terça-feira, janeiro 23, 2007

As matriarcas (3)

Maria Antônia da Anunciação. D. Antônia. Vó Totonha. Mulher forte e homem da casa. Levava a família na rédea curta. Sempre solicitada nas horas de aflições. Criou sete filhos e alguns irmãos. Trabalhou feito louca para que nunca faltasse o necessário. Rigorosa na educação. Temente a Deus. Suas feições duras escondiam um bondoso coração. Com a chegada dos netos, o franzido da testa atenuou-se.
Ensinou-me a fazer contas. Toda a tarde tomava-me a tabuada com direito à prova dos nove. Ralhava quando me via contar nos dedos, coisa que ainda hoje faço. Ela esmerou-se, mas sempre fui péssima em matemática, não tenho a menor afinidade com os números.
Coisa que eu gostava era vê-la costurar. Fazia coisas lindas. Lembro-me de um vestido de casamento todo de organza. Sonhei com ele por muitas noites, imaginando-me naqueles saiotes rodados, flutuantes. Ele tinha flores aplicadas que ela mesma fez. Recortava os moldes, passava goma no tecido e depois metia-lhe o ferro quente para moldar as pétalas. Eu olhava tudo aquilo maravilhada, com olhos de admiração e cobiça. Um dia teria um vestido como aquele, cheio de flores e laços.
Vovó Totonha sempre fez minhas roupas. Só comecei a usar roupas de lojas no colegial, quando minha mãe comprou meu primeiro jeans. De resto, tudo era feito por vovó. As outras meninas morriam de inveja porque minhas roupas eram únicas. Nunca corri o risco de ver alguém com o mesmo modelo. Não sabia eu que a exclusividade das minhas peças não era um capricho ou vaidade, mas contenção de despesas. Melhor assim, ao invés de carregar o trauma da pobrezinha, desfilei com brejeirice o prêt-a-porter de vovó Totonha.
Ela também me ensinou a bordar, fazer crochê, capas de almofada, trabalhar com retalhos... de todas essas atividades manuais, a única habilidade que me restou foi manejar a caneta e isso também devo a ela que alternava a lição da tabuada com as aulas de caligrafia. Eu adorava desenhar as letras na pauta, vê-las transformando-se em palavras redondinhas sobre o papel.

segunda-feira, janeiro 15, 2007

As matriarcas (2)

- Desfaz esse bico, Tiziu! Anda, diga, o que você faz em São Pedro?
- Eu ajudo meu pai.
- E o que seu pai faz?
- Ele é ferreiro. Conserta as carroças e bicicletas de todo o povoado.
- Parece divertido.
Ele deu de ombros.
- E a escola?
- O que tem?
- Como o que tem? Você estuda, não estuda, Tiziu?
- Estudo, mas não gosto muito. Eu gosto mesmo é de correr por aí no meu cavalo.
- Uma coisa não impede a outra
Mudou de assunto:
- A dona é parente do Nhô Agenor?
- Não.
- Então o que veio fazer aqui?
- Uma pesquisa.
- Não entendi.
- Quero saber sobre algumas pessoas que viveram aqui.
- A dona é da polícia?
Não pude evitar o riso. Sua pergunta continha tanta excitação e aventura.
- Não, Tiziu. Eu conto histórias e elas viram livros.
- Ah! – exclamou todo frustrado.
Minha vez de mudar de assunto:
- Tiziu, será que seu pai me aluga uma bicicleta? Acho que vou precisar de uma.
- Claro. Depois eu levo a senhora lá na oficina para escolher uma bem bonita.
- Ótimo.
- Chegamos.
A pensão do Agenor era um casarão estilo colonial, antigo, mas bem conservado. Móveis rústicos, toalhas de linho, portas pesadas, assoalho brilhando e um cheiro forte de óleo de peroba.
- Vou pegar suas malas.
- Obrigada.
Agora que eu já recuara no tempo, deveria ir até o fim. Sabia que não se tratava de uma história qualquer.

sexta-feira, janeiro 12, 2007

As matriarcas (1)

