados. mas desta vez vai. pensam num destilado. coisa bem gelada. para descer bacana. e vão agradecendo. quase ninguém acredita; há que se repetir. ele tem certeza dos mitos da predestinação. "maktub", diria aquele mago nojento na sua coluna diária do jornal. mas a gente sabe que não é bem assim. se era para ser, metade transpira a outra inspira. é sempre o esforço. é sempre o impulso de acreditar que vale firme.
ontem ela ligou para o ex, confirmando os seus caprichos particulares- olha, meu bem, você me superou. pronto e tchau. era um desabafo franco de meia palavra. bastou fundo. ele entendeu. mesmo naquele suspiro. é que o ex havia mandado um cartão para ela. desses cafonas de fim de ano. falava de amor, de ressentimento, de perdão e graça. foi dado o recado. e ela que estima tanto esses sutis discursos; respeitou. guardou na caixa de cartas. talvez ainda releia algumas vezes. para acreditar. remorso de quem perde. e reflexão de quem foi perdido. mas então já era. e foi. mas mesmo assim ela ligou. tinhosa. as últimas palavras são sempre dela.
o prédio onde moram tem os enfeites natalinos de sempre. o elevador da garagem permanece enguiçado. de praxe. sobem de escada, respirando fundo, passos largos. apesar da yoga, ela tem asma. voltou a roer as unhas, mas mantém a tal da paz de espírito - é muita concentração, diz.
colocou na varanda um bonsai, veio com uns papos orientais, um misticismo estranho. não cabia, claro. logo se esqueceu, mas ficou lá a árvore mini de apetrecho. o apartamento tem as cores dela. e ele até gosta. disse que ela deu vida, deu harmonia. aquela coisa toda.
a gente nunca sabe até quando vai. e se vai.
tinha sempre em mente um trecho de um livro que ele leu gaguejando no início do romance. era nervosismo. tinham acabado de transar. e ele disse que queria ler algo. estava emocionado ainda. gozo, declaração, olho no olho - é atestado; gozar de olhos abertos apaixona, ou dá início à; fato concreto - então começou a ler baixinho enfatizando as expressões portuguesas. era uma maneira de alfinetá-la, claro. lembrando seu passado lusitano. e ele morria de ciúmes do tal português. mas apesar da provocação ela gostou. achei bonito. o trecho era bom. se emocionei de leve. mas preferiu tomar banho em seguida. nada de emoções as claras, era só o começo.
ela tem mania de sair arrumando as coisas. levanta catando as roupas, jogando a sujeira no lixo. uma chata completa. adorável perfeccionista.
e a gente continua sem saber até onde vai. se vai.
já pôs o venezuelano para tocar. é venezuelano? diz que teve influência do caetano veloso. este ela odeia com força. mas ele comprou o cd. ele sabe que no fundo ela gostou de três, quatro músicas.
e lá foi ela deitar cheirando a vick. aqueles ritos que trouxe de casa. era coisa da mãe. seres humanos, mais freudianos do que podem assumir.
dormiam numa cama média. aquela entre solteiro e casal. dizem que é cama de viúva. de viúvo. é o que se tornaram depois de tantos relacionamentos desgastados, arruinados, fracassados. viúvos. agora é king size. amém desse jeito. sem aliança. sem burocracia religiosa. mas ela disse que quer assinar papelada no cartório. nada de mudar nome. só uma coisa mulherzinha. ele acha desnecessário. mas se é por ela - e é por nós, ele também sente, sensível- disse que sim repetidas vezes para ela saber valia.
mas é fim de ano. há que se lembrar. e ela não gosta de fins, se sabe. retornou aos livros de sempre. faz calor. a pressão não tolera esses dias. é quase inferno astral, viu um astrólogo dizendo na tv. não acredita. mas tem lá suas tensões propícias ao período. ter fé. ver coragem no amor. isso já foi frase de música.
dessa vez eles se salvam.
Parabéns, minha flor!
for ever:
* por Camila Magalhães Pereira Mendonça
!
ela vem tentando ler os mesmos livros de sempre. aqueles mal acabados. foi largando pela metade na prateleira. há muita dificuldade em encarar os fins.
tentou convencê-lo a instalar um ventilador de teto no quarto. fez ameaça de leve - aqui não trepo mais. credo cruz três vezes. coitada. tão falha. e mal se resolveu o papo, até que virou briga. agora estão emburrados. coisa chata de se ver.
mas se amam bonito. esse amor piegas dos apaixonados. amor-paixão. coisa de filme. coisa que ninguém acredita. tinha aquele papo de amigos. e toda a evolução homem e mulher que se sabe quando se trata de sexo sem sentimentos. mas tudo embola, tudo complica. ela sempre se envolve e não tem jeito.
andou ouvindo um cara australiano. mas não tem certeza. venezuelano? neo-hippie de barba coisa e tal. disse que era leve e fazia bem ao corpo. quando tocava no rádio ela fazia uns movimentos estranhos. coisa de yoga. uma acrobacia aeróbica disfarçando um efeito zen.
ele ficava parado no canto, encostado na parede, vendo ela deitada no tapete; porque na sala tinha o tal ventilador de teto. são casal de pouco, juntado a tempo curto. lua de mel ainda. pouca grana e muita alegria. apesar das brigas.
falta um ar condicionado. resolveria metade e meia das questões.
o calor estressa até a raiz, ela diz. a raiz dos pentelhos. e crescem loucos. tem alergia a gilete. mas depilar é um sofrimento sem fim. tem sempre a ditadura tortuosa da beleza. ser mulher não é uma tragédia, mas é um drama, ela bem sabe. e ele entende. porque é dos melhores homens do mundo. cabe aqui aquela pieguice inicial.
é quase dezembro. e não se esquece a trajetória desesperada desses dias abafados. mas desta vez vai. pensam num destilado. coisa bem gelada. para descer bacana. e vão agradecendo. quase ninguém acredita; há que se repetir. ele tem certeza dos mitos da predestinação. "maktub", diria aquele mago nojento na sua coluna diária do jornal. mas a gente sabe que não é bem assim. se era para ser, metade transpira a outra inspira. é sempre o esforço. é sempre o impulso de acreditar que vale firme.
ontem ela ligou para o ex, confirmando os seus caprichos particulares- olha, meu bem, você me superou. pronto e tchau. era um desabafo franco de meia palavra. bastou fundo. ele entendeu. mesmo naquele suspiro. é que o ex havia mandado um cartão para ela. desses cafonas de fim de ano. falava de amor, de ressentimento, de perdão e graça. foi dado o recado. e ela que estima tanto esses sutis discursos; respeitou. guardou na caixa de cartas. talvez ainda releia algumas vezes. para acreditar. remorso de quem perde. e reflexão de quem foi perdido. mas então já era. e foi. mas mesmo assim ela ligou. tinhosa. as últimas palavras são sempre dela.
o prédio onde moram tem os enfeites natalinos de sempre. o elevador da garagem permanece enguiçado. de praxe. sobem de escada, respirando fundo, passos largos. apesar da yoga, ela tem asma. voltou a roer as unhas, mas mantém a tal da paz de espírito - é muita concentração, diz.
colocou na varanda um bonsai, veio com uns papos orientais, um misticismo estranho. não cabia, claro. logo se esqueceu, mas ficou lá a árvore mini de apetrecho. o apartamento tem as cores dela. e ele até gosta. disse que ela deu vida, deu harmonia. aquela coisa toda.
a gente nunca sabe até quando vai. e se vai.
tinha sempre em mente um trecho de um livro que ele leu gaguejando no início do romance. era nervosismo. tinham acabado de transar. e ele disse que queria ler algo. estava emocionado ainda. gozo, declaração, olho no olho - é atestado; gozar de olhos abertos apaixona, ou dá início à; fato concreto - então começou a ler baixinho enfatizando as expressões portuguesas. era uma maneira de alfinetá-la, claro. lembrando seu passado lusitano. e ele morria de ciúmes do tal português. mas apesar da provocação ela gostou. achei bonito. o trecho era bom. se emocionei de leve. mas preferiu tomar banho em seguida. nada de emoções as claras, era só o começo.
ela tem mania de sair arrumando as coisas. levanta catando as roupas, jogando a sujeira no lixo. uma chata completa. adorável perfeccionista.
e a gente continua sem saber até onde vai. se vai.
já pôs o venezuelano para tocar. é venezuelano? diz que teve influência do caetano veloso. este ela odeia com força. mas ele comprou o cd. ele sabe que no fundo ela gostou de três, quatro músicas.
e lá foi ela deitar cheirando a vick. aqueles ritos que trouxe de casa. era coisa da mãe. seres humanos, mais freudianos do que podem assumir.
dormiam numa cama média. aquela entre solteiro e casal. dizem que é cama de viúva. de viúvo. é o que se tornaram depois de tantos relacionamentos desgastados, arruinados, fracassados. viúvos. agora é king size. amém desse jeito. sem aliança. sem burocracia religiosa. mas ela disse que quer assinar papelada no cartório. nada de mudar nome. só uma coisa mulherzinha. ele acha desnecessário. mas se é por ela - e é por nós, ele também sente, sensível- disse que sim repetidas vezes para ela saber valia.