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O trem finalmente pára na estação. A velha maria-fumaça gemeu sobre os trilhos por todo o percurso. Trezentos quilômetros de ranger de ossos.
Desço e o chefe da estação grita as boas-vindas. Ele ainda se veste como os antigos chef de gare do final do século XIX. Sua roupa não tem um único vinco, o quepe está impecável em sua cabeça, mas a estação está abandonada, tudo é só pó, paredes rachadas precisando de tinta. São Pedro das Missões parou no tempo. Todas as coisas têm cheiro de passado.
- Por favor, como faço para chegar até a cidade? Poderia me conseguir um táxi?
O chefe sorriu:
- Em São Pedro não temos táxi ou ônibus. Mas posso conseguir uma charrete.
Uma charrete!! Meu Deus, o povoado ainda usa charretes. Depois de trezentos quilômetros trepidando num trem ainda terei de agüentar uma boa meia hora numa carroça.
- Pois que seja.
- A dona não é daqui, vê-se logo. O que a traz a esse fim de mundo?
- Meu ofício.
Saquei da bolsa minha cadernetinha de anotações. Chico do táxi. Chico, segundo relatos da vovó, era o único do povoado que tinha carro. Um velho Ford amarelo que ele usava para prestar socorro aos moradores. Nunca cobrava pelos serviços.
- o que aconteceu com o Chico do táxi?
O homem arregalou os olhos como se tivesse visto uma assombração. Será que disse algo errado?
- O Chico morreu, dona. Faz três anos.
- Lamento muito. Deixe que eu me apresente. Sou Olívia, neta de Totonha, bisneta de D. Lola.
Pensei que o homem fosse morrer na minha frente. Ficou paralisado com uma estátua de sal.
- Minha avó contou-me muitas histórias daqui.
- Prazer, D. Olívia. Desculpe o espanto, mas tem tanto tempo.
- Eu sei. Estive aqui uma única vez. Eu tinha sete anos na época. Retive algumas coisas na memória e pelo que vejo, não mudou muito. Achei que fosse ter um impacto, mas sinto-me como a menina de sete anos.
- É, as coisas não mudaram muito mesmo. Vou chamar um moleque para levá-la até a cidade. A senhora deve está cansada.
- Estou mesmo. Diga-me, a pensão do Agenor ainda existe?
- Existe, sim.
- Tiziu, ó Tiziu vem cá, menino.
Tiziu era um garoto negrinho como a noite, mas tinha olhos enormes e um sorriso tão branco e largo que espantava qualquer medo ou receio. Porque devo confessar, estava receosa com os fantasmas que encontraria.
- Olá Tiziu. Eu sou Olívia. Poderia me deixar na pensão do Agenor?
- Posso, sim, dona. Tenho o cavalo mais rápido e valente daqui.
- Então, vamos.
- Tiziu, não vá em disparada. Não apronte nenhuma com a moça.
Ele amuou e murmurou um “tá bem” a contragosto. Agradeci ao chefe da estação. Quando a charrete ia adiantada, ele gritou:
- Esqueci de dizer, sou mestre Antônio.
Acenei com a mão e respondi.
- Eu sei.

Um poema que me marcou...

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"Em legítima defesa
Sei hoje que ninguém antes de ti
Morreu profundamente para mim
...
Os outros estão mortos porque o estão
Só tu morreste tanto que não tens ressurreição
Pois vives tanto em mim como em qualquer lugar
Onde antes te encontrava e te posso encontrar
E ver-te vou como quem voa ao caminhar
Todos eram mortais e tu morreste e
Vives sempre mais."

in Volume II - Ruy Belo

quarta-feira, janeiro 10, 2007

Feliz Aniversário!!!!

No último dia 7, o espaço Sincronicidade fez seu primeiro ano de vida.
Que venham muitos outros, Vítor.

sábado, janeiro 06, 2007

De volta à programação "quase" normal

Filosofia barata (1)