mas é fim de ano. há que se lembrar. e ela não gosta de fins, se sabe. retornou aos livros de sempre. faz calor. a pressão não tolera esses dias. é quase inferno astral, viu um astrólogo dizendo na tv. não acredita. mas tem lá suas tensões propícias ao período. ter fé. ver coragem no amor. isso já foi frase de música.
dessa vez eles se salvam.
sexta-feira, setembro 14, 2007
Sala de Leitura (4): uma homenagem - antes tarde do que nunca
Os silêncios de Bergman e Antonioni

Os dois grandes cineastas trabalharam, cada um a sua maneira, a simbologia do silêncio
Os dois grandes cineastas trabalharam, cada um a sua maneira, a simbologia do silêncio
Por Marcelo Costa*
Durante as décadas de 50 e 60, notadamente, o cinema viu surgir uma geração de realizadores preocupados em mostrar, entender e até intervir no mundo ao seu redor, que passava por uma reestruturação radical em virtude do pós-guerra. Nesse contexto de destruição física e espiritual da Europa, surgiram grandes artistas, cujas obras lançaram a linguagem cinematográfica a patamares nunca antes vistos. Numa encruzilhada entre o destino e o acaso, dois dos últimos remanescentes dessa geração deram seu adeus silencioso no mesmo dia: Ingmar Bergman e Michelangelo Antonioni faleceram em 30 de julho.
Pouquíssimos cineastas deixaram uma filmografia tão valiosa e coerente quanto eles. Ambos se valeram da era sonora do cinema para cultuar, da forma mais íntima e minimalista, a angústia do silêncio numa época em que a reflexão, a busca por respostas ou mesmo a resignação pareciam nortear uma geração desamparada. Para o sueco Bergman, o silêncio é uma forma de imersão ou sublimação da alma humana, em meio a diálogos atormentados pela certeza da morte, por dúvidas em relação à existência e pela culpa que nos recai sobre os ombros. É o cavaleiro Antonius Blok em sua cruzada pelo sentido da vida, enquanto enfrenta a morte num duelo de xadrez no clássico O Sétimo Selo (1956); ou o idoso professor de medicina – interpretado por Victor Sjöstrom, referência do cinema mudo sueco – que, prestes a receber a última homenagem, se submete a um revisionismo existencial, em Morangos Silvestres (1957).

Pouquíssimos cineastas deixaram uma filmografia tão valiosa e coerente quanto eles. Ambos se valeram da era sonora do cinema para cultuar, da forma mais íntima e minimalista, a angústia do silêncio numa época em que a reflexão, a busca por respostas ou mesmo a resignação pareciam nortear uma geração desamparada. Para o sueco Bergman, o silêncio é uma forma de imersão ou sublimação da alma humana, em meio a diálogos atormentados pela certeza da morte, por dúvidas em relação à existência e pela culpa que nos recai sobre os ombros. É o cavaleiro Antonius Blok em sua cruzada pelo sentido da vida, enquanto enfrenta a morte num duelo de xadrez no clássico O Sétimo Selo (1956); ou o idoso professor de medicina – interpretado por Victor Sjöstrom, referência do cinema mudo sueco – que, prestes a receber a última homenagem, se submete a um revisionismo existencial, em Morangos Silvestres (1957).
Já em Antonioni, o silêncio é o símbolo da rarefação, do esvaziamento existencial e banalização do indivíduo que desconhece o porquê de sua ação, que busca algo, mesmo sem um sentido para a busca. Isso fica evidente em obras-primas de sua fase em cores como Blow-up – Depois Daquele Beijo (1966) e Profissão: Repórter (1975), nos quais os personagens se assemelham ao Mersault, de O Estrangeiro de Albert Camus. Se, em Bergman, os indivíduos contraem as vísceras para expor toda a fragilidade e falibilidade humana em diálogos cortantes, Antonioni vai se valer dos espaços vazios que se estabelecem entre seres humanos sem perspectivas para compor uma ode ao tédio e à melancolia. Seu primeiro sucesso foi A Aventura (1960), que inauguraria a célebre “trilogia da incomunicabilidade”, formada por A Noite (1961) e O Eclipse (1962). Marcados pela presença de sua musa Monica Vitti, os filmes revelam um olhar crítico e humano de uma burguesia imersa em desencontros, superficialidades e na angústia de uma vida banal. Também Deserto Vermelho (1964), seu primeiro filme em cores, trazia Vitti num espetáculo fotográfico sobre a incomunicabilidade e a solidão.
Um quarto vermelho com quatro mulheres taciturnas foi o ponto de partida de Bergman para compor Gritos e Sussurros (1975), um estudo sobre a morte e as relações humanas. Filho de um pastor luterano de ríspida educação religiosa com uma mãe fria e distante, fato retratado em Fanny e Alexander (1982), Bergman tem sua obra ressoada pela sua biografia, os relacionamentos vividos e os estudos em história da arte e teatro. A fragilidade da fé e do indivíduo, as marcas deixadas pelos cisalhamentos das relações humanas (Cenas de Um Casamento e Sonata de Outono), o desnudamento psicológico de seus personagens são recorrentes em sua obra, esteticamente marcada pela influência do expressionismo alemão, do cinema mudo sueco e do norueguês Carl Theodor Dreyer, em cujos filmes ecoam os conflitos do existencialismo cristão de Soren Kierkegaard. Os planos psicológicos, o jogo de luz e sombras e os closes eróticos nos rostos femininos, executados com maestria por Sven Nykvist, estão em Persona (1966). No filme, uma atriz de teatro emudece (Liv Ullmann) ao interpretar Electra, e a partir de sua relação com a enfermeira Alma (Bibi Andersson), Bergman disseca a fragilidade da identidade humana numa fusão de personalidades. Curiosamente, ambas as atrizes foram musas e esposas do cineasta.
A questão da identidade, ou da falta dela, também foi explorada por Antonioni. Em Profissão: Repórter, Jack Nicholson é o jornalista que assume a identidade de um traficante de armas na África, numa atmosfera que remete à vida e ao suicídio social do inquietante poeta Arthur Rimbaud. Com um desfecho memorável – plano seqüência de dez minutos – Antonioni traduz bem sua linguagem. Seus filmes seguem um ritmo lento, sob um tempo que se arrasta, oposto à velocidade e às associações projetivas do cinema hollywoodiano; incompatíveis com a vida. Mesmo em seu filme americano, Zabriskie Point (1970), Antonioni não conseguiu se aproximar do público, talvez pela lentidão, talvez pela ambigüidade, já demonstrada no desaparecimento não explicado de A Aventura ou em Blow Up. Parecia não se importar, afinal, queria pôr tudo pelos ares.
O próprio Bergman era admirador do desinteresse e do tom visionário de alguns filmes de Antonioni. Diferenças de visões de mundo e de estilos à parte, trata-se de dois pensadores que perpetuaram idéias e sensações através da arte. Seus nomes estão eternizados no museu do inconsciente coletivo do cinema. Entretanto, numa civilização fatigada de referências visuais, sonoras e culturais, não sabemos bem que tipo de visita suas obras irão receber nessa era “pós-moderna”, na qual o silêncio e a contemplação estão encobertos pelos ruídos, bips e as vozes da falta de comunicação entre os indivíduos.
Um quarto vermelho com quatro mulheres taciturnas foi o ponto de partida de Bergman para compor Gritos e Sussurros (1975), um estudo sobre a morte e as relações humanas. Filho de um pastor luterano de ríspida educação religiosa com uma mãe fria e distante, fato retratado em Fanny e Alexander (1982), Bergman tem sua obra ressoada pela sua biografia, os relacionamentos vividos e os estudos em história da arte e teatro. A fragilidade da fé e do indivíduo, as marcas deixadas pelos cisalhamentos das relações humanas (Cenas de Um Casamento e Sonata de Outono), o desnudamento psicológico de seus personagens são recorrentes em sua obra, esteticamente marcada pela influência do expressionismo alemão, do cinema mudo sueco e do norueguês Carl Theodor Dreyer, em cujos filmes ecoam os conflitos do existencialismo cristão de Soren Kierkegaard. Os planos psicológicos, o jogo de luz e sombras e os closes eróticos nos rostos femininos, executados com maestria por Sven Nykvist, estão em Persona (1966). No filme, uma atriz de teatro emudece (Liv Ullmann) ao interpretar Electra, e a partir de sua relação com a enfermeira Alma (Bibi Andersson), Bergman disseca a fragilidade da identidade humana numa fusão de personalidades. Curiosamente, ambas as atrizes foram musas e esposas do cineasta.