- E se tudo não passar de uma grande ilusão? Se estivermos todos mergulhados tão profundamente no sono que passamos a acreditar que isto é real?
- Como assim?
- Esquece. É mais um dos meus delírios, mais uma das minhas tentativas de colocar lógica, alguma razoabilidade na vida.
- És doida.
- Eu sou – riu-se.
- Essa paz de que falas, que almejas fica cada dia mais distante, não vês? Nunca a terás se quiseres controlar tudo, entender tudo, explicar tudo. Há coisas que não se explicam, são os mistérios insondáveis da alma, da vida.
- Estás a dizer-me que somos títeres? Um bando de levianos?
- Não, estou a dizer que somos diferentes e temos padrões éticos e morais conflitantes. Há quem ache banal coisas que consideras importante. E o que vias fazer? Passar a vida em dor ou aceitar que toda essa gente não é par para ti, mas pode ser para outros?
- Sou obtusa, incontestavelmente – debochou.
- Sabes que é isto que te salva da insanidade? Teu humor ácido, tua ironia, teus deboches.
- Cada um defende-se como pode.
- É quando não te levas tão a sério que posso ver tuas asas.
- Não tenho intenção de escondê-las, mas sim de usá-las sem medo ou restrição. Mas há tantos muros...
- Sempre haverá, mas tens a opção de voar alto, acima deles.
- Então compreendestes, finalmente, o meu dilema.
- Compreendi?
- Voar acima deles instalará tal distância que o convívio tornar-se-á impossível e ficar próxima limita-me a envergadura.
- Alguns dilemas são cárceres, labirintos sem saída ou, no máximo, de uma saída só: matar ou morrer. Outros, porém, são multifacetados; abrigam muitos caminhos, promovem a busca do equilíbrio, entendes? Podes traçar um plano de vôo onde tuas asas toquem as duas extremidades.
Ela riu.
- Do que ris?
- Dessa conversa, da tua amizade, do diálogo em espiral...
- Explica-me.
- E sou eu quem gosta de explicações!
- Minha culpa, minha máxima culpa.
- O riso vem do prazer de ter alguém confrontando sem guerras, do cuidado em confortar e buscar – juntos e de modo inclusivo – alternativas possíveis, do movimento quase cênico em apresentar idéias, como se bancássemos o advogado do diabo um do outro.
- Tudo filosofia barata regada a bom vinho.
- In vino veritas.

sábado, dezembro 23, 2006

Feliz Natal

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Igreja Basílica Nosso Senhor do Bonfim.

NOITE FELIZ
(Adélia Prado)

Dói tanto que se pudesse diria:
me fere de lepra.
Mas que importa a Deus o monte de carne podre?
Tem piedade de mim, Vós, cujo filho duas vezes gritou,
apesar de ser Deus. Me dá um sonho.
É como se meu pai não me amasse
não tivesse dado a vida por mim.
Só belos versos, não.
Uma linha depois da outra,
tão finamente escritas,
com tão primoroso fecho –
e o que sinto é cansaço.
Basta a beleza própria
da estocada das coisas no meu peito.
Comer, sonhar, talvez morrer, quem sabe?
A morte existe, ô pai?
Sei que na Polônia católica
ninguém escreveu com estas mesmas palavras
na carrocinha de doces:
“para todos e sua família desejo um feliz natal”.
No Brasil, sim, na minha rua,
Usando uma língua pobre e uma caneta de cor,
alguém sentiu o inefável.
Não se perderá o fermento, ó comadre.
Bebem? Não pagam as contas?
- Vamos fazer um teatro...
Tem máscara do boi, do burro,
As vestes de José e Maria,
tem a roupa do homem que negou hospedagem
mas que veio depois, depois da estrela,
dos anjos, depois dos pobres pastores, e mais recebeu.
Porque não merecia.
Sou miserável.
Um monte de palha seca
É a obra de minhas mãos.
Tem piedade de mim,
Desce, orvalho do céu,
Desce sobre nós,
Restabelece o fio das conversas saudáveis.
Traze a fresca manhã.

quinta-feira, dezembro 21, 2006

Fado

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Da série People on the phone. Jonh Foxx.

Acostumamos a nos confessarmos no silêncio das palavras. Somos capazes de discernir se a pena pesa ou não na mão pela forma de nos expressar. Encontramo-nos perfeitamente na ausência de sons.
Mas ontem, finalmente, sua voz alcançou-me e isso pareceu-me um fado cheio de sentimentalidades.
Ouvi-lo foi como reconhecer minha metade perdida.

terça-feira, dezembro 19, 2006

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Anthony by the sea. Nan Goldin


I carry your heart with me (i carry it in my heart)
I am never without it (anywhere
I go you go, my dear; and whatever is done
by only me is your doing, my darling)

I fear not fate (for you are my fate, my sweet)
I want no world (for beautiful you are my world, my true)
and it's you are whatever a moon has always meant
and whatever a sun will always sing is you

here is the deepest secret nobody knows
(here is the root of the root and the bud of the bud
and the sky of the sky of a tree called life; which grows
higher than soul can hope or mind can hide)

and this is the wonder that's keeping the stars apart
I carry your heart (i carry it in my heart)

E.E. Cummings

domingo, dezembro 10, 2006

Teorias amorosas (11)

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Heaven can wait. Victor Melo

- Volta pra mim!
- Não posso.
- Me perdoa!
- Você já está perdoado.
- Então volta pra mim!
- ...
- Você não me ama mais? É isso?
- Acho que ainda sobrou algum amor.
- Então por quê? Já sei, é vingança. Você quer me dar o troco, não é?
- Não, não é vingança.
- É o que, então?
- Paz, só paz.
- Eu não te entendo.
- Isso não me surpreende.

Com esta, encerra-se a série Teorias amorosas.

quinta-feira, dezembro 07, 2006

Teorias amorosas (10)

Prometo te querer
até o amor cair
doente, doente”.

Depois de colocar-me definitivamente para fora de sua vida, disse, comovida como o diabo, as seguintes palavras:
“Apesar da separação (tão desejada por ti), continuo amando-te. Não te envaideças por isso. O mérito é todo meu. Independente de ser ou não correspondida, vou amar-te até o fim, até o fim do meu amor”.
Parti. Estava livre, mas sentia-me estranhamente vazio.

sexta-feira, novembro 24, 2006

Uma pausa para a delicadeza

Saudade. A saudade vazou meu dia, transbordou memórias adormecidas, perfumando o ar com um arome doce e suave.
Aqueles mesmos olhos, o sorriso contido, os gestos tranqüilos e a lembrança de um passado sereno. Paz, uma paz profunda invadiu minha noite, deu-me o conforto da cumplicidade, da conversa amena, do diálogo franco.
E de repente era o mesmo amor, o mesmo cheiro de jasmim, uma ternura tão, mas tão profunda. Senti-me acariciada. Um calor agradável no corpo e a sensação de felicidade.
Há tempos não me sentia assim viva, compreendida, admirada. Ele sabia enxergar a pessoa que sempre fui e sou e aceitava-me sem questionar nada. Não era uma concessão, era um saber genuíno, um estar à vontade completo.
Adão e Eva. Nus. Nenhuma vergonha, nenhum pudor. Nenhuma árvore proibída entre nós. Tudo era permitido num respeito absoluto. Não carecíamos de negociações, éramos só confiança.
Lembrei-me irremediavelmente do Chico: "não se afobe não, que nada é pra já, o amor não tem pressa..."
É, a delicadeza não tem tempo.
Entre chegadas e partidas, encontros e desencontros, entendemos o sentido do "para sempre".
Não tardou muito e a vida prosseguiu seu curso... ele beijou-me as mãos, entrou no táxi para até qualquer dia.
Eu caminhei até minha casa. Na cabeça, a música do Wisnik que ele tantas vezes cantou para mim.

domingo, novembro 19, 2006

O diário de G.H (8)

A bull in a china room

Eu não queria machucá-la. Não fora essa a minha intenção. Tocar sua chaga aberta fora um gesto involuntário. Quisera estancar o sangue e repor, se possível, o pedaço que lhe faltava.
Foi aí que me lembrei daquela casquinha no meu peito e dos olhos... ah, aqueles olhos! Lembrei-me também do empurrão que ela me dera. Ela instigara-me, comunicara-me de alguma forma sobre a ferida que se abriria nela, em nós. Tentou avisar-me e não compreendi o que seus olhos viram com antecedência.
Depois disso, ela se retraíra no meu interior, mas eu podia sentir perfeitamente a sua respiração.
Eu continuava tropeçando nas minhas muitas pernas, na ânsia louca de reencontrá-la, mas ela parecia não querer novo contato, como se temesse um descuido, um susto, uma dor. Contudo, eu continuava esperando por ela, pelo diálogo interrompido. Esperaria o tempo necessário.
Chegamos a um ponto em que retroceder não é possível.
Aquela eterna angústia, aquele desconforto de não me saber, de não conseguir identificar as tantas partes do meu todo, tudo isso clamava por definições e essa era a minha chance. Não viveria mais tropeçando em mim, não evitaria mais os movimentos por temer arranhar ou quebrar alguma estrutura interna. Estava exausta de pisar mansinho para não afugentar meus ‘convidados’. Convidados qual o quê! Não chamei ninguém para dividir meus cômodos. Eles simplesmente vieram com uma bagagem enorme. Tinham muitas perguntas, falavam simultaneamente, suas vozes uniam-se em coro à minha própria voz. Eu sei, eu sei que vieram para ficar. Dadas tais circunstâncias, compartilharíamos nossas muitas metades.
Adormeci, mas de madrugada acordei sentindo cócegas nas minhas coxas, no ventre, como se milhares de formigas caminhassem sobre mim.
Acendi a luz. Ela deixara um recado.