A questão da identidade, ou da falta dela, também foi explorada por Antonioni. Em Profissão: Repórter, Jack Nicholson é o jornalista que assume a identidade de um traficante de armas na África, numa atmosfera que remete à vida e ao suicídio social do inquietante poeta Arthur Rimbaud. Com um desfecho memorável – plano seqüência de dez minutos – Antonioni traduz bem sua linguagem. Seus filmes seguem um ritmo lento, sob um tempo que se arrasta, oposto à velocidade e às associações projetivas do cinema hollywoodiano; incompatíveis com a vida. Mesmo em seu filme americano, Zabriskie Point (1970), Antonioni não conseguiu se aproximar do público, talvez pela lentidão, talvez pela ambigüidade, já demonstrada no desaparecimento não explicado de A Aventura ou em Blow Up. Parecia não se importar, afinal, queria pôr tudo pelos ares.
O próprio Bergman era admirador do desinteresse e do tom visionário de alguns filmes de Antonioni. Diferenças de visões de mundo e de estilos à parte, trata-se de dois pensadores que perpetuaram idéias e sensações através da arte. Seus nomes estão eternizados no museu do inconsciente coletivo do cinema. Entretanto, numa civilização fatigada de referências visuais, sonoras e culturais, não sabemos bem que tipo de visita suas obras irão receber nessa era “pós-moderna”, na qual o silêncio e a contemplação estão encobertos pelos ruídos, bips e as vozes da falta de comunicação entre os indivíduos.
*Marcelo Costa é jornalista.
quinta-feira, setembro 06, 2007
“... é da palavra que nascem todas as idéias do Homem – no princípio era o Verbo – e, como já afirmei antes, a palavra é o átomo da alma. E a última razão é que em português, a palavra tem o dom mágico de conter nela mesma – por linda coincidência e sem qualquer implicação semântica – a matéria-prima e seu instrumento. Somente com a palavra pode-se mover a palavra, tirar dela a sua essência, tocar o próprio coração da palavra; já que ela é lavra, já que ela é pá”.
Ziraldo
I - A OBRA COSTURADA POR FORA (OU A CICATRIZ DO MUNDO).
O conjunto da obra da escritora Clarice Lispector sempre foi muito criticado por apresentar estórias e personagens etéreos e esfumaçados, com pouca clareza e difícil apreensão. A autora foi rotulada de intimista e pouco comprometida com questões sociais, ou dizendo de uma outra forma, Clarice era uma escritora não engajada.
Dessa forma, então, Clarice Lispector se lançou ao desafio de responder à crítica, ou pelo menos tentar. Quis provar que sabia (mas, por opção, não desejava) fazer diferente.
A resposta para tal embate se concretizou em A hora da estrela, essa obra avassaladora: contundente e explícita e ao mesmo tempo fluida e velada. Ponto para a crítica, ponto para Clarice.
Como A hora da estrela é uma obra grávida de idéias e de elementos para reflexão e análise, pode-se constatar inúmeros aspectos por ela abordados: o papel do intelectual na sociedade; a indigência do povo brasileiro representado na figura de Macabéa; a reflexão sobre a condição da mulher; a discussão sobre o exercício da linguagem/fala como forma de legitimar o discurso competente bem como da apropriação do ato de escrever e de dar/ter voz.
Ler tal obra é ser, de alguma forma, violentamente lançado nesse universo inquietante e questionador, diria mesmo que é impossível não se sentir tentado a tecer comentários sobre esses temas. Ao nos depararmos com tal quadro, desponta uma necessidade urgente, uma quase obrigação de elaborarmos algumas respostas nem que seja para nós mesmos, para não sentirmos o incômodo de parecer, em absoluto, com a personagem. Surge uma vontade de agir, como se pudéssemos gritar (e sermos ouvidos!) em bom e alto som: Reage Macabéa! Fala alguma coisa!
Mas é claro que não é tão fácil assim!!
Ter a consciência do poder da palavra é viver em suspense, porque essa consciência nos diz a todo o momento que ela é fonte de liberdade tanto quanto o é de opressão. Todo aquele que domina o instrumental técnico da linguagem e com ele constrói representações acerca do mundo, faz parte de uma pequena elite que ocupa espaço privilegiado na sociedade, posicionando-se como agente transformador do discurso, decidindo o que deve ser dito bem como seu lugar na escala de importância e competência.
Dessa forma, aquele que tem voz usufrui a liberdade de construir os símbolos e celebrar seus valores. Por outro lado, o fato se de fazer parte do grupo que domina o discurso, necessariamente confirma o seu oposto: a existência dos excluídos, dos marginais, dos impossibilitados de se fazerem representar. Os detentores do discurso “legítimo” estão sempre lembrando a esses outros de que não possuem nem espaço nem voz, logo estão condenados a não compartilhar e celebrar o código dessa minoria. De alguma forma usurpam e aviltam o ser, retirando-lhe a voz e o direito de participar efetivamente dos ritos sociais.