sexta-feira, outubro 27, 2006

Teorias amorosas (9)

- Alô.
- Susie?
- Quem é?
- Ulisses.
Após seis anos do mais absoluto silêncio, Ulisses resolveu aparecer. Assim simplesmente como se seis anos fossem seis dias.
- Susie?
- Oi.
- Estou na sua cidade.
- Ah, está?
- Sabia que me separei?
- Não, não sabia. Na verdade, eu nem sabia que você havia casado.
- Estou com saudades. Quero muito te ver, sair, conversar, tomar um vinho...
- Me comer... Tudo exatamente como antes, como se a última vez tivesse sido ontem, né?
Cinicamente, ele responde:
- Ai! Você não mudou nada. Continua cortante.
- Também você não mudou nada. Continua um cretino.

Teorias amorosas (8)

Ele quis ver com os próprios olhos. Há menos de um mês atrás, ela andava se arrastando pela casa, chorando as mágoas, sentindo a sua falta e agora, soube pelos amigos em comum que andava em grandes noitadas.
- E é assim que você me ama?
- ‘Alguém’ me ensinou a máxima: vai doer, mas depois passa. Passou.
- Tempo rápido o teu, hein?
- Não culpe o tempo. Ele não mitiga nada. Não é atenuante. Seu único mérito é deslocar o foco da nossa dor. E quer saber? Vá à merda.
- Que ridículo. Depois de velha, ficou obscena.
- Obsceno é o abandono. E velha é a tua mãe.

quinta-feira, outubro 26, 2006

Teorias amorosas (7)

Ela nervosa: “Você disse que me amava, caralho”.
Ele impassível: “Exatamente”.
Ela histérica: “Exatamente o quê?”.
Ele mais impassível ainda: “Amava. Não amo mais”.

Teorias amorosas (6)

Vivia pelos cantos, amuado, murcho, na defensiva. Era refratário ao mundo ao seu redor. Dormia muito, tanto que já não era capaz de distinguir os dias.
Tentei contato:
- Que tal uma caminhada?
- Não tenho vontade.
- Já sei. Vamos sair, chamamos os amigos, tomamos uma cerveja.
- Vai você.
- Eu vou, mas e você?
Deu com os ombros.
- Esse teu silêncio é o que me mata.
De repente, num estalar de dedos, ele veio de braços abertos em minha direção. Ele sempre agia assim quando lhe faltavam argumentos, tão patético. Esquivei-me dos seus tentáculos. Seu abraço não iria mais abafar o grito:
- Do que você tem medo? Seja qual for o problema, eu não vou te abandonar!
- Talvez eu queira ser abandonado.
Talvez eu queira ser abandonado. Talvez eu queira ser abandonado. Isso ecoava nos meus ouvidos numa avalanche de sinonímia: “cai fora”, “eu não te quero mais”, “acabou”. Foi o que ele disse sem dizer. E se não foi, também não se retratou.

sexta-feira, outubro 13, 2006

Ash to ash, dust to dust

Perdida. Eis como me encontro.
Não sei onde estão os caminhos que apontam para os recomeços.
Lanço os dados como quem inicia um novo jogo, mas por desconhecer as regras, não sabe como mover o pião. Ah, se eu pudesse, ao menos, discernir entre os pontos de partida e chegada, sentiria algum alívio, algum conforto.
Os dias são sempre iguais, ou pior, eles nunca são iguais aos que desejo. Uma estranha sensação de impotência apossasse-se de mim e tudo o que posso é transbordar meus rios subterrâneos.
Choro porque os dias são cinzentos, porque faz frio na minha alma; choro ao ler um poema, ao ouvir uma música, ao ver uma cena; choro porque colho rosas matutinas, mas não retenho em minhas mãos seu perfume; choro porque não consigo expressar o que sinto; choro de cansaço porque o cansaço é tudo o que me resta.
As palavras tornaram-se ermas. Hibernaram em busca de significados e o inverno, ah, o inverno é tão longo!
Enquanto o tempo arrasta suas horas, minha casa acumula poeira e eu me alimento de terra.

Teorias amorosas (5)

Todas as suas coisas couberam numa pequena valise e ainda assim sobrou espaço.
Passaram o dia mudos, evitando olhares, os mesmos cômodos. Um grande mal-estar tomou conta, a certeza do inconveniente, mas era 31 de dezembro e não dava mais para cancelar a ceia caríssima que haviam pago há dois meses atrás.
Então vieram a noite, as luzes, o brilho, o champanhe e os fogos. Dez minutos ininterruptos de fogos.
Melancólica, encostou a cabeça no ombro dele. Ficaram assim por um momento e depois foram embora.
Ele abriu a porta do carro. Ela pegou a valise e antes de despedir-se, observou:
- Sabe, olhando aqueles fogos, a explosão... acho que finalmente compreendi a nossa história.
- Sei. Breve, mas linda?
- Não. Muito barulho por nada.

segunda-feira, outubro 09, 2006

Ato de Contrição

Seis meses após o rompimento, esbarraram-se no mercado central. Ela congelou ao vê-lo, seu corpo contraiu-se num espasmo curto.
- Como é bom rever-te bem, Dulce! Estás mais bonita. Emagreceste!
- O mérito é todo teu.
- ?
- Sofrimento combinado à inapetência é um coquetel infalível, meu caro. Deixa qualquer Spa no chinelo.
Sem graça, ele olhou-a bem no fundo dos olhos e com 180 dias de atraso disse:
- Perdoa-me pela minha incapacidade, pela maneira brutal como parti.
Os olhos de Dulce ficaram quentes e úmidos, seu rosto estava em brasa. Ela pensou que despejaria ali toda a sua dor, ira, desprezo e incompreensão. Que finalmente chegara o momento de cuspir todos os cacos de vidros que engolira, o fel; que o esmurraria, que cobraria a conta do analista, da farmácia; que o insultaria e pediria o ressarcimento por todos os danos, pelas poucas horas de sono, pelos dias não vividos, por cada ruga, pela memória quase perdida, pelo riso esquecido, pelos sonhos mofados. Mas para sua surpresa, não disse nada.
- Dulce, se pudesse voltar o tempo...
- Não podes.
- Eu sei, mas se pudesse, ajoelharia a teus pés (e já foi ajoelhando) e imploraria teu perdão. Pediria mais uma ‘última chance’. Eu sei, eu sei... já me deste a última chance pelo menos duas vezes, mas, Dulce, descobri que é a ti quem amo. Eu sinto tua falta.
Respirou fundo. Depois, serena e compassadamente, falou:
- Dá-me uma boa razão. Convença-me que mereces.
Amaro suou frio. Não podia desperdiçar a oportunidade. Então resolveu apelar para Deus.
- Porque és boa, Dulce. Tu és cristã e como tal compreendes que todos cometem erros e se os reconhecem são dignos de uma segunda chance.
Como é engraçado ver o ser humano em estado de desespero. Amaro ali súplice, na sua frente, de joelhos... por muito menos, ela o teria recebido de volta.
- Encontra-me amanhã, às três da tarde, em frente à Catedral.
No dia seguinte, às três horas em ponto, ele estava lá.
Um vendedor de flores aproximou-se e pôs-lhe um envelope nas mãos.
- Uma dona pediu para entregar, moço.

Amaro, podes escolher. Vá 1) PARA O INFERNO ou 2) PARA A PUTA QUE TE PARIU. Para teres certeza da nobreza de minha alma, certifiquei-me quanto aos endereços. Se ambos não forem o mesmo lugar, certamente devem ser casas vizinhas, de modo que não perderás a viagem.
P.S.: Bondade tem limite.
P.S2.: Se tinhas dúvidas, agora sabes: o Diabo também existe.