Levando em consideração o texto de J. Carey[1] sobre o papel dos intelectuais na sociedade, é possível observar o estreito diálogo que estabelece com o livro em questão.
Carey nos fala da resistência dos intelectuais em aceitar a presença da massa quer como consumidora de informação, formadora de uma opinião ou (pior!) produtora da cultura formal.
É possível traçar um paralelo entre a posição reivindicada pelos intelectuais representantes do movimento modernista europeu citado no texto de John Carey com os filósofos da Antigüidade, os intelectuais se assemelhariam aos escolhidos, os seres superiores que regeriam a sociedade bem ao modelo desenvolvido por Platão, n’A República[2], para dividir a sociedade grega em grupos segundo a função social que viriam a desempenhar. É a conhecida lei dos três estágios da alma.
As Almas de Bronze formavam os exércitos por estarem mais ligadas às aptidões físicas; as Almas de Prata compunham o setor mercantil e artesanal, provendo os bens necessários para a subsistência; e por fim as Almas de Ouro - aquelas poucas que ocupariam cargos públicos estratégicos ou então formariam a casta dos filósofos, “os escolhidos” pelo seu aprimorado intelecto e aptidão de trabalhar com a palavra, ou dizendo de outro modo, as Almas de Ouro eram as detentoras do discurso dominante, logo, da representação.
As Almas de Bronze morriam como tal, e assim por diante, não havendo a possibilidade de ‘invasão’ na competência dos outros e, mais importante, não ameaçando o status do sábio e propagador da cultura formal.
Carey vai mostrando, ao longo do seu texto, o comportamento desses intelectuais (não tão distante do modelo idealizado por Platão) diante da crescente transformação social: crescimento demográfico, o advento da imprensa escrita, a política de alfabetização, etc. Vendo-se impossibilitados de brecar o processo histórico, criaram um mecanismo poderoso, desenvolveram um código de escrita bastante elaborado como forma de excluir a massa e continuar lhe negando direito à voz, permitindo que a elite intelectual permanecesse dominando o discurso.
Ora, não é essa a estória da nossa heroína trágica, de Macabéa?
Hoje, já é possível aceitar o fato (ou a desculpa) de que a indigência seja pelo menos representada na literatura, mas também é sintomático que num plano de análise (que chamarei de material) essa indigência seja ironicamente representada por uma personagem como Macabéa, tão frágil, de "corpo cariado" e sem voz ou pelo menos inconsciente da sua existência.
Por mais vida, por mais sentimentos profundos e complexos que Clarice tenha dotado sua obra e sua Macabéa – mulher, feia, nordestina, semi-alfabetizada –, sua percepção e apreensão só é possível por um leitor com características opostas às da personagem. (Que contradição! Um livro escrito sobre a massa, mais especificamente sobre o povo brasileiro, “só pode ser lido [3]” pela mesma elite que dela fala!).
Se Clarice já é inerentemente uma escritora de difícil leitura e compreensão, em A hora da estrela, o universo humano ficou ainda mais particularizado, ou seja, voltado para uma elite detentora de bens simbólicos refinados o suficiente para adentrar em tão densas questões. Falando mais claramente: a massa está presente na obra com todas as implicações e ambigüidades possíveis. Mais do que isso, a massa, protagonizada por Macabéa, é elemento primordial no livro, contudo ela não tem acesso a ele e, mais importante, não foi escrito por alguém que a represente.
Recuperando o ponto onde disse haver distintos planos de análise da obra, um que chamo material e um outro de existencial, quero desde já esclarecer que são duas faces de uma mesma moeda. Esses planos formam uma díade inseparável, mas para efeito de visualização e entendimento, creio ser legítimo fazer esse recorte.
À primeira vista, é possível apontar um plano material de análise. Diria que é aquele explicitado pelo narrador-personagem, aquele que salta aos olhos, tamanha a crueza com que delineia as características de Macabéa: ela é feia, frágil, vaga, vazia, desinteressante, sem voz e “incompetente para a vida”. Não tem opinião, vive exposta ao que o acaso lhe revela e o que revela é inconteste.
A começar pelo próprio nome. MACABÉA comporta todas as implicações da ambigüidade e do paradoxo dos planos de análise. Macabéa é o feminino de macabeu. Macabeus[4] é também um livro (subdividido em duas partes) do Antigo Testamento que conta a estória do cativeiro e libertação dos judeus depois do domínio de Alexandre Magno da Macedônia. Após uma fase de gozo de liberdade religiosa, os hebreus caíram sob o jugo dos reis da Síria. Antíoco IV acentuou a luta contra os judeus quando impôs aos mesmos o helenismo como prática religiosa e punindo com pena de morte a prática da religião judaica. Alguns judeus preferiam a morte ao abandono da sua fé. Posteriormente, num movimento de resistência, foram chefiados primeiro pelo sacerdote Matatias e depois pelos macabeus: Judas, Jônatas e Simão.
Assim como os macabeus foram obrigados a se submeter a uma imposição tirana, cerceadora da liberdade religiosa, também a nossa heroína se viu obrigada a sobreviver num mundo opressor que limita sua própria liberdade de existir.
E o que tudo isso quer dizer? Macabéa traz em si mesma o germe da contradição: encontra-se encarcerada pela sua própria inadaptação à sociedade de valores capitalistas (plano material) ao mesmo tempo em que tudo explicitamente negativo que possui representa a liberdade plena do mundo a ser vivido (plano existencial).
O corpo, a fragilidade da heroína sem voz é o cativeiro que a aprisiona, gritando muito alto para o mundo que ela é incapaz de reproduzir o sistema no qual está imersa. Em tal mundo ela não se encaixa, tanto que no fim ela morre (talvez como aqueles macabeus que preferiam a espada a negar suas crenças). A sociedade alardeia: Macabéa, não existe lugar para você nesse mundo! Em contrapartida, sua liberdade, sua redenção se localiza num outro plano: o da afetividade. A sua incompetência para viver (os valores pequeno-burgueses) é refletida na sua incompetência para enganar, ambicionar ou ferir o outro. Apesar de ser (aparentemente) vazia e estúpida, Macabéa, à la Sartre, dialoga exaustivamente consigo mesma, se confronta, questiona a si e a tudo o tempo todo quando duvida das coisas. E se há algo que a ‘velha Maca’ possui são dúvidas: não tem certeza de quem é, do que faz, da dor e do amor que sente.
Será coincidência que a construção dessa personagem apática abrigue em si mesma a desgraça e a força do poder de resistência de um povo?
II - A OBRA COSTURADA POR DENTRO (OU A OBRA POR ELA MESMA).
Notemos que as interpretações e correspondências estabelecidas entre a obra e a lógica do tempo e do espaço do mundo ‘real’ (contemporaneidade), podem também ser feitas nos limites do próprio livro que nesse sentido é atemporal, porque levanta questões de ordem internas (diálogo de si sobre si mesmo), como as questões de estética, de estilo, de linguagem e da própria relevância da obra como tal.
Por exemplo, impossível deixar de perceber o diálogo e os paralelismos que se estabelecem entre Clarice Lispector e Machado de Assis, no que diz respeito ao estilo.
O primeiro ponto que salta aos olhos é a questão da onisciência/onipresença do autor/narrador/personagem com os narradores de Machado. Rodrigo S.M. possui a virulência e a sutileza nas/das palavras e reflexões sobre o destino da personagem. Assim como os narradores de Machado, ele não se restringe a narrar fatos. Na verdade, ele está tão entrelaçado na vida da heroína que por vezes fica difícil reconhecer de quem são os sentimentos e impressões do mundo e das coisas. Na instância humana do romance, ele conhece tão bem sua personagem que chegam a se confundir, são antípodas de uma mesma relação.
Ao mesmo tempo, (numa outra instância que reconhecemos enquanto exercício da linguagem) demarca o abismo que se estende entre os dois. Ele é o detentor da fala, do discurso. Várias vezes se gaba do estilo metalingüístico e do domínio do seu instrumento de trabalho – a palavra!
Um segundo ponto é a prevalência da análise psicológica (rica nas obras de Machado) que ganha grande destaque como questionadora do ser humano e do seu papel social, da relação metafísica entre o Deus criador e a Existência tal como se apresenta: o intelectual tem esse caráter divino de criar vida, inventar um mundo próprio, agindo como um Deus no seu Universo literário. Essas inquietações são sentidas através de Clarice, Deus-mor da obra; de Rodrigo, “co-criador” de Macabéa e de sua condição (melhor seria dizer sua não-condição); e da própria Macabéa, que é incapaz de inventar um mundo próprio porque desconhece que possa fazê-lo.
O terceiro ponto é o jogo que a autora faz com o conto “A cartomante[5]”, usando exatamente os mesmos elementos contidos neste, ou seja, apresentando uma saída externa à personagem e sua trajetória frente à impossibilidade deles próprios darem uma resposta a suas angústias.
Macabéa não tem alternativas no espaço no qual está imersa e, quando surge a oportunidade de reação, ela é falseada porque não é uma ação provocada pela consciência da sua situação no mundo, qualquer que seja o plano de análise, mas induzida por uma ação salvacionista externa e superior que está além da realidade vivida.
Não podemos esquecer as pitadas de ironia com que a autora dá cor ao quadro e faz as ligações entre as duas realidades: a da ficção e da não-ficção. Clarice ‘brinca’ metafórica e simultaneamente, com os valores do universo literário e os da sociedade capitalista de consumo.
A saída apontada pela cartomante de Clarice está no encontro de um amor específico e preconceituosamente estereotipado, aceito como modelo de sucesso dentro da sociedade. A salvação de Macabéa se dá pela mão de um belo homem louro, rico e estrangeiro. Sintomático que nossa heroína seja pobre, esteticamente desinteressante e nordestina e que sua ascensão social (material) e humana (existencial) só possa se concretizar à margem do processo de tomada de consciência, da SUA consciência. Mais uma vez é marcada a incompetência de Macabéa para superar suas debilidades por ela mesma.
No fim, vence o sistema de valores capitalistas. Não há qualquer redenção para ela. Ao mesmo tempo em que seu autor/escritor (Rodrigo/Clarice) se embriaga e se confunde na existência de Macabéa, dela se diferencia enquanto ator, agente da transformação social (ele é o intelectual) quando - apesar de toda a coincidência do oco de suas vidas - ele continua a existir e tendo lugar no mundo, continua sendo aceito, continua comendo morangos. . .
[1] CAREY, J. “A rebelião das massas” in Os Intelectuais e as Massas – orgulho e preconceito entre a intelligentsia literária, 1880-1939. São Paulo: Ars Poetica, 1993.
[2] É preciso deixar claro que o princípio de seleção das almas obedece ao critério de igualdade de oportunidades. Todos os cidadãos receberiam uma mesma orientação até o teste. Os reprovados nessa primeira etapa, consequentemente paravam de receber qualquer instrução, constituindo o exército - as almas de bronze. Os aprovados prosseguiam nos estudos até o novo teste. Os reprovados formariam um segundo estamento social e os aprovados recebiam como prêmio a especialização nos estudos, logo, constituindo a elite do saber, as almas de ouro.
[3] Cabe aqui uma ressalva: quando digo que este livro só “pode ser lido por uma...” não está aqui contido qualquer espécie de preconceito. É claro que não existe um público apto para ler especificamente Clarice, João Cabral, Machado ou qualquer outro escritor. A diferença que estabeleço é de que há algumas especificidades concretas exigidas para esta leitura da obra que certamente a massa destituída de voz não consegue alcançar, pois – parafraseando Bourdieu – não tem a apropriação dos instrumentos de capital simbólico ou está fora deste determinado campo científico. Ou ainda em outras palavras, os representantes da massa não podem ser seus próprios críticos, pois não alcançam os códigos do campo literário. E isso nada tem a ver com a sensibilidade de cada leitor em relação a uma obra ou autor.Ver BOURDIEU, P. “A produção e a reprodução da língua legítima” in A Economia das Trocas Lingüísticas. São Paulo: Edusp, 1996 e “O campo científico” in A Economia das Trocas Simbólicas.
[4] “I e II Livro dos Macabeus” in Bíblia Sagrada. Ed. Paulinas. p.1110-74.
[5] Machado de Assis. “A Cartomante” in Contos. Ed. Ática.
sábado, agosto 11, 2007
O diário de G.H (9)
A Ressureição de Lázaro. Pennacchi, Fulvio
Lazarus Heart
Lázaro. Foi esta a palavra que ela grafou em alto relevo sobre minha pele, como o arranhão de uma fera. O nome queimava na minha superfície, era um braseiro vivo, um vulcão cuspindo lavas. Não importava o que ou o quanto fizesse, nada aplacaria a ardência.
Foi então que os sonhos começaram a visitar-me todas as noites, assiduamente. Eles contavam-me sobre ela de maneira enigmática e fragmentada. Era um jogo, um puzzle.
Depois os sonhos cessaram e a ardência cedeu, a pele cicatrizou e de repente uma nova descamação. A pele ressequida foi saindo e mais uma vez surgiram os olhos súplices. Eles revelaram o segredo da palavra.
Disse-me que vivia em mim já há algum tempo. Seu embrião, latente, esperava pelo momento certo de fazer-se presente. E exatamente no seu aniversário de um ano, ela abriu os olhos pela primeira vez, esticou pernas e braços procurando ajustar-se à minha forma.
Como Lázaro, ela ressuscitou.
A quantos fora dada uma segunda chance? Uma nova vida? Nascer e nascer?
Esqueceram apenas de me perguntar se eu queria, se eu estava disposta a ter dois corações a bater e, conseqüentemente, a se dilacerarem.